
Os tempos difíceis de crise levam muitas pessoas a se perguntarem: Por que Deus faz isso conosco? Por que ele nos envia tanto sofrimento? Por que tantas mortes, tanta fome, tanta desunião? O número de perguntas é tão grande – e importante de serem feitas – que até parece um retorno à fase da infância, quando perguntávamos sem parar: “Papai, por que isso? Mamãe, por que aquilo?”
Esses questionamentos revelam, de certa forma, que nossa imagem de Deus precisa ser ainda amadurecida e aprofundada. E eis que chegou a hora! As crises podem ser oportunidades especiais para se reconhecer Deus por trás de cada situação. O Pe. Rafael Fernandez, neste trecho abaixo, nos fala sobre a ação do Pai Eterno em nossa vida, que jamais “envia” sofrimento, mas sim “permite” que ele aconteça – e nisso há grande diferença. Veja abaixo:
Muitas vezes cremos que o mal existente no mundo vem de Deus. Atribuímos a Ele todas as desgraças e maldades com que nos deparamos. Mas com isso cometemos um erro. Não é Deus quem introduz o mal no mundo. Quando concluiu a criação, relata-nos o livro do Gênesis: “E Deus viu que tudo era bom”. O demônio e o homem são os que, pelo pecado, introduziram o mal no mundo.
Onde há pecado, há desordem e dor. Mas, por que Deus permite que o homem peque? Simplesmente porque quis criar o homem como uma pessoa livre: fê-lo à sua semelhança, não como o resto da criação; a dos vegetais, a dos insetos, a dos animais que os fez como seres determinados por leis físicas ou por seus instintos. Em outras palavras, não lhes deu a capacidade de decidir e de amar. E essa é a grandeza do ser humano. Mas, sendo o homem livre, ele supunha que podia abusar de tal liberdade. E isso é o que fez.
Grande parte de nossas crises, com respeito à fé prática na Divina Providência, se fixam precisamente aqui. Escandaliza-nos o mal que há no mundo e nos perguntamos como pode existir um Deus Pai que permite tudo isso. Nós dizemos: “Se Deus existe, como pode haver tanta miséria e injustiça?” Deduzimos, então, ou que Deus não existe ou que não se preocupa conosco. Esquecemos que também nós somos agentes ativos na história, atribuímos a Deus coisas das quais nós somos responsáveis.
Somos nós que, pelo pecado, introduzimos o mal no mundo. E isto, desde o princípio. Portanto, se consideramos a realidade do pecado e a influência do demônio no mundo, não devemos estranhar que estejamos aqui na terra sempre rodeados de misérias.
Compreender plenamente este conjunto de realidades, tampouco será possível nesta vida. Sempre nos encontramos diante do misterioso plano de Deus. No entanto temos a certeza: se Deus permite a dor e a cruz, é por um bem maior.
Permite-o, em primeiro lugar, porque nos quer pessoas livres. E, se pecando, abusamos de nossa liberdade, Ele não nos abandona. Sempre nos estende a mão misericordiosa para devolver-nos a dignidade perdida.
E se permite ou coloca cruzes em nosso caminho, por elas nos faz crescer, nos purifica, acrisola nosso amor e nos faz partícipes da missão redentora de Cristo Jesus.
Criados conforme a imagem de Cristo, todos estamos destinados a compartilhar, cada um a seu modo, seu caminho de cruz. São Paulo, ao anunciá-lo, compreende que isso soa como “escândalo para os judeus e loucura para os pagãos”, mas para nós nos revela que a cruz é “poder de Deus e sabedoria de Deus”. Dito em outras palavras: que a dor é o caminho que a sabedoria de Deus aproveita para desenvolver do modo mais admirável seu ilimitado poder criador e vivificador.
Quem está consciente destas verdades, não teme entregar-se a Deus por inteiro. Sabe que haverá cruzes no caminho; mas, ao mesmo tempo, possui a firme confiança filial, seja qual for a dor, perda ou golpe do destino que nos advenha, que Deus saberá colocar as coisas para que tiremos proveito delas. Um proveito que muitas vezes não é material, mas espiritual e sobrenatural. Não devemos perder de vista “que estamos no mundo, mas não somos do mundo”.
Pistas para reflexão:
– Qual tem sido minha experiência diante da dor?
– Que momentos de dor tive em minha vida pessoal ou familiar? Que ajuda ou graça recebi nesse momento?
– Que significou esta experiência de dor em minha vida?
– Que aprendi ou que Deus me deu através dela?
* Trecho do livro: Sim Pai – Nossa Entrega Filial a Deus, Pe. Rafael Fernandez; 1ª edição brasileira, julho de 2005