Dois inimigos sutis da santidade

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Dicas do Papa Francisco para estar alerta

Flávia Ghelardi – No segundo capítulo da Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate, do Papa Francisco, ele chama a atenção para duas falsificações da santidade que podem nos tirar do caminho correto: o gnosticismo e o pelagianismo. São duas heresias que surgiram nos primeiros séculos do cristianismo, mas ainda hoje continuam a enganar e a seduzir as pessoas.

O gnosticismo atual

Para o gnosticismo o que importa é uma série de conhecimentos ou raciocínios que supostamente confortam e iluminam, mas, na verdade, fecham a pessoa em si mesma, na sua própria razão ou sentimento. “Em suma, trata-se de uma vaidosa superficialidade: muito movimento à superfície da mente, mas não se move nem se comove a profundidade de seu pensamento”. (GE 38)

“O gnosticismo é uma das piores ideologias, pois, ao mesmo tempo que exalta indevidamente o conhecimento ou determinada experiência, considera que sua própria visão da realidade seja a perfeição. Assim, talvez sem se aperceber, esta ideologia se autoalimenta e torna-se ainda mais cega. Por vezes, torna-se particularmente enganadora, quando se disfarça de espiritualidade desencarnada. Com efeito, o gnosticismo, «por sua natureza, quer domesticar o mistério» tanto o mistério de Deus e da sua graça, como o mistério da vida dos outros”. (GE 40)

Os gnósticos querem explicar tudo, querem ter tudo claro e seguro e assim pretendem “dominar” a transcendência de Deus. Querem entender a Deus com a própria razão, limitando sua atuação dentro dos padrões da inteligência humana. Acabam se julgando melhores que os outros, mais “santos”, porque conseguem explicar alguma coisa com certa lógica. O conhecimento, as luzes que a inteligência recebe para entender a doutrina, deveria sempre levar a amar mais a Deus e ao próximo e nunca para se sentir “superior” aos outros fiéis.

A tentação maior do gnosticismo é perder o sentido de filialidade, de infância espiritual que nosso Pai e Fundador, Pe. José Kentenich, tanto apreciava. O filho não precisa entender tudo o que o Pai faz, ele aceita os acontecimentos, pois sabe que é amado com amor infinito e tudo o que o Pai dispõe ou permite é para o seu bem, para a salvação da sua alma.

O pelagianismo atual

O pelagianismo coloca todo o poder da salvação na vontade humana, tudo depende do esforço pessoal. O moderno pelagiano esquece que “a escolha de Deus não depende da vontade ou dos esforços do ser humano, mas somente de Deus que usa de misericórdia” (Rm 9,16) e que Ele “nos amou primeiro” (1Jo 4,19).

“Quem se conforma com essa mentalidade pelagiana ou semi-pelagiana, embora fale da graça de Deus com discursos suaves, no fundo, só confia nas suas próprias forças e sente-se superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico”. (GE 49)

Como ensinava nosso Pai e Fundador, a graça supõe a natureza, ou seja, ela atua a partir do que nós somos e vai gradativamente nos transformando naquilo que Deus sonhou para cada um de nós, se assim permitirmos.

A graça não nos transforma de uma hora para outra em super-homens. O trabalho é lento e gradativo e quem recusa isso pode chegar até a negá-la e bloqueá-la, apesar de a exaltar com suas palavras.

Humildade é a palavra chave para nos livrarmos do pelagianismo. Saber que tudo vem de Deus e que até mesmo a nossa vontade de sermos santos é fruto da graça divina. “Só a partir do dom de Deus, livremente acolhido e humildemente recebido, é que podemos cooperar com os nossos esforços para nos deixarmos transformar cada vez mais”. (GE 56)

 

Fonte: Revista Tabor, edição 112 (versão resumida)

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