Mão no pulso do tempo: Você está seguro que não é um dependente digital?

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Foto: Thirdman em Pexels

Daniel Gomes – A maior disponibilidade de internet wi-fi, a popularização do uso dos smartphones e a expansão das interações pelas redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas têm feito com que as pessoas permaneçam por mais tempo diante das telas e, não raro, se tornem dependentes digitais.

A dependência digital é uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em linhas gerais, alguém é considerado dependente digital quando o tempo em que permanece no ambiente virtual atrapalha a convivência no mundo real e a pessoa apresenta sintomas de nomofobia, medo ou ansiedade pela falta do telefone celular, cujos sintomas mais comuns são o desprezo pelas relações na vida real, mudanças repentinas de humor, percepção alterada do tempo, perda de sono e até depressão.

 

Uma situação que é comprovada

Em 2022, a empresa Hibou, que se dedica a pesquisas e insights de mercado e consumo, apresentou um estudo segundo o qual 56% dos brasileiros disseram não ficar longe do próprio smartphone por mais de uma hora.

Em um outro levantamento, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 16% dos entrevistados consideraram que o uso de smartphones prejudica a performance no trabalho e afeta os relacionamentos familiares; e para 9%, o uso excessivo leva a problemas de saúde.

 

Como se chega a essa dependência?

Em entrevista ao jornal O SÃO PAULO, da Arq. de São Paulo, a médica Aline Sabino, psiquiatra da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, ressalta que qualquer pessoa pode desenvolver dependência digital.

“A sensação de prazer/satisfação ao acessar as telas está atrelada a um sistema de recompensa. Você precisa ir acessando cada vez mais e por mais tempo este recurso para obter esta recompensa, mas chega um momento em que há um fluxo tão intenso de dopamina [o neurotransmissor que causa sensação de prazer] no organismo e já não existe mais o triângulo busca-recompensa-satisfação; pula-se da busca à satisfação/prazer. No caso do vício em redes sociais, a pessoa passa a acessá-las cada vez mais e de forma automática, como se dá com um dependente químico em relação à droga”, explica.

A psiquiatra lembra, ainda, que não é incomum que a dependência digital leve a outros vícios, como em álcool e drogas: “Isso tem relação com a necessidade de cada vez mais ser preciso aprimorar a fonte de recompensa, pois chega-se a um nível que só determinado hábito já não satisfaz mais a pessoa”.

 

Como prevenir e tratar

Aline Sabino explica que uma das estratégias para auxiliar alguém a se livrar da dependência é apresentar-lhe outros sistemas de recompensa, para que gradualmente reduza a frequência de acesso a uma rede social ou um jogo, e foque em outras ações que tragam prazer/ satisfação, como a prática de uma atividade física.

“O que fazemos no tratamento é ajudar o cérebro a reencontrar outras fontes de prazer, à medida em que consegue refazer redes de apoio, de amigos, retomar os estudos, desenvolver uma carreira profissional ou acadêmica. Com o cérebro se alimentando de novas recompensas, a pessoa, pouco a pouco, se liberta daquela dependência tóxica ou tecnológica”, detalha.

Quanto à precaução para que crianças e jovens não se tornem dependentes digitais, Aline ressalta ser indispensável que os pais deem exemplo, pelo uso controlado dos smartphones e computadores, e que as escolas limitem ao necessário ou até impeçam o uso de telefone celular pelos estudantes.

“Crianças e jovens devem ser ensinados que ter acesso a um smartphone ou a um tablet não é a única fonte de prazer na vida. É importante que os pais proporcionem aos filhos outras formas de interação social. Fortalecer os vínculos familiares também é fundamental. Que retomem o hábito dos jogos de tabuleiro, sentem-se para comer juntos, façam outras atividades em família. Focar a atenção no núcleo familiar é uma estratégia muito interessante para distanciar o filho das telas e fornecer uma rede de apoio na qual ele se fortaleça também para dar conta da pressão social que sofre para sempre estar conectado”, recomenda a psiquiatra.

 

Foto: SHVETS production em Pexels

Papa Francisco: “A vida real não é virtual”

Em abril deste ano, em viagem a Budapeste, na Hungria, o Papa Francisco exorta os jovens a tecerem mais relações presenciais do que no ambiente virtual:

“Hoje, a grande tentação é contentar-se com um telefone celular e qualquer amigo. Não é grande coisa, por favor! Embora seja isso o que muitos fazem e ainda que seja também o que te apetece fazer, isso não te fará feliz. Tu não podes fechar-te num grupinho de amigos e dialogar apenas por meio do telefone celular: trata-se de uma coisa – desculpe a palavra – um pouco estúpida… A vida é real, não virtual; não acontece num visor, a vida acontece no mundo!”.

Sinais de que alguém está viciado em Redes Sociais

1) A pessoa consulta as redes assim que se levanta e antes de se deitar;

2) Sente-se inquieta se não tiver o smartphone ao alcance da mão;

3) Utiliza as redes sociais enquanto caminha ou dirige;

4) Sente-se mal se não receber likes, retweets ou visualizações;

5) Prefere comunicar-se com amigos e familiares pelas redes sociais;

6) Sente a necessidade de compartilhar nas redes qualquer coisa de sua vida;

7) Acha que a vida dos outros é melhor do que a própria, em função do que vê nas redes;

8) Faz check-in em cada local aonde vai.

 

Você é dependente?

O Instituto Delete, fundado em 2008 na Universidade Federal do Rio de Janeiro, desenvolveu um teste on-line para verificar se alguém está viciado ou faz uso consciente da internet, do telefone celular, das mídias sociais e do WhatsApp.

Não se trata, porém, de um diagnóstico clínico. Acesse: https://institutodelete.com/soudependente.

 

Os riscos das “drogas digitais

Em recente entrevista à revista Veja, a psiquiatra norte-americana Anna Lembke, professora da Universidade Stanford, classifica os telefones celulares, a internet e as redes sociais como “drogas digitais”, uma vez que “ativam os mesmos circuitos que as drogas mais tradicionais, como o álcool. Isso significa que liberam dopamina – nosso neurotransmissor de prazer – no sistema de recompensa do cérebro. Quanto mais dopamina liberada, mas viciante é a experiência”.

Anna estima que de 10% a 15% da população mundial desenvolverá dependências relativas a estas tecnologias e precisará de intervenção médica. A especialista lembra, ainda, que o uso exacerbado das redes sociais pode ser altamente prejudicial à saúde mental e desencadear hostilidade, bullying, humilhação e cancelamento.

Questionada sobre as propostas de descriminalização da maconha no Brasil, Anna Lembke é enfática: “Quando se legaliza qualquer droga, nós a tornamos mais acessível. Mais pessoas irão utilizá-la e será mais danoso. Tem sido assim em diversos países. Muitos apontam Portugal como exemplo de sucesso, mas eles já tinham diretrizes para direcionar as pessoas a centros de tratamento de dependência e é por isso que funciona lá. Não se pode fazer a descriminalização sem ferramentas para socorrer os que serão prejudicados pelo aumento do acesso”.

Acesse a entrevista no site da Revista Veja: https://veja.abril.com.br.

 

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Fonte do artigo: https://osaopaulo.org.br/brasil/um-problema-diante-das-telas-a-dependencia-digital/

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