
Geralmente usamos o termo amor a Deus para expressar vinculação a Deus. As qualidades inerentes a esse amor podem ser facilmente deduzidas do conceito de santidade. Já o conhecemos: é a santa e perfeita harmonia entre a afetuosa vinculação a Deus, ao trabalho e ao próximo em todas as situações da vida.
Vinculação agradável a Deus
Conforme esta definição, nossa vinculação a Deus, em primeiro lugar, deve ser santa e perfeita, isto é, agradável a Deus, de maneira excelente ou em grau muito elevado. Não basta a vinculação exigida por Deus, através de um mandamento, que obriga sob pecado. Agrada muito mais a Deus o que o homem faz impelido pelo amor, correspondendo à vontade, aos desejos e conselhos de Deus, do que aquilo que faz só por dever.
Conhecemos a passagem da sagrada Escritura, em que o jovem rico vai ao encontro de Jesus e lhe pergunta o que deve fazer para alcançar a vida eterna. Jesus lhe indica os mandamentos.
Ele, porém, já os conhecia e observava desde a juventude. No entanto, quer algo mais. Então — continua o texto — Jesus fitou-o com amor e lhe disse: “Uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres. Depois vem e segue-me!” (Mc 10,21). Primeiro Ele revela ao jovem suas ordens, depois seus desejos.
Assim, muitas vezes, Deus se apresenta a nós, ora solicitando, ora desejando algo. Parece que está a dizer-nos: Isto ou aquilo me agrada muito. Não o exijo por meio de um mandamento. Porém, se o fizeres, causar-me-ás grande alegria e, em recompensa, dar-te-ei uma torrente de graças. Jesus não fez somente o que agradava ao Pai? O programa de sua vida era a vontade do Pai. E por isso, pôde dizer: “Eu faço sempre o que é do seu agrado!” (Jo 8, 29).
Em primeiro lugar é a obediência aos mandamentos que mais agrada a Deus. Mas isto não basta. Ele quer o mais elevado, o heroísmo que brota do manancial inesgotável de um forte e íntimo amor a Deus. E o amor não conhece limites. Em síntese, a vinculação a Deus é perfeita e santa, quando atinge um grau tão elevado que procura realizar não só a vontade de Deus, mas seus conselhos e desejos. Temos diante de nós exemplos luminosos na vida dos santos.
Vinculação hamoniosa
Além desta qualidade, nossa vinculação a Deus deve ser harmoniosa. Tentaremos esclarecêlo com um exemplo. Tocando-se um acorde ao piano, a harmonia dos sons fere agradavelmente nosso ouvido. Se porém, forem tocados três sons quaisquer, não combinados entre si, sentimos logo a desarmonia. Algo nos incomoda. Ou, consideremos um trio, em que três instrumentos diferentes tocam simultaneamente. Suposto que todos executem bem, só haverá harmonia perfeita quando os diversos instrumentos tocarem com a mesma intensidade. Se um deles tocar muito alto em relação aos outros, não haverá harmonia. Da mesma forma, deve reinar harmonia entre a nossa vinculação a Deus, ao trabalho e ao próximo. Havendo esta harmonia, nossa vinculação a Deus não será um impedimento para a vinculação ao trabalho e ao próximo, antes, porém, servirá como fundamento vantajoso e constante força propulsora que estabelece a união.
Isto se verifica na vida de Santa Isabel. Ela amava a Deus, verdadeiramente. No entanto, quão grande era também seu amor ao esposo, aos pobres e aos doentes! Em Deus e por causa de Deus ela amava a todos cordial e intimamente. Como filha de reis e condessa, não teve receio de entrar nas mais pobres choupanas e desempenhar ali trabalhos de serva. Varria e limpava o chão, arrumava as camas, curava as feridas e pessoalmente levava o alimento aos necessitados.
O antônimo da harmonia é a desarmonia. Vejamos outro exemplo, retratando aspectos da vida. Talvez esclareça melhor como deve ser a vinculação harmoniosa a Deus na vida do cristão.
Uma senhora, mãe de família, gosta de ir diariamente à igreja, mas justamente na hora em que o esposo sai para o trabalho e as crianças se aprontam para a escola. Então, naturalmente, há grande confusão em casa. Um dos pequenos não quer levantar-se, dois outros brigam, um se queima ao servir o café, o menor chora no berço e o esposo vai para o trabalho, irritado, aborrecido e sem café. Enquanto isso, a mãe está rezando na igreja!
Aí está um exemplo de vinculação a Deus, completamente desarmoniosa, porque deforma inteiramente a vinculação ao próximo e ao trabalho. Esse modo de amar a Deus não forma nossa vida.
