Cultura do Encontro (da Aliança) é nossa missão

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(Foto: Jumas Brasil)

 

Como vivemos a cultura do encontro em nosso dia a dia?

Karen Bueno – Vocês têm boa memória? Já se passaram mais de cinco anos, mas talvez ainda se recordem dessas palavras do Papa Francisco no encontro com a Família de Schoenstatt: “Hoje em dia estamos sofrendo desencontros cada vez maiores. […] Desencontros familiares, desencontros testemunhais, desencontros no anúncio da Palavra e da mensagem, desencontro de guerras, desencontro de famílias, ou seja, o desencontro. A divisão é a arma que o demônio tem”.

Bem, talvez você não tenha guardado exatamente este trecho na memória, mas certamente se lembra de uma expressão que é muito querida para o Papa: a “cultura do encontro”. E provavelmente não se esqueceu de uma afirmação que foi muito marcante para toda a Família de Schoenstatt: “Cultura do encontro é cultura da Aliança. E isso cria solidariedade”.

O diálogo: um caminho a se construir

O caminho do desencontro, ou a chamada “cultura da indiferença”, todos conhecem, é aquele que leva às brigas e inimizades. “Hoje em dia estamos vivendo nessa cultura do provisório, que é uma cultura de destruição de vínculos”, disse o Papa. Mas, essa situação não está aí para gerar desânimo. Pelo contrário, é um sinal de desafio e um convite à responder com ousadia, na certeza de que Deus é quem conduz tudo.

E o caminho mais acertado para combater as divisões, indicado pelo Papa, é o diálogo. Ou, como diria o Pe. José Kentenich, a vinculação. Mas, sabemos que isso não é fácil. É possível, por exemplo, carregar mágoa e rancor dentro da própria família por vários anos, sendo que um diálogo franco poderia ser o início de um caminho de reconciliação.

O diálogo representa abrir-se ao outro, por mais que esse “outro” seja e faça tudo de maneira diferente daquilo que penso ou acredito. Quer um exemplo? Muitos conhecem a história do Pe. Kentenich e a bicicleta. Você é capaz de imaginar que o Fundador de Schoenstatt pudesse ser amigo de um nazista? Ele, que era prisioneiro por combater as ideologias do nazismo? Bem, foi justamente isso que aconteceu – e tudo começou a partir de um diálogo. Para quem não conhece essa história, clique no botão abaixo:

 

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“O chefe do guardas do campo de concentração de Dachau, achando oportuno ‘abrandar’ o recém chegado (Pe. Kentenich) ao campo – que demonstrava muita tranquilidade e firmeza – começou a gritar grosseiramente com ele, fazendo-lhe todo tipo de pergunta.
Não recebendo respostas – Pe. Kentenich apenas o olhava com tranquilidade e sorria cordialmente –, enfurece-se mais ainda, fazendo um gesto de bater-lhe. Mas não chegou a fazê-lo.
Dias mais tarde, ambos tornaram a se encontrar no escritório no qual se depunham os dados pessoais. O Chefe reconheceu-o imediatamente.
– “Ei, prisioneiro, quero que você limpe a minha bicicleta”, disse lhe.
– “Sim, vou fazê-lo” – respondeu o Pe. Kentenich – “mas não porque eu devo fazer isso e sim porque, como homem livre, eu quero lhe presentear esse serviço”.
Surpreso com a resposta, o chefe respondeu:
– “Não, você não necessita fazer isso”.
Enquanto escrevia os seus dados pessoais, Pe. Kentenich perguntou-lhe porque, no dia anterior, ele tinha gritado tanto. Ele respondeu: “Aqui utiliza-se de tudo para infundir medo”.
E a partir desse momento o chefe levou-o para o seu aposento, contando-lhe toda sua vida. E ambos tornaram-se grandes amigos”.  [1]

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Mesmo que o Pe. Kentenich pensasse de maneira tão diferente da dele, ambos se tornaram próximos. Ambos não mudaram sua forma de pensar, mas criaram um caminho de proximidade e respeito.

“Aliança significa solidariedade. Significa criação de vínculos” (Papa Francisco)

O mesmo “caso da bicicleta” acontece, por exemplo, quando o Papa encontra-se, principalmente nas viagens apostólicas, com ditadores e líderes cujos princípios e valores são diferentes daquilo que ele acredita. Ou quando se coloca numa posição aberta e fraterna aos irmãos de outros credos religiosos. Isso é cultura do encontro: saber ouvir, dialogar; não se apoiar somente no “ouvi dizer”, no “me disseram”, mas ir a fundo nas questões mais complexas.

“A intenção do Papa é combater a indiferença que prevalece em todos nós, a superficialidade das relações, buscar um encontro verdadeiro e profundo com o outro. Mas, para que isso ocorra, afirma o pontífice, precisamos ser pacientes se quisermos entender quem é diferente de nós. […] É preciso termos um desejo genuíno de ouvir o outro, aprender a ver o mundo com olhos diferentes e apreciar a experiência humana que se manifesta em diferentes culturas e tradições”, escreve Maria Clara Bingemer, teóloga e professora da PUC-Rio [2].

