Natal: A volta do Pai e Fundador

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Delexit Ecclesiam – Dia da volta do Pai e Fundador do Exílio.

Karen Bueno – Um capítulo importante da história do Movimento é vivido entre os anos de 1951 e 1965 por toda a Família Internacional de Schoenstatt, anos de dor e sofrimento, mas também de uma riqueza e unidade ímpares na Obra. Seguindo uma determinação da Igreja – zelosa e cuidadosa como é e deve ser – o Pe. José Kentenich é afastado de sua Obra e exilado nos Estados Unidos.

A experiência imposta pela Igreja busca reconhecer de onde surge o Movimento Apostólico de Schoenstatt, se é fruto da vontade de Deus, por iniciativa divina, ou apenas uma fundação humana, sem o atuar do Espírito Santo. As barreiras e dificuldades vencidas provaram: Schoenstatt é Obra de Deus, foi sonhado pelo Criador, é a terra de Maria.

 

Uma missão para todos os povos

No período da Segunda Guerra Mundial, Schoenstatt cresce e conquista mais e mais corações que se deixam inspirar pelos ideais de seu Fundador – é nessa época que são enviadas as primeiras Irmãs de Maria à América, dando o passo inicial para a expansão mundial. A Divina Providência mostra, por seu atuar, que Schoenstatt não deve se limitar às fronteiras alemãs nem europeias, por isso o Pai e Fundador, quando livre do campo de concentração de Dachau, inicia uma série de viagens por diversos países, passando pela América do Sul, África e Estados Unidos, numa tentativa de cultivar contatos internacionais e ajudar os schoenstattianos desses países a edificarem ali a Obra da Mãe e Rainha.

Também após a saída do Fundador de Dachau, é lançada a primeira edição do ‘Rumo ao Céu’, o livro de orações escrito pelo Pe. Kentenich no campo de concentração, que revela traços bem próprios do carisma schoenstattiano, ajudando a difundir a espiritualidade da Obra. Com o Movimento ganhando sempre mais vida, atraindo novas vocações e tendo ele uma pedagogia bem diferente dos padrões da época, naturalmente atrai para si o olhar da Igreja, que questiona a fundação e o Fundador.

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Abertura à Igreja

As discussões sobre o Movimento de Schoenstatt cresciam na Conferência Episcopal Alemã, e vários aspectos da pedagogia da Obra – como os textos do Rumo ao Céu e o uso de alguns conceitos como “contribuições ao Capital de Graças” e “contrato bi-lateral” – geravam dúvidas entre os bispos. Nesse período o Pe. Kentenich viajava pela América do Sul e enquanto estava na Argentina, comunicaram-lhe sobre a situação complexa envolvendo o Movimento; ele envia então uma carta ao arcebispo Bornewasser dizendo que, “se for útil à causa, mande um homem de confiança para Schoenstatt, para estudar a Obra”.

A visitação canônica a Schoenstatt acontece de 19 a 28 de fevereiro de 1949, e era um desejo de ambos os lados, tanto da Igreja, como do Pai e Fundador. Seu resultado é bastante positivo para o Movimento, porém alguns pontos do relatório revelavam certa objeção: “o sistema e a praxe educativa na Família das Irmãs, assim como os cânticos e orações da Família de Schoenstatt com sua terminologia própria deveriam ser submetidas a um exame ”. Depois da visita canônica, o bispo de Treves envia o relatório ao Pe. Kentenich e pede uma posição dele a respeito do mesmo.

 

Sob o cuidado e a proteção de Maria

Pe. Kentenich, desde algum tempo, observa coisas que não lhe agradam na vida eclesial, o que ele chama de pensamento idealista-mecanicista. Com as guerras e o avanço tecnológico, o ser humano deixa de viver de maneira orgânica, inspirado pelo Espírito Santo, e se torna um ser mecânico, que age sem muita reflexão; há uma profunda ausência de personalidades autênticas. Outra questão que o Fundador observa é a crise dos vínculos, uma sociedade em que os homens não são capazes de se vincular entre si, nem com Deus, nem com o trabalho ou a natureza, um ser humano que separa Deus de sua rotina. Essas linhas de pensamento modernas, para o Pe. Kentenich, influenciavam de maneira negativa a vida da Igreja.

Com ousadia, o Pai e Fundador escreve todas essas reflexões na carta que envia em resposta aos bispos alemães. No texto ele explica a fundamentação teológica de Schoenstatt, seus objetivos e ideais, e faz as críticas que considera pertinentes. A primeira parte dessa carta é depositada no altar do Santuário de Bellavista/Chile, no dia 31 de maio de 1949, em sinal da entrega total da Obra nas mãos de Maria nesse momento decisivo – esse ato representa o 3º Marco Histórico de Schoenstatt.