Um outro exemplo: Uma senhora perde muitas vezes a missa aos domingos; sempre há outros pretextos: uma vez, ela receia que a visita, de crença diferente, possa interpretar mal sua ida à igreja; ou, talvez, que esta não seja atendida convenientemente enquanto ela estiver fora de casa. Noutro domingo acontece que, saindo, a casa não ficará encerada e arrumada até o almoço e isto lhe tira o bom humor para o resto do dia. Deste modo sempre há motivo para excusas. Que lhe falta? — Sem dúvida, sua vinculação a Deus foi menos desenvolvida que a vinculação ao trabalho e ao próximo. Temos, neste caso, um exemplo de total desarmonia.
A vinculação afetuosa
Nossa vinculação a Deus também deve ser afetuosa; não permanecer somente nas idéias, porém, dimanar da vontade e do coração, até chegar à intimidade com Deus e ao embevecimento de Deus.
Imaginemos uma mãe diante do berço de seu filhinho. Será que ela o toma nos braços, e lhe dá tudo o que precisa, considerando apenas que deve alimentá-lo para que não morra de fome? ou que precisa cuidar dele porque ainda não pode valer-se? ou porque deve amá-lo conforme o desejo de Deus expresso na Sagrada Escritura? Oh! não! Seria um amor frio, movido somente pela inteligência, por idéias; um amor sóbrio demais, alimentado apenas pela vontade, e, portanto, indigno de uma verdadeira mãe. Suas relações são muito mais espontâneas! O pequenino e frágil ser desperta no coração materno toda a riqueza do amor, toda a necessidade e alegria de doar-se. Sem refletir muito, ela toma o filho nos braços, aperta-o carinhosamente ao coração e, com toda a ternura de seu amor, dá-lhe tudo o que precisa. Este é o amor afetuoso ideal, um amor que dimana da inteligência, da vontade e do coração.
Da mesma forma, nossa vinculação a Deus é afetuosa quando vontade e coração estão perfeitamente vinculados a Ele.
Se a santidade consistisse numa vinculação a Deus, somente no âmbito das idéias, então os homens mais inteligentes e sábios deveriam ser os mais santos. No entanto, não é o que sempre ocorre, porque santo é o homem totalmente imerso em Deus, vinculado a Ele pela inteligência, vontade e coração. Nele a natureza está realmente compenetrada pela vida sobrenatural, atingindo também, em parte, o subconsciente. Tudo o que entra em contato com Deus torna-se divinizado, e aos poucos toda a agitação e embaraço interior tendem a desaparecer, pois em geral estes têm origem na vida instintiva inconsciente.
Para atingirmos nosso objetivo é indispensável precaver-nos contra dois perigos: nunca forçar afetos e sentimentos; também não iludir-nos com afetos alheios que facilmente aceitamos, sem reflexão, e que nos induzem depois a uma falsa valorização de nós mesmos. Tais afetos não cresceram organicamente em nós; é algo postiço, que desaparece ao primeiro sopro do vento.
Sadia e vigorosa dedicação a Deus, só é possível quando a alma se esforçar por conhecê-lo sempre melhor e mais profundamente através da oração, desapegando-se de tudo o que for desordenado. Por isso seu amor não é cego, romântico e sentimental. Para ele a meditação calma e profunda é luz, é força que alimenta; o desprendimento sério e desejado por Deus é a prova de sua autenticidade.
Vinculação constante
Nossa vinculação a Deus ainda deve possuir um quarto atributo: deve ser constante, mantendose presente em todas as situações de nossa vida. É santo quem sempre está vinculado a Deus, mesmo nas ações mais comuns da vida. É o “Vinctus Christi”, o prisioneiro de Cristo, que jamais dele se afasta.
Nossos pais e avós e as pessoas simples do povo, muitas vezes compreendem magistralmente essa realidade. Ao lhes acontecer algo de agradável, dizem alegremente: “Graças a Deus”. Ao tentarem algum negócio importante ou quando são atingidos por algum sofrimento, seus lábios formulam imediatamente palavras de conformidade: “Em nome de Deus” ou “Seja tudo como Deus quiser”.
As crianças também nos dão verdadeiras lições neste assunto:
— Papai, lá em cima é o céu?
— Sim.
— O Menino Jesus mora lá?
— Sim, minha filha!
— Ele nos enxerga aqui na janela?
— Sim, ele nos vê.
— Papai, vamos abanar para o Menino Jesus?
— Então, filhinha, vamos abanar, juntos!
E assim, querendo ou não, o pai teve de acenar para Deus, quem sabe, pela primeira vez em sua vida.
Quantas vezes poderíamos refletir sobre a lição que nos dá esta criança, ao avistarmos a torre de uma igreja ou contemplarmos o céu estrelado! Seria este um caminho para atingirmos uma afetuosa vinculação a Deus, como nos ensina o cristão.