A adultização da criança o infantilismo do adulto

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Imagem criada pela IA (gemini)

 

Ana Beatriz B. Manoel Suzan* – A valorização da beleza, da moda e da fama na cultura contemporânea, amplificada pela mídia e pela publicidade, tem provocado um “borramento” das fronteiras entre infância e vida adulta.

As crianças, antes compreendidas como uma categoria distinta, passam a ser inseridas precocemente no universo adulto – seja pelo consumo, pela antecipação de responsabilidades ou pelo acesso a informações que reduzem a distância em relação ao mundo dos mais velhos. Nesse processo, o marketing exerce papel central ao produzir discursos e imagens que projetam nas crianças atributos tradicionalmente associados aos adultos, transformando-as em consumidoras ativas e, muitas vezes, em “miniadultos”. A publicidade, ao direcionar produtos e mensagens infantis com apelos estéticos, de status e de comportamento adulto, reforça a construção de uma infância adultizada, marcada pela antecipação de desejos, valores e estilos de vida que extrapolam sua etapa de desenvolvimento (Silveira et al., 2010).

A adultização da infância

Recentemente, o influenciador Felca (Felipe Bressanim Pereira) deu visibilidade a um tema delicado e urgente: a adultização da infância. Trata-se de uma questão que atinge famílias, escolas, instituições, políticas públicas, redes sociais e plataformas digitais, sendo discutida há décadas por profissionais da educação, psicologia e assistência social.

A adultização não se limita ao fato de crianças assumirem papéis e responsabilidades fora da sua faixa etária – fenômeno que pode ocorrer por múltiplos fatores, como trabalho e exploração infantil, negligência e violência familiar, alienação afetiva ou perda precoce dos pais. O aspecto mais alarmante é a erotização infantil, visível em ensaios fotográficos de meninas e meninos em poses sensuais, muitas vezes associadas a brinquedos, bichos de pelúcia, uniformes escolares ou elementos do universo infantil, o que alimenta redes de pedofilia. Fruto de uma sociedade pansexualizada, esse processo banaliza o assédio e reduz a gravidade da pedofilia, colocando em risco a segurança física e virtual das crianças.

Se é necessário responsabilizar as plataformas digitais por permitirem tal exposição, é inevitável também questionar: Onde estão os pais e responsáveis dessas crianças?

A infantilidade dos adultos

Em muitos casos, como o próprio Felca denuncia, são eles que consentem e até incentivam a participação dos filhos nesse tipo de exposição em busca de curtidas, fama ou visibilidade. Podemos refletir se a adultização da criança não é, em alguns casos, a consequência de adultos infantis. É de se pensar se é mera coincidência que a midiática adultização de crianças é acompanhada pelos adultos com bebê reborn e as redes sociais repletas de adultos com chupeta na boca.

A sociedade atual evidencia uma maturação precoce da infância, em que meninos e meninas são expostos cedo demais a experiências físicas e emocionais para as quais ainda não estão preparados. O acesso irrestrito a estímulos midiáticos, a educação sexual desvinculada de valores, padrões de consumo e subculturas juvenis contribuem para comportamentos adultizados, entre os quais a erotização.

O descompasso do desenvolvimento

Já em 1950, o Pe. José Kentenich advertia: “o amadurecimento do corpo começa mais cedo do que há decênios; o amadurecimento espiritual, porém, deve ser considerado como pronunciadamente tardio.” Esse descompasso fragmenta o desenvolvimento humano: a maturidade física se antecipa, enquanto as dimensões psíquica e espiritual permanecem imaturas, resultando em fragilidade emocional, prolongamento da adolescência e dificuldades na assunção de responsabilidades.

A mídia e a indústria cultural, ao sexualizar corpos infantis e impor desejos artificiais de consumo, acentuam a confusão entre as etapas da vida, enfraquecendo a consciência crítica e reduzindo a infância a um espaço de prazer imediato e de imitação do universo adulto. A ausência de mediação familiar e o fortalecimento de subculturas de pares agravam esse quadro, deixando os jovens vulneráveis e sem referências sólidas de valores e sentido.

Vivemos, portanto, uma crise de autoridade, entendida não como autoritarismo, mas como a capacidade de “gerar crescimento”. Para o Pe. Kentenich, a resposta para a crise de autoridade madura e desprendida passa pelo querer e se empenhar para vivermos como filhos diante de Deus. Então, surge novamente a pergunta:

Como ser pai e mãe, se não sabemos ser filhos?

Para responder a esse desafio, Pe. Kentenich propõe o caminho da filialidade heroica, que integra três atitudes: humildade, confiança e dedicação.

  • Humildade heroica: reconhecer nossa fraqueza e limites.
  • Heroísmo da dedicação: doar-se ao Amor eterno e infinito, superando a tentação de viver apenas para si.
  • Heroísmo da confiança: apoiar-se em Deus, unindo maturidade humana e entrega espiritual.

A filialidade heroica não é infantilismo, mas, é a vivência madura da condição de filhos diante de Deus, que nos permite, por consequência, ser verdadeiros pais e educadores. Pestalozzi já advertia: “a maior infelicidade do tempo atual é a filialidade perdida, porque torna impossível a paternidade de Deus.”

Assim, a superação da adultização e erotização precoce das crianças passa por uma profunda renovação da vida familiar e comunitária, pautada na responsabilidade mútua, no espírito de serviço e na coragem de assumir os valores do Evangelho. Como disse Pio XII: “a tragédia não consiste em que os maus sejam maus, mas em que os bons não tenham coragem de o ser.”

Precisamos, enfim, recuperar as atitudes de Maria, permitindo que a natureza humana seja aperfeiçoada pela graça, para que nossas crianças possam viver plenamente a infância, sem serem arrastadas para uma vida adulta que lhes rouba a inocência e compromete sua formação integral. Ela é nossa Mãe e educa o filho que há em nós, porque recebemos essa filiação divina em nosso batismo. O filho que, a semelhança de Cristo, protege as crianças e as deixa viverem a sua infância.

 

Referencias:

Silveira, C.N et al. O fim da infância? As ações de marketing e a “adultização” do consumidor infantil. Recursos e Desenvolvimento Empresarial • RAM, Rev. Adm. Mackenzie 11 (5) • Out 2010

Lukas, E. A unique Approach to Family Counseling – Logotherapy, crisis and Youth. Purpose Research. Charlotte- Virgnia. 2020.

Kentenich, J. Linhas Fundamentais de uma Pedagogia Moderna para o educador católico. Santa Maria -RS, 1984.

 

* Ana Beatriz Biagioli Manoel Suzan pertence a União de Famílias de Schoenstatt e é Logoterapeuta

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