“Os que levam a Igreja adiante são os santos”

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“O primeiro favor que vos peço é a santidade” (Papa Francisco, encontro com a Família de Schoenstatt, 26.10.2014)

Eu cheguei a Milwaukee com uma amiga minha, nós duas éramos estudantes universitárias cheias de ideias, teorias para conquistar o mundo com a razão. Quando o Pe. Kentenich nos perguntou tão bondosamente: “Por que vieram?” Nós tiramos uma lista enorme com 50 perguntas sobre espiritualidade, sobre a visão de futuro, sobre a problemática da Igreja, do país, da economia, da política, queríamos a resposta do Pai a essas interrogações e, para quê? Para voltar à nossa universidade e, com o grupo de schoenstattianas, analisar, avaliar, sistematizar. O Pai pegou a lista, leu com muita atenção, depois dobrou o papel, pôs de lado e disse: “Isto vamos discutir antes que voltem à Alemanha!” – Mas, “Padre, para isso nós viemos!” […] Ele disse: “Eu tenho outro plano, o que vocês acham? Primeiro quero estar à disposição de cada uma, pessoalmente. […] Isso é justamente o que faremos, colocaremos ordem no coração, em toda a sua pessoa, em sua vida”. Imaginem nossa reação, nós que éramos jovens, cheias de valentia, de planos, de visões de futuro e nesse momento o Pai nos chamava a atenção sobre a ordem de nossa própria personalidade. […] E todas as dúvidas da lista? “Estas perguntas as senhoras mesmas vão responder quando houver ordem em seu próprio coração”, ele respondeu.

 

A Ir. M. Petra Schnuerer vivenciou esse episódio quando era bem jovem e ainda nem pensava sobre sua vocação. Ela e seu grupo de amigas tinham um grande desejo de mudar o mundo e ajudar a renovar a Igreja. Para buscar respostas, elas trabalharam, juntaram dinheiro e enviaram duas representantes, da Alemanha, numa jornada ao encontro do Pe. José Kentenich, que vivia nos Estados Unidos, para saber o que ele pensava sobre essas questões. Esperavam encontrar nele respostas para as grandes questões globais, mas o Pe. Kentenich as conduziu, em primeiro lugar, a descobrir seu próprio mundo interior, pois – ele disse – as respostas elas mesmas teriam quando houvesse ordem em seu coração.

A Ir. M. Petra, esta jovem “revolucionária”, conviveu como secretária do Pe. Kentenich por três anos e mais tarde se tornou Irmã de Maria de Schoenstatt. Atuando ao lado dele, ela observou o seguinte: nosso Pai e Fundador “solucionava os problemas da Igreja no pequeno espaço de sua vida diária”. Ou seja, ele vivia, na rotina do dia a dia, aquilo que acreditava ser a resposta para as grandes questões da Igreja. Essa constatação mostra que é possível, também a cada um hoje, ajudar a renovar a Igreja a partir da vida diária. Como assim? Dois teólogos nos ajudam nessa reflexão:

Só podemos mudar o mundo se mudamos a nós

Para o Pe. Rodrigo da Rosa Cabrera, sacerdote da Arquidiocese de Santa Maria/RS e membro do Instituto dos Padres Diocesanos de Schoenstatt, a santidade é a principal resposta:

“Em primeiríssimo lugar está a nossa identidade de filhos de Deus e membros da Igreja. Nós sabemos que a Igreja é chamada santa, porque fundada por nosso senhor Jesus Cristo. Agora, os homens da Igreja, com a sua natureza ferida pelo pecado original, podem cometer grandes pecados – assim como de fato cometem – e isso pode entristecer, pode até escandalizar muitos membros da Igreja ou mesmo a sociedade.

Podemos ajudar a resolver os grandes problemas da Igreja no espaço da nossa vida diária sendo fiéis à Igreja e àquilo que ela nos pede. Em primeiro lugar, ter uma verdadeira conversão de vida, porque só podemos mudar o ambiente, mudar alguma coisa, se mudamos a nós. A conversão do mundo, a conversão daquilo que nós queremos converter, começa dentro de nós mesmos. Então, devemos estar conscientes da necessidade de estarmos convertidos, de mudarmos.

Foi nesse sentido que o nosso Pai e Fundador tanto insistiu no autoconhecimento, para que nós tenhamos muito claro que o nosso primeiro chamado é à santidade, é a alcançarmos o céu. Então, para solucionar os problemas da Igreja, nós primeiro mudamos a nós mesmos, dando um testemunho firme e decidido da nossa fé católica; e isso se torna um grande testemunho para aqueles que estão ao nosso redor, porque não adianta levantarmos grandes bandeiras, fazermos grandes manifestações e grandes movimentos, se nós não mudamos a nós mesmos em primeiríssimo lugar – esse mundo “sempre antigo e sempre novo”, como disse o nosso Pai e Fundador lá no início. Então, eu acredito que essa frase tem um eco muito importante para os dias de hoje, quando muitos se sentem motivados a renovar as estruturas da Igreja, renovar as paróquias, os movimentos… Esse desejo de renovação deve passar, em primeiro lugar, pelo nosso coração e pela nossa alma, só assim nós podemos fazer algo de concreto na Igreja”.

Apontar os problemas com profundo respeito

Para Geni Maria Hoss, membro da União Apostólica Feminina de Schoenstatt e doutora em Bioética, o caminho passa pelo testemunho pessoal.

“Os desafios de cada época e lugar nos interpelam a dar uma resposta. A melhor resposta, segundo o Pe. Kentenich, é aquela que se sustenta sobre o nosso testemunho de vida. Não se trata, em primeiro lugar, de fazer discursos, mas de encontrar uma solução a partir da vida e só depois apresentá-la como solução. O amor à Igreja, uma herança preciosa do Pe. Kentenich ao Movimento, é muito mais que uma ideia, ela implica em muitos desafios, especialmente quando o barco da Igreja é balançado de um lado a outro e mudanças se fazem necessárias. Podemos e devemos identificar os problemas para que possamos efetivamente dar a nossa melhor contribuição.

A maturidade na fé e a consciência de que cada batizado é membro vivo da Igreja nos permitem ler os acontecimentos como interpelações que requerem uma resposta de nossa parte. Quem ama verdadeiramente a Igreja vê suas feridas sem esmorecer no seu amor a ela, pois sabe que a Igreja é comunidade de fé e, ao mesmo tempo, sujeita a todas as vicissitudes humanas. A Igreja não é só santa nem só pecadora. Ser Igreja, viver Igreja hoje, adotando este ensinamento do Pe. Kentenich, significa discernimento e respeito. Neste ponto, o Pe. Kentenich foi um grande exemplo. Ele não deixou de apontar os problemas da Igreja, mas, ao contrário do que acontece hoje em muitos ambientes, ele os apontou com profundo respeito e responsabilidade movida pela consciência de sua missão, que é a missão de Schoenstatt.

Infelizmente a polarização em diversas esferas sociais se projeta para dentro da Igreja e líderes religiosos, incluindo o Papa, são muitas vezes duramente atacados e julgados arbitrariamente. Um autêntico discernimento, fruto do Espírito Santo, identifica os desafios, mas trata-os com responsabilidade e respeito, como convém àqueles que aprenderam de Jesus a lição do amor ao próximo, que exclui qualquer julgamento e desrespeito. Amar a Igreja é amá-la com sua beleza espiritual e suas feridas humanas, assim como o Pe. José Kentenich ensinou, sobretudo, por meio de atitudes concretas”.

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