Em 1951 a problemática chega a uma etapa definitiva. Depois de vários decretos limitando a relação do Fundador com sua Obra, em 1º de dezembro é apresentado um documento determinando que o Pe. José Kentenich deve deixar a Europa, e o Santo Ofício lhe designa a casa dos Padres Pallottinos em Milwaukee/EUA como novo lar.

 

Em unidade, como uma só Família

Os 14 anos de Exílio do Pai e Fundador nos Estados Unidos são de grande sofrimento para toda Família Internacional de Schoenstatt. O Movimento passa a ser perseguido e enfrenta diversas barreiras, como a retirada do Santíssimo de alguns Santuários e várias outras proibições. Mesmo assim os membros se mantem fiéis, e a Obra segue viva e heroica nas “catacumbas” da Igreja.

Ainda que exilado, o Pai e Fundador permanece com seu caráter firme e paternal. Por meio dele muitas pessoas experimentam o amor de Deus, o que só faz crescer a Obra de Schoenstatt nos Estados Unidos. Surge desse período a corrente de Santuários Lares e dos vários encontros do Fundador com os casais nasce uma rica literatura para a Obra das Famílias.

As iniciativas para libertar o Pai são inúmeras por parte de seus filhos. Ir. M. Fernanda Balan conta que havia duas correntes fortes com finalidade de por fim ao exílio do Pe. Kentenich: uma se tratava do caminho diplomático, onde os superiores do Movimento e os membros mais influentes da Obra mantinham contato com as autoridades da Igreja, numa tentativa de conseguir aliados. O outro caminho, seguido por toda Famílias, eram as inúmeras contribuições ao Capital de Graças.

“O Pai e Fundador valorizava o caminho diplomático, mas queria ser livre, como no 20 de janeiro de 1942, por meio da oração, do sacrifício e das ofertas heroicas de seus filhos ao Capital de Graças. Esse era o empenho que nos tocava mais de perto, a nós que estávamos tão distantes aqui no Brasil, e que nos unia, todos os Institutos, Uniões e Ligas na época. Era uma total e filial concentração de forças, de amor pela Obra e pela missão de Schoenstatt e pelo carisma do nosso Fundador”, recorda Ir. M. Fernanda.

 

Tempo de vitória

Todo o amor e entrega da Família se comprovaram fecundos. Em 13 de setembro de 1965 o Pe. Kentenich recebe um telegrama solicitando-lhe que vá imediatamente para Roma – não se sabe quem nem de onde essa correspondência foi enviada.

Depois de várias idas e vindas, muitas discussões e questões burocráticas que evolviam a presença do Fundador de volta à Europa, no dia 20 de outubro os Cardeais do Santo Ofício, em sessão plenária, suspendem todas as resoluções que impediam o Pe. Kentenich de atuar com sua Obra.

Em 22 de outubro de 1965, o Papa Paulo VI recebe o Pai e Fundador em audiência e confirma a resolução dos Cardeais, encerrando oficialmente o exílio do Pe. Kentenich – exatamente 14 anos após ele ter deixado Schoenstatt.

 

A grandeza do Exílio

Para Ir. M. Fernanda Balan, essa conquista foi possível, em grande parte, por conta do Concílio Vaticano II. As discussões do Concílio abrangiam as críticas que o Pe. Kentenich fez à Igreja, e nesse momento de Pentecostes os bispos do mundo todos se atentaram para o pensar idealista-mecanicista que reinava em suas estruturas. Schoenstatt antecipou a nova imagem da Igreja pós-conciliar, e isso é reconhecido com a liberação do Fundador de seu exílio.

Pe. Kentenich ensina: “O que herdastes de vossos pais, conquistai-o para possuirdes”. Todos os filhos de Schoenstatt são herdeiros de uma rica história de amor e entrega, tanto por parte do Fundador como dos congregados que aderiram à sua missão ao longo dos anos.

A história de Schoenstatt traz momentos de louvor, de conquistas, mas também de sofrimentos e batalhas; somando-se todas essas histórias chega-se a um grande e eterno Magnificat cantado ao Bom Deus e à Mãe Três Vezes Admirável, que se mostra Vencedora de todas as batalhas.

Schoenstatt nasceu do coração de Deus, e tornou-se a pupila dos olhos da Mãe e Rainha; essa era uma certeza que reinava no coração de todos os filhos espirituais do Pe. Kentenich, e que teve a confirmação definitiva por parte da Igreja nos anos de exílio. O período em que o Pai é afastado da Obra não fala somente de sofrimento e tristeza, ele revela a grandeza da Obra de Schoenstatt, sem esse capítulo da história o Movimento não seria tão rico e grandioso como se tornou aos olhos de Deus, da Igreja e, mais ainda, de seus inúmeros filhos no mundo todo.

 

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