Jogos eletrônicos: problema de saúde mental

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Ana Beatriz B. Manoel Suzan* A evolução tecnológica permitiu uma mudança social, profissional e cultural no mundo que conhecemos, de forma que o momento atual é marcado pelas relações virtuais. Somos expostos a um ambiente repleto de estímulos e com grandes recompensas o que facilmente pode levar a comportamentos potencialmente viciantes. Os jogos eletrônicos cresceram juntamente com essa evolução e, são parte da cultura mundial.1

Com a facilidade de acesso à internet, os jogos começaram a estar à disposição a qualquer hora, literalmente na palma da mão de qualquer pessoa, não importando a idade. A partida possibilita ao usuário realizar o que não poderia ser feito normalmente, onde o prazer de jogar se intensifica à medida que o jogador vivencia experiências anormais num ambiente “seguro” em que nada pode impedi-lo de alcançar o que deseja.1

A ilusão de parecer ser fácil ganhar

A Organização Mundial de Saúde (OMS) incluiu o “transtorno por jogos eletrônicos” como um problema de saúde mental na 11ª Classificação Internacional de Doenças (CID11) (ORGANIZATION, 2018). Esse transtorno é caracterizado como um padrão comportamental que interfere ao ponto de o jogo se tornar mais importante que outros interesses e atividades diárias, levando ao comprometimento significativo no âmbito pessoal, familiar, escolar, social, profissional ou outras áreas importantes de funcionamento do indivíduo.

Nessa onda dos jogos eletrônicos on-line, surgiram os jogos de apostas do tipo “slot”, que têm um mecanismo semelhante às máquinas caça níquel, ao acertar a combinação de três figuras iguais, o apostador recebe prêmios em dinheiro, levando as pessoas a se endividarem cada vez mais, ou seja, o usuário de tal prática, perde o domínio sobre o jogo, tornando-se incapaz de controlar o tempo e o dinheiro gasto, mesmo quando está perdendo.

O vício que vem da gratificação emocional

O jogo patológico apresenta sérios prejuízos pessoais e profissionais, sempre em razão da intensidade dos sintomas compulsivos e de humor. As compulsões, comportamentos compulsivos ou aditivos são hábitos aprendidos e seguidos por alguma gratificação emocional, normalmente um alívio de ansiedade e/ou angústia. A adicção (vício) é uma enfermidade crônica que se caracteriza por uma busca patológica da recompensa e/ou alívio através do uso de uma substância ou outras condutas.2

A revista The Lancet, em agosto de 2024, publicou um artigo, no qual, mostra que 1,4% dos adultos em todo o mundo estão envolvidos em jogos de azar de forma problemática. Uma das maiores dificuldades em perceber esse tipo de vício é de que os sinais são menos óbvios do que os perceptíveis com o uso de drogas e álcool.

Quais os riscos do vício para o nosso cérebro e para nós?

Nosso cérebro funciona pela lógica da dualidade: recompensa/castigo e dispõe de sistemas que guiam e direcionam os estímulos que produzem bem-estar e prazer. Uma das suas funções fundamentais é a capacidade de atribuir um valor emocional/motivacional a qualquer estímulo, permitindo identificar um estímulo como gratificante, o qual faz com que queiramos nos aproximar dele, ou reconhecer o estímulo como aversivo e então evitá-lo.2

Todo vício supõe uma ruptura do equilíbrio no sistema de recompensa. Perde-se o controle exercido pela região do cérebro, responsável pelo planejamento e tomada de decisão, sobre os circuitos que gerenciam os estímulos gratificantes, que podem ser artificiais ou naturais.2 Esse circuito neural complexo do cérebro é envolvido em todo tipo de vício, inclusive o de jogos, pois busca comportamentos que resultem em recompensas e promove a repetição deles.

 

Busca sem controle do prazer

Como consequência, se produz um aumento na concentração de dopamina, o neurotransmissor envolvido na motivação que leva a experiência de prazer e recompensa, influencia a motivação e o comportamento pela busca de recompensas. Sem dopamina, nós não teríamos a energia para ir atrás do que nos dá prazer e não buscaríamos alcançar nossos objetivos, o que é muito bom. Mas, na pessoa com vícios ou dependências, ela busca sem regras esse estímulo, necessitando cada vez mais de dopamina. Perde-se o controle e, em vez de refletir, a pessoa age de modo automático e compulsivo.

