
O episódio da mulher acusada de adultério recorda que Jesus não reduz ninguém ao seu pecado e sempre abre um caminho de recomeço.
Pe. Carlos Padilla – Julgar os outros costuma ser um gesto rápido. Bastam poucos sinais, um comportamento, um comentário ou um relato ouvido de passagem para surgir um veredicto. Antes mesmo de conhecer toda a história, o julgamento já está formado. O erro chama mais atenção do que a pessoa que o cometeu. Assim nascem interpretações precipitadas sobre as intenções e motivações dos outros. Muitas vezes o veredicto interior surge antes mesmo que a verdade apareça.
Uma conhecida passagem do Evangelho mostra com clareza essa tendência humana. Escribas e fariseus levam até Jesus uma mulher surpreendida em adultério e a colocam no meio da multidão. Em seguida perguntam: «Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Na Lei, Moisés mandou apedrejar tais mulheres. Tu, pois, que dizes?» (cf. Jo 8,4-5). A pergunta não nasce de um desejo sincero de justiça. O objetivo é colocar Jesus à prova. Se Ele negar a condenação, parecerá contrariar a Lei de Moisés. Se aprová-la, parecerá contradizer a mensagem de misericórdia que anuncia. O julgamento daquela mulher torna-se, na verdade, uma armadilha.
O silêncio que revela a consciência
Jesus não responde imediatamente. O relato bíblico diz que Ele se inclina e começa a escrever no chão com o dedo. Enquanto os acusadores insistem em interrogá-lo, permanece em silêncio. Esse gesto interrompe a lógica da condenação e cria um espaço de reflexão. Em vez de alimentar a discussão, Jesus convida todos a olharem para dentro de si.
Depois Ele se levanta e diz: «Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra» (cf. Jo 8,7). Em seguida volta a inclinar-se e continua a escrever na terra. Não se sabe o que Jesus escrevia. Muitos imaginaram que pudesse registrar os pecados dos presentes ou palavras de misericórdia. O texto não revela. O que importa é o efeito daquele gesto.
O silêncio de Jesus obriga cada pessoa a olhar para o próprio coração. Aos poucos, os acusadores começam a retirar-se, um após o outro, começando pelos mais velhos. A pergunta permanece ecoando: quem pode afirmar que está livre do pecado? Basta olhar com sinceridade para o próprio coração para reconhecer faltas de amor, de misericórdia e de fidelidade. Quando essa consciência surge, as pedras deixam de fazer sentido.
A misericórdia que salva o pecador
Quando todos se afastam, permanecem apenas Jesus e a mulher. Então Ele pergunta: «Mulher, onde estão aqueles que te acusavam? Ninguém te condenou?» Ela responde: «Ninguém, Senhor». E Jesus declara: «Nem eu te condeno. Vai e não peques mais» (cf. Jo 8,10-11).
Jesus não ignora o pecado nem nega a realidade do erro. Ele sabe que a mulher errou e não justifica o adultério. No entanto, separa a pessoa do seu pecado. Não aprova a falta, mas salva quem a cometeu. O único que poderia lançar a pedra, porque está sem pecado, escolhe não fazê-lo.
A misericórdia não significa permissividade. O perdão não ignora o erro, mas abre um novo caminho. Quando diz «não peques mais», Jesus mostra que o perdão não encerra a história, mas inaugura um recomeço. O encontro com a misericórdia devolve à pessoa a dignidade perdida e reacende a esperança de uma vida nova.
O perigo dos preconceitos
A dificuldade de olhar os outros com misericórdia não aparece apenas nesse episódio. A própria Bíblia mostra como os julgamentos humanos costumam basear-se nas aparências. Quando o profeta Samuel recebe de Deus a missão de ungir um novo rei para Israel, ele se impressiona com a aparência de um dos filhos de Jessé. No entanto, o Senhor o corrige: «O homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração» (cf. 1Sm 16,7).
Samuel observa os sete filhos de Jessé, mas nenhum deles é escolhido. O verdadeiro eleito é Davi, o mais jovem, que estava cuidando das ovelhas no campo. A narrativa revela um contraste profundo entre o olhar humano e o olhar de Deus. Enquanto as pessoas se deixam guiar pelo que aparece externamente, Deus vê aquilo que permanece escondido no coração.
O olhar que Deus tem sobre cada pessoa
Essa diferença revela o perigo dos preconceitos. Muitas vezes as pessoas são avaliadas pela aparência, pela forma de vestir, pelo comportamento ou pelas opiniões que expressam. Antes mesmo de conhecê-las, forma-se uma ideia sobre quem são. O olhar permanece na superfície e não alcança a profundidade da história que cada pessoa carrega.
Frequentemente o preconceito nasce do medo diante do desconhecido. Ao rotular alguém antes de conhecê-lo, surge uma falsa sensação de controle. Torna-se mais fácil julgar do que aproximar-se e descobrir a verdade sobre o outro. Com o tempo, esses julgamentos passam a fazer parte do modo de pensar e são reforçados pelo ambiente, pelas notícias ou pelas conversas cotidianas.
O olhar de Deus, porém, é diferente. Deus não se detém nas aparências, mas vê o coração. Esse olhar convida a superar julgamentos rápidos e a aproximar-se do outro com mais humildade e liberdade. Quando isso acontece, torna-se possível reconhecer que cada pessoa carrega uma história complexa e digna de respeito. É nesse espaço, muitas vezes escondido e silencioso, que Deus fala e revela a verdadeira dignidade do ser humano.
Esse ensinamento permanece profundamente atual. Em uma cultura marcada por julgamentos rápidos e opiniões formadas à distância, a mensagem de Cristo aponta um caminho diferente. Em vez de condenar apressadamente, Ele mostra o caminho da verdade unida à misericórdia. Não ignora o pecado, mas também não reduz a pessoa ao seu erro. Ao olhar para o coração, abre sempre a possibilidade de um recomeço.
Seguir Cristo significa também abandonar as pedras do julgamento e aprender a olhar cada pessoa com a mesma misericórdia que se recebe de Deus.
* Trechos traduzidos e adaptados de homilia do 4º Domingo da Quaresma, de 15 de março de 2026.