João Pozzobon, a coragem de se desinstalar

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Ir. M. Nilza P. da Silva – Uma das coisas que chama a atenção na vida de João Luiz Pozzobon é sua flexibilidade para mudar de planos, se desinstalar, seguir outro caminho. Tudo isso, sem ser relativista, mas, permanecendo firme em suas raízes da fé, em seus valores morais e seus princípios e compromissos com a família.

 

A exemplo de Maria, João diz sim ao inesperado de Deus

Assim como na vida de Maria, Deus agiu sempre de modo inesperado, na vida desse servo de Deus e na maioria das vezes, ele teve que caminhar iluminado apenas pela luz interna de sua fé. Ao seu grande desejo de ser sacerdote, Deus responde com a “demissão” por ser considerado incapaz. João sofre, a saudade no coração é imensa, mas, ele segue o caminho que Deus lhe abre e constitui uma família, com Teresa.

Quando tudo parecia ir bem, dois filhinhos saudáveis, a vida se encaixando. João paga aluguel e reúne suas economias, com planos de construir sua casa própria. Quando tudo se encaminha para começar a realizar seu sonho, seu pai contrai uma imensa dívida e pede emprestado ao filho, por tempo indeterminado, tudo o que ele tem de reserva. João conversa com sua esposa e decidem juntos: “Retirei, então, o dinheiro do Banco e me dirigi à casa de meu pai, com a decisão de pagar-lhe todas as dívidas. Depois, quando ele pudesse, me devolveria o dinheiro. Se não pudesse… eu era seu filho, ele meu pai. Assim ficamos.”[1]

 

Fiquei só e com dois filhos

A economia recomeça, a esperança o mantém em atividade. Cada mês é um passo mais perto da realização de sua casa própria. Mas, Deus envia o inesperado: Teresa adoece gravemente. Após muitas tentativas de tratamento, sem sucesso, João deixa a segurança de sua terra natal e vai com sua família, de mãos vazias, em busca do desconhecido numa cidade grande. Começa de novo tudo do zero: casa, profissão, amigos. Ele deixou de novo todos os seus planos, para seguir o que Deus mostrava e confia na resposta divina: a cura de sua esposa. Mas, essa cura não chega. Teresa falece e João está de novo sozinho. Ou melhor, está com seus dois filhos, distante dos parentes, e precisa cuidar deles: “Fiquei só, com dois filhos, e compromissos (dívidas) atrasadas.”[2]

João sofre de novo na escuridão da fé e se desconhece até hoje alguma reação de revolta. Com certeza que houve muito sofrimento, muito tatear para saber como continuar. A conselho de seu pároco, João constitui uma nova família com Vitória e recomeça. Após pouco tempo, o dono da casa em que ele morava, pagando aluguel, sem comunicar-lhe antes, vende a propriedade e João está na rua, sem dinheiro e sem saber para onde ir. Aluga outra casa, que precisa de reformas, é o que dava para pagar, e segue a vida.

 

Começou uma nova vida

Agora, parece que enfim tudo se estabiliza: João abre um pequeno comércio, tem mais 5 filhos, leva uma vida cristã com sua família e acompanha a vida paroquial. Então, entre sua casa e a paróquia, se começa a construção de um Santuário, e João acompanha. A espiritualidade de Schoenstatt responde aos anseios profundos de seu coração “Schoenstatt trouxe para mim grande mudança, um enorme enriquecimento de minha fé, e uma missão a realizar, um grande apostolado.”[3]

Um dia, no encanto de uma visita ao Santuário, João é convidado para rezar o terço numa família e acompanha. No final, a Irmã lhe confia essa imagem e, a partir desse 10 de setembro de 1950, a vida de João Pozzobon “bagunçou de vez”. Nos próximos 35 anos, até sua morte, João vive de inesperado em inesperado, caminhando dia e noite com a Peregrina sobre os ombros. Ele diz: “quando me encontrei com Schoenstatt, quando comecei a Campanha, começou uma nova vida, uma vida diferente… Compreendi que tinha que fazer despertar o heroísmo. Não só o cumprimento do dever. Mas, o heroísmo de entrega total.”[4]

 

Nunca mais João parou

“Por amor junto à santa imagem milagrosa da Mãe e Rainha, em romaria, João ocupou dois mil quatrocentos e cinquenta camas diferentes”[5]

Numa retrospectiva de sua vida, anota que a Mãe de Deus sempre o acompanhou e que se tinha saudades, não era de ter uma vida fácil. Mas, sim,

  • “A grande saudade:
  • quando andava em longas caminhadas;
  • quando subia montanhas;
  • quando, arriscando-me, atravessava rios;
  • quando não tinha o que comer;
  • quando me chamavam de louco;
  • quando caminhava debaixo de fortes chuvas;
  • quando andava com fortes geadas;
  • quando me sentava à beira da estrada: Oh, Mãe, não tenho mais força!;
  • quando me deitava no gramado na frente do Santuário, esperando minha hora de adoração;
  • quando, diariamente, assistia à Santa Missa em teu Santuário;
  • quando foi fundada a “Vila Nobre”
  • quando foram os dias de mortificação a pão e água;
  • quando trotava para chegar no horário;
  • quando dormia molhado;
  • quando o sapato me fazia sangrar o pé;
  • quando estive perdido numa cidade;
  • quando se exigiam sacrifícios para a conversão de alguém;
  • quando queriam me apedrejar;
  • quando estive detido numa rodoviária por falta de documentos;
  • quando passava as grandes inundações, em cima de um tronco;
  • quando desejava comer ervas para saciar a fome;
  • quando um touro me quis atropelar;
  • quando os sacerdotes se reuniram, proibindo-me de visitar as pessoas de outras religiões;
  • quando batia nas portas das casas religiosas, e não era recebido;
  • quando estive no Schoenstatt original, França e Roma;
  • quando caí e sofri uma torção aguda do pé;
  • quando estive hospitalizado para uma operação;
  • quando caminhei a pé 119.000 Km, sem contar as viagens de carro;
  • quando sofri, durante 21 anos, de problemas físicos, para não interromper a Campanha;
  • quando passei por humilhações e duras provas;
  • quando partiu minha esposa, mãe de família;
  • quando me encontrei pessoalmente com o Pe. José Kentenich.

Com essas recordações quero dar testemunho de que Ela me acompanhou, com a força da graça.”[6]

Ao celebrarmos hoje, mais um aniversário de nascimento do Diácono Pozzobon, seu exemplo de vida nos anime a seguir com esperança, quando Deus nos desinstala, a continuar a amar, quando nós também não sabemos como seguir e a sermos firmes na fé, quando Deus muda todos os nossos planos e não vemos um palmo para frente.

Como diz Pozzobon: “As renúncias e o amor à Cruz transformam nossa vida. Eu era grande quando me sentia pequeno.”

 

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[1] Heroi hoje, não amanhã

[2] Idem

[3] Idem

[4] Idem

[5] Idem

[6] Ver a lista completa no livro: Heroi hoje, não amanhã.

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