Em resumo, os níveis elevados de dopamina “ensinam” ao cérebro a buscar a droga, o álcool ou aquela atividade/conduta, criando uma armadilha no sistema de recompensa. Como resultado, a capacidade da pessoa para experimentar o prazer com as atividades que estimulam a recompensa de forma natural, também diminui. Então, a pessoa sente-se desmotivada, desanimada, necessitando participar cada vez mais dessas atividades prazerosas para experimentar a mesma sensação prazerosa que tinha antes de desenvolver a dependência. No caso dos jogos sejam vídeo games ou de azar, as recompensas são inúmeras, a variedade de níveis, personagens, situações, dinheiro ganho e gasto, são inalcançáveis.2

Somos livres para decidir

Embora tudo isso provoque uma mudança na estrutura cerebral dessas pessoas, o cérebro humano tem uma capacidade maravilhosa de se “remodelar”, claro que não é simples e muito menos fácil, mas é possível. Embora tenhamos um cérebro, nós não somos um cérebro, somos pessoas humanas, e como tal, somos livres, ou seja, temos a capacidade de decidir quem queremos ser.

A primeira coisa importante é olhar para a realidade, com bastante humildade e reconhecer que precisa de ajuda, no que precisa de ajuda e o que precisa ser mudado. Os casos de adicção, na maioria das vezes, necessita-se de ajuda profissional, um terapeuta, psicólogo e/ou psiquiatra.

Conhecer-se e alinhar suas expectativas. Se elas forem irreais, inalcançáveis, você pode se decepcionar e perder a motivação. Então, tenha clareza de onde você quer chegar e mais ainda, tenha consciência de que não será fácil e que precisa de ajuda.

A pessoa precisa ter clareza do que a motiva a se esforçar. Motivação não é sinônimo de alegria. Motivação é o que impulsiona a fazer algo, mesmo quando não se está no melhor estado emocional. Lembrem-se, somos pessoa humana e não cachorrinhos que simplesmente reagem diante de um estímulo. Nós conseguimos captar a verdade da realidade que se apresenta diante de nós e então a partir daí escolher o bem.4

O que te motiva? Quais são seus valores?

Pode ser o amor por sua família, seu trabalho, algo que você precisa realizar, seu apostolado, o amor à Deus e a Mãe de Deus. Quais são seus valores? Família, Deus, Amor, trabalho, amizade, confiança, lealdade, enfim, o que te norteia na tomada de decisão? Afinal de contas, quem decide é você, sou eu. De quem é a vida?

Saber o que você quer, qual o esforço necessário para conseguir e certificar-se de que a recompensa vale a pena, são essenciais para a motivação. Então: o que te motiva? Quais são suas expectativas? Elas são reais ou inalcançáveis? Do que você tem medo? Do que você se esquiva? Qual a maior recompensa que você busca hoje para sua vida?

 

Avante: Auto educação!

O tempo que vivemos é esse, 2024, com grande avanço tecnológico, tempo de automatização, inteligência artificial, relações virtuais. Pe. Kentenich, ao falar sobre autoconhecimento e autoeducação, diz que não podemos “retornar à Idade Média, arrancar os trilhos dos trens, cortar os fios dos telégrafos, rejeitar a eletricidade, devolver o carvão às minas, fechar as universidades.”5 Hoje, com certeza, ele diria que não temos que acabar com as redes sociais, com os jogos on-line, com a internet, arrancar os cabos de fibra ótica.

Mas, precisamos dominar tudo isso e colocar a serviço do Reino de Deus. Para isso, precisamos investir em nosso autoconhecimento e no domínio de nós mesmos. Com alegria e confiança nas graças do Santuário, “Avante! Avancemos nas pesquisas e conquistas de nosso mundo interior, através de uma autoeducação consciente. Quanto mais progresso exterior, tanto mais aprofundamento interior.”5

 

Referencias:

1Azambuja, L.S; Gonçalvez, M.K. Onde termina o uso recreativo e inicia a dependência de jogos eletrônicos: uma revisão da literatura. Aletheia v.54, n.1, p.146-153 Jan./jun. 2021

2 Moratalla, N.L; Arellano, M.F. Neuropsicologia de la infância y la adolescência. Universidade de Piura. 2ª edição. 2020.

3 Delanogare, E. P. Motivação importa mais que disciplina. E-book. 2024

4 Delanogare, E. P. Qual é o seu suco?. E-book. 2023

5 Kentenich, Pe. José. Documento de Pré Fundação, 1912

 

* Ana Beatriz Biagioli Manoel Suzan pertence a União de Famílias de Schoenstatt e é Logoterapeuta

 

 

Publicado em 01 de outubro de 2024

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