Racionalidade e equilíbrio em tempos de oposições ideológicas

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Imagem: Pixabay

 

Geni Maria Hoss* – O termo ideologia tradicionalmente indica a maneira própria de pensar de um indivíduo ou grupo, de um governo ou partido.  Quando se fala de ideologia não se trata de meras referências a ideias isoladas, mas a um conjunto maior de pensamentos em torno de uma ideia central, em torno de um valor fundamental. Neste sentido, não há o que temer. Isto porque as ideias e valores nos movem e dão vitalidade. Mas é preciso estar atento para os diferentes focos, peso e usos a fim de entendermos o porquê de alguns lhe atribuírem significado positivo, outros, negativo.

 

O saudável e o perigo das oposições

Oposições e diversidades ideológicas harmoniosas são saudáveis numa sociedade democrática. No ambiente eclesial, as diferenças de modos de pensar indicam o respeito e acolhida no amor fraterno. Mas, o que leva, então, um líder, como o Papa Francisco (2022), condenar com tanta veemência o impacto de ideologias em nosso tempo? Falando sobre a família, ele diz: “As ideologias arