Cozinha, um lugar “divino”

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Cozinhar com zelo é um ato de amor

Sandra Regina Féres – Não importa a estação, se verão, outono, inverno ou primavera, sempre é tempo de buscar conforto e aconchego dentro de casa, ao lado da família e dos amigos. Como é bom sentar-se à mesa quando a fome bate e comer a comida mais gostosa que é a da casa da mamãe, da vovó, daquela tia querida; aquela comida feita com amor! Tudo isso nos remete à mesa, reunião de família, visita de amigos… Prazer e afetividade na cozinha são essenciais.

Para muitas pessoas, a cozinha é um dos lugares mais importantes da casa, pois quando dedicamos tempo e realizamos algo com prazer e afeto, sentimos uma sensação muito boa! É assim com o ato de cozinhar. Quem gosta de cozinhar pode se divertir e, ao mesmo tempo, levar uma vida mais plena com sua família e amigos preparando pratos deliciosos em casa.

Para nós, cristãos, o compartilhar ao redor de uma mesa nos traz também a presença de Jesus, “o Pão vivo descido dos céu”, e de Maria, nossa Mãe. E, como schoenstattianos, também a presença de nosso Pai e Fundador, Pe. José Kentenich, de Gertraud von Bullion, Ir. M. Emilie Engel, João Pozzobon… com palavras que nos “alimentam” e preenchem nossa vida de graça, perdão e compaixão.

A cozinha pode nos “levar para o céu”?

 

Para responder a essa questão, vejamos alguns exemplos:

 

– Benedito: Um santo cozinheiro

A história de São Benedito conta que ele foi designado para ser cozinheiro no Convento dos Capuchinhos. E, apesar de analfabeto e leigo – pois não havia sido ordenado sacerdote – sua piedade, sabedoria e santidade levaram os irmãos de comunidade a elegê-lo superior do Mosteiro. Ao terminar o tempo determinado como superior, reassumiu, com muita humildade e alegria, suas atividades na cozinha do convento.

Benedito fazia da cozinha um santuário de oração e fervor. Vivia sempre alegre e com muita mansidão, conquistando a todos com sua comida saborosa e sua simpatia. A cozinha era, para ele, um verdadeiro templo de entrega ao trabalho com amor e dedicação. Assim, o jovem rapaz conquistou todos com o sabor dos alimentos e seus sorrisos espontâneos, acompanhados por sábios conselhos.

São Benedito tornou-se protetor da cozinha e dos cozinheiros, aparecendo, sobretudo, como “gestor da provisão”, aquele que não deixa faltar coisa alguma (fonte: cnbb.org.br).

 

– Em meio às panelas, também anda o Senhor

Santa Teresa de Ávila, em ‘O Livro das Fundações’, escreveu para as suas monjas as seguintes palavras: “Irmãs, recordem: Deus está entre as panelas, na cozinha. Mas como, o Senhor do universo se move na cozinha do mosteiro, entre jarras, panelas, pratos, caçarolas e frigideiras? Deus na cozinha significa levar Deus a um território de proximidade. Se você não o sente doméstico, isto é, dentro das coisas mais simples, você não encontrou o Deus da vida. Ainda está na representação racional do Deus da religião” (Fonte: Rádio Vaticano)

 

– Desde o primeiro livro da Bíblia

Nos escritos do Gênesis descobrimos que Sara, por exemplo, costumava cozinhar; percebemos, além disso, que Abraão também sabia, pois ele diz à esposa a medida certa para fazer o pão: Abraão foi depressa à tenda de Sara: “Depressa, disse ele, amassa três medidas de farinha e coze pães”. Correu em seguida ao rebanho, escolheu um novilho tenro e bom, e deu-o a um criado que o preparou logo. Tomou manteiga e leite e serviu aos peregrinos juntamente com o novilho preparado, conservando-se de pé junto deles, sob a árvore, enquanto comiam (Gn 18, 6-8)

 

Pe. Kentenich e a santidade na cozinha

Nosso Pai e Fundador, Pe. José Kentenich, sempre convidava a buscar a santidade em cada momento do dia a dia, também na cozinha. Para isso, ele conta uma história: “Num convento vivia um Irmão com fama de santidade. Além das orações obrigatórias, precisava ocupar-se todo o dia junto ao fogão, cozinhando para a grande comunidade. Perguntando-lhe como é que conseguia cultivar as relações com Deus, tendo tão poucas ocasiões de ocupar-se com leituras espirituais e assistir sermões edificantes, ele apontou para o fogão e respondeu: ‘Lá dentro há um bom pregador a quem ouço todos os dias. Estas rubras chamas me falam sem cessar do amor de Deus e me estimulam a nunca deixar que o amor a Deus esfrie. Todas as manhãs, ao acender o fogo, quando a chama crepita, peço ao bom Deus que conserve em mim a chama do primeiro amor. Quando o braseiro diminui um pouco, dou-lhe mais lenha e rezo pequenas jaculatórias, suplicando as graças que me parecem necessárias. Às vezes penso nos castigos do purgatório e do inferno. Quando o fogo arde regularmente, deixo que minha alma se abrase tranquila e calorosamente no amor de Deus e das almas. E à noite, quando o fogo se apaga, lembro-me de que minha vida também há de apagar-se, lembro-me da morte e do próprio desaparecimento’. A partir daí seus confrades compreenderam porque este Irmão era tão santo, pois vivia constantemente na presença de Deus e ouvia sua voz, apesar do incessante e difícil trabalho na cozinha” [1].

Pe. Kentenich nos diz isso porque, ao passar o dia cozinhando com amor, “não só os tornam [as pessoas] felizes, mas, pelo seu sacrifício, também movem a Mãe de Deus a realizar milagres da graça a partir daqui”. [2]

Como é importante a simplicidade do partir o pão, compartilhar momentos bons e, às vezes, não tão bons assim! Isso é vida, vivida no seu dia a dia. Assim, o ato de cozinhar é uma ótima ferramenta para quebrar barreiras, vencer as diferenças e cultivar um jardim regado de amor, porque cozinhar não é serviço, cozinhar é um modo de amar as pessoas.

 

 

Referências

[1] Santidade de Todos os Dias. Vinculação Profética às Coisas
[2] Às Segundas-Feiras ao Anoitecer, Diálogos com famílias, Volume 3 – Reflexo do Pai. Palestras para casais em Milwaukee/EUA. 30 de julho de 1956.

 

 

Publicado em 07 de junho de 2019

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