Mas, o que isso tem a ver conosco, em nossa vida diária?

“… temos que trabalhar por uma cultura do encontro. Uma cultura que nos ajude a encontrarmo-nos como família, como Movimento, como Igreja, como paróquia. Sempre buscar como encontrar-se”, disse o Papa.

Este “encontrar-se” pode se tornar realidade quando pegamos as situações de conflito e tentamos dialogar sobre elas. As desavenças que possam existir na família, na paróquia, nos ramos e comunidades do Movimento tendem a perder força se ouvimos o outro.

E, como “andar se aprende andando e amar se aprende amando” [3], isso começa nas coisas pequenas, como numa briga em casal: o que eu posso fazer para amenizar uma situação de conflito com o meu cônjuge? (para aqueles que tiverem interesse, colocamos abaixo o testemunho de um casal). Ou então, outro exemplo, nas situações de fofoca, que sempre causam divisão, tentar silenciar e romper com esse ciclo. Para tudo isso, temos uma resposta: a cultura da Aliança é a cultura dos vínculos, é a cultura do encontro: essa é nossa missão!

Bônus: Uma sugestão do Papa para você

Aí vai mais um trecho do diálogo do Papa Francisco com a Família de Schoenstatt:

“Eu lhes recomendo, seria uma coisa linda se pudessem fazer nestes dias […]: Tomem o livro do Gênesis, a história de José, de José e seus irmãos. Como toda essa história dolorosa, de traição, de inveja, de desencontro, termina em uma história de encontro, que dá lugar a que o povo, por 400 anos, cresça e se fortaleça. Esse povo eleito por Deus, não? Cultura do encontro.
Leiam a história de José, que está em vários capítulos do Gênesis. Vai lhes fazer bem para ver que é o que se quer dizer com isso. Cultura do encontro é cultura da Aliança. Ou seja, Deus nos elegeu, nos prometeu, e fez uma aliança com seu povo.

 

E aqui está o testemunho de um casal, como prometemos (clique no botão):

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“Estávamos casados há pouco menos de 10 anos, com 3 filhos em idade escolar. As pequenas divergências foram se acumulando. Começou a ser mais difícil para os dois aceitar, com indulgência, as manias do outro. Havia entre os dois uma constante tensão latente. A comunicação diminuiu. Ele começou a deixar-se absorver cada vez mais pela sua vida profissional e a estar mais ausente. E quando presente, mostrava-se indiferente e silencioso. Ela começou a ignorá-lo, voltou-se para o seu trabalho e viu nascer em si a revolta de ter que ser ela a cobrir todas as necessidades dos filhos e a assumir a responsabilidade pela sua educação. Tinha sido um casamento de amor, mas agora havia se tornado uma convivência quase forçada entre duas pessoas que pareciam afastar-se cada vez mais uma da outra.

“Fui me confessar”, conta ela. “Não aguentava mais e disse-o ao confessor. Disse-lhe a minha revolta e tudo o que eu considerava ser o amor transformado em inimizade – para não dizer em ódio. E ele me ouviu, longamente, pacientemente. Depois, perguntou-me simplesmente se eu conhecia o costume dos escoteiros, de praticar todos os dias uma boa ação. ‘Experimente durante um mês praticar todos os dias uma boa ação para com o seu marido. Faça-lhe um favor. Facilite-lhe um trabalho. Dê-lhe um sorriso. Não espere resposta nem reconhecimento. Continue todos os dias a praticar uma boa ação para com ele. Experimente!’

Não foi sem lutas que comecei, lentamente, timidamente a deixar preparado um jantar que ele gostava. A preparar os papéis de que precisava para determinadas reuniões – como costumava fazer antes desta crise. A dar-lhe um sorriso, uma palavra amiga, um sinal de carinho. Depois de uma semana, ele trouxe flores que deixou em cima da mesa da cozinha. Começou a voltar para casa mais cedo. A jantar conosco. A dar atenção e carinho às crianças. Depois de mais uma semana, convidou-me para jantarmos fora, sozinhos, como costumávamos fazer de tempos em tempos. Então, falamos. E reconhecemos que cada um de nós tinha se entrincheirado por trás da teimosa expectativa de que o outro compreendesse as suas necessidades, o ajudasse a resolver aquele determinado problema, não pensasse tanto em si próprio, mas mais no outro. Reconhecemos que o problema todo residia no fato de cada um se ter voltado para si em vez de estar voltado para o outro. Contei ao meu marido a minha confissão e o meu propósito. A boa ação de todos os dias, que ele quis começar também a praticar para comigo, se tornou o fundamento sobre o qual reconstruímos o nosso amor!”
(Fonte: Diálogo em 4 dimensões – Temas para formação de casais e famílias. Olindo e Marilene Toaldo. 2ª edição, 2013, Capítulo 8)

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Referências:

[1] Novena Livre em Algemas, 5º dia

[2] Disponível em: https://domtotal.com/artigo/6709/30/05/a-cultura-do-encontro/

[3] Pe. José Kentenich, Documento de Pré-Fundação de

Todas as palavras do Papa foram retiradas do encontro com a Família de Schoenstatt, no dia 26 de outubro de 2014

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