
Pe. Carlos Padilla – Entre os relatos mais marcantes do Evangelho está o encontro de Jesus com um homem cego de nascimento (Jo 9,1-41). Ele vive à margem da sociedade, sentado à beira do caminho e pedindo esmolas para sobreviver. Nunca viu a luz nem enxergou o mundo ao seu redor. Sua condição parece definitiva. No entanto, quando Jesus passa por ele, algo inesperado acontece. O Evangelho narra que Jesus cuspiu no chão, fez barro com a saliva, colocou o barro sobre os olhos do cego e lhe disse: «Vai lavar-te na piscina de Siloé» (cf. Jo 9). O homem obedece, vai até a piscina, lava-se e volta enxergando. Aquele que antes vivia nas trevas agora pode ver.
O milagre que provoca questionamentos
A notícia se espalha rapidamente. Os vizinhos e aqueles que costumavam vê-lo pedindo esmolas começam a discutir entre si se realmente se trata da mesma pessoa. Alguns afirmam que sim, outros duvidam. O próprio homem insiste que é ele mesmo. O que deveria causar admiração, porém, desperta também desconfiança. Alguns líderes religiosos passam a investigar o ocorrido e procuram um motivo para acusar Jesus. A cura foi realizada em dia de sábado e isso se torna motivo de crítica. Alguns afirmam que Jesus não pode vir de Deus porque não respeita o sábado, enquanto outros se perguntam como alguém considerado pecador poderia realizar sinais tão extraordinários.
A discussão deixa de girar em torno da alegria daquele homem que voltou a enxergar. O foco passa a ser a norma e o modo como o milagre aconteceu. Esse episódio revela algo que também aparece muitas vezes na vida cotidiana. Nem sempre o bem realizado é reconhecido imediatamente. Às vezes ele é julgado pelas formas, pelo momento ou pelas expectativas das pessoas. O preconceito e as ideias já formadas podem impedir alguém de perceber aquilo que realmente aconteceu.
Um gesto que recorda a criação
O modo como Jesus realiza a cura possui um significado profundo. Ele se inclina, toca a terra e faz barro. Esse gesto recorda a origem da própria humanidade, quando Deus modela o homem do pó da terra. Não se trata apenas de devolver a visão a um homem que nunca enxergou. É como se um novo começo estivesse acontecendo. Aquele homem começa a ver o mundo pela primeira vez.
Mais tarde, quando encontra novamente Jesus, acontece algo ainda mais importante. Jesus pergunta: «Crês no Filho do Homem?» O homem responde: «Quem é, Senhor, para que eu creia nele?» Então Jesus revela: «Tu o estás vendo. É aquele que fala contigo». O homem declara: «Creio, Senhor» e se prostra diante dele. A cura física conduz a um encontro mais profundo. O homem que recuperou a visão passa também a reconhecer quem é Jesus.
A confiança que abre caminho para a fé
Algo chama atenção nessa história. O cego não pede o milagre nem suplica por ajuda. Jesus simplesmente o vê e toma a iniciativa. Quando recebe a ordem de ir lavar-se na piscina de Siloé, ele obedece e caminha ainda sem enxergar, confiando na palavra de Jesus. O barro colocado em seus olhos não parece um remédio lógico para a cegueira, mas ele aceita e segue adiante.
A confiança abre espaço para o milagre. Antes mesmo de enxergar, ele se deixa conduzir. A história recorda que a fé muitas vezes nasce assim. Ela não começa quando tudo já está claro, mas quando alguém decide confiar mesmo sem ver plenamente o caminho.
Da cegueira à luz
O relato também revela que a maior cegueira nem sempre está nos olhos. Muitas vezes ela nasce no interior, quando alguém se prende às próprias certezas ou aos preconceitos e se torna incapaz de reconhecer aquilo que Deus realiza diante de si. Enquanto o homem curado começa a enxergar, alguns que se consideram conhecedores da lei permanecem incapazes de reconhecer o milagre.
A Escritura recorda essa passagem das trevas para a luz: «Antes éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz» (cf. Ef 5,8). A luz revela aquilo que estava escondido e permite reconhecer o que realmente tem valor. Não se trata apenas de enxergar com os olhos, mas de perceber a realidade com o coração iluminado pela verdade.
Essa experiência também aparece nas palavras do Salmo: «O Senhor é meu pastor, nada me falta. Mesmo que eu atravesse vales escuros, nada temo, porque tu estás comigo» (cf. Sl 23). A imagem do pastor expressa a confiança em um Deus que conduz o caminho mesmo quando a estrada parece obscura. Ele guia para lugares de descanso, fortalece as forças e orienta pelos caminhos certos.
A história do cego de nascença recorda que todos precisam aprender a ver de verdade. Muitas vezes o olhar se detém apenas nas aparências, no imediato ou no superficial. A fé convida a olhar mais profundamente e a reconhecer a presença de Deus nos acontecimentos da vida cotidiana, nos gestos simples e até nas fragilidades da existência. Assim como aquele homem passou das trevas para a luz, cada pessoa é chamada a deixar-se iluminar. A verdadeira visão nasce quando o coração se abre para reconhecer Deus presente no caminho da própria vida.
* Trechos traduzidos e adaptados de homilia do 4º Domingo da Quaresma, de 15 de março de 2026.