Elder Semprebom – No dia 15 de outubro, o Brasil homenageia aqueles que dedicam a vida à educação. Mas quem é, verdadeiramente, o educador? Qual é sua missão em um tempo marcado por mudanças rápidas, novas tecnologias e profundas transformações culturais?
O Dia do Professor, celebrado no Brasil desde 1827, convida não apenas a reconhecer a importância de quem ensina, mas também a refletir sobre o sentido da missão de educar. A data coincide ainda com a memória de Santa Teresa de Jesus, Doutora da Igreja e tradicionalmente reconhecida no Brasil como padroeira dos professores.
Em um contexto marcado por rápidas transformações tecnológicas, pelo avanço da inteligência artificial e pelo risco de reduzir a educação à mera transmissão de conhecimentos ou preparação para o mercado, torna-se cada vez mais necessário recuperar sua dimensão humana e formativa. É justamente nesse horizonte que a pedagogia do Pe. José Kentenich oferece uma contribuição especialmente atual.
A reflexão a seguir toma como referência principal o livro “Minha Filosofia de Educação”, do Pe. José Kentenich, no qual se encontra uma síntese de sua visão pedagógica.

O educador para o Pe. José Kentenich
Afinal, qual é a missão de quem educa?
Desde os primeiros anos de sua atuação como diretor espiritual dos jovens seminaristas, a educação esteve no centro da missão do Pe. José Kentenich. No Documento de Pré-Fundação, de 1912, ele apresentou como ideal a formação de “personalidades firmes, livres e sacerdotais”. Mais tarde, essa intuição se desdobraria em uma ampla proposta pedagógica. Não por acaso, Schoenstatt pode ser compreendido como um “movimento de educadores e de educação”.
Em “Minha Filosofia de Educação”, Kentenich reúne elementos centrais dessa visão. Poucas frases resumem de modo tão expressivo sua compreensão do educador quanto esta: “Educadores são personalidades inflamadas de amor, que nunca abandonam este amor.”
Para Kentenich, é o amor que confere legitimidade interior à autoridade do educador. Trata-se de um amor com acento paternal, que “atua, formalmente, como doação pessoal ao tu humano, semelhante a Deus”. Na prática, essa atitude se traduz no compromisso de “estar no outro, estar com o outro e ser para o outro”. Educar, portanto, não é apenas transmitir conteúdos, mas colocar-se a serviço da vida que se deseja ajudar a florescer.
Esse amor educativo envolve três atitudes fundamentais: entrega, respeito e confiança. A entrega leva o educador a dedicar tempo, atenção, solicitude e oração àquele que lhe foi confiado. O respeito reconhece a originalidade de cada pessoa e evita qualquer forma de uniformização. A confiança, por sua vez, acredita nas possibilidades de crescimento do educando antes mesmo que os frutos estejam plenamente visíveis. Por isso, Kentenich descreve o cuidado paternal como a arte de abrir as almas, escutar, interpretar e orientar com sabedoria.
Na pedagogia kentenchiana, a autoridade não existe para controlar, mas para servir à vida e ajudá-la a crescer em liberdade. O educador é chamado a respeitar a originalidade do outro, construir vínculos de confiança e favorecer decisões cada vez mais pessoais e responsáveis.
Essa atitude, porém, pressupõe que o próprio educador viva uma relação filial diante de Deus. Kentenich afirma: “O amor paternal supõe um profundo amor filial ao Pai Celeste.” A experiência de ser filho não significa infantilização nem fraqueza. Significa reconhecer-se recebido, amado e sustentado por Deus, para que se possa amar sem possuir e orientar sem dominar.
É nesse contexto que aparece sua insistência no “renascer do pai”. Em “Minha Filosofia de Educação”, Kentenich chega a afirmar que “a tragédia da modernidade é, no fundo, a tragédia do pai”. Para ele, uma das grandes tarefas educativas consiste em reconstruir experiências confiáveis de paternidade: presença, estabilidade, autoridade serena, respeito e amor gratuito.
Crianças e jovens necessitam encontrar adultos que lhes transmitam segurança e, ao mesmo tempo, os ajudem a crescer em autonomia. Quando a relação educativa assume essa forma, ela deixa de ser apenas instrução e se torna também um espaço de restauração humana. O educador passa a colaborar para que pessoas feridas na capacidade de confiar e de amar possam reencontrar vínculos mais sadios e uma liberdade interior mais profunda.
A filosofia de educação de Kentenich: unir ciência e vida, natureza e graça
Um dos pontos centrais da proposta pedagógica de Kentenich é a superação da distância entre conhecimento e existência. Em “Minha Filosofia de Educação”, a educação schoenstattiana é apresentada como “ligação entre a teoria científica e a vida”. Isso significa que o conhecimento não deve permanecer abstrato ou separado da experiência concreta, mas tornar-se força capaz de iluminar decisões, vínculos, atitudes e projetos de vida.
Essa visão se apoia em três princípios fundamentais: a ordem do ser determina a ordem do agir; a união entre a graça e a natureza; e o amor como lei fundamental do universo.
O primeiro princípio indica que a educação deve respeitar a realidade da pessoa e a estrutura própria da natureza humana. Educar bem não significa impor arbitrariamente um modelo externo, mas favorecer o desenvolvimento daquilo que corresponde à dignidade e à vocação mais profunda do ser humano.
O segundo princípio recorda que graça e natureza não se opõem. A ação de Deus não elimina a humanidade, mas a eleva, purifica e aperfeiçoa. Por isso, a educação cristã deve levar a sério a dimensão espiritual sem desconsiderar os processos psicológicos, afetivos, corporais e relacionais da pessoa.
O terceiro princípio coloca o amor no centro de toda ação educativa. O amor não é apenas uma disposição afetiva ou uma atitude complementar; ele é a força que torna possível o verdadeiro encontro entre educador e educando e cria o ambiente no qual a pessoa pode crescer de modo livre e orgânico.
Formar o “homem novo”: liberdade, responsabilidade e paternidade educativa
Qual é, afinal, o resultado esperado dessa educação?
Para o Pe. José Kentenich, o objetivo não é formar alguém simplesmente obediente, eficiente ou bem informado. Seu horizonte é o “homem novo”, inserido em uma “nova comunidade”. Ele o descreve como “a personalidade autônoma, espiritualizada, capaz de e disposta a tomar decisões, responsável e interiormente livre, livre de escravização formalista como de um arbitrarismo total”.
Kentenich percebeu com grande lucidez o risco de uma pessoa que perde seu centro interior e passa a ser conduzida apenas pelas forças externas de sua época. É o homem “massificado, materializado, cansado de liberdade e incapaz de decisões”, levado de um lado para outro pela opinião pública, pelas tendências dominantes ou pelo poder de grupos e instituições.
Gratidão aos educadores
À luz de “Minha Filosofia de Educação”, o professor é aquele chamado a ser alguém que ajuda a formar pessoas inteiras – não apenas capazes de saber mais, mas de amar melhor, decidir com liberdade, assumir responsabilidades e encontrar sentido para a própria vida.
Por isso, a frase de Kentenich permanece atual: “Educadores são personalidades inflamadas de amor, que nunca abandonam este amor.” Educar é acreditar que, em cada pessoa, existe uma vida original que deseja desabrochar.
Neste Dia do Professor, recordemos com gratidão os verdadeiros mestres que passaram por nossas vidas e que, com amor, exemplo e dedicação, nos ajudaram a crescer, amadurecer e encontrar caminhos de realização e felicidade. Que Deus os abençoe por tudo o que semearam em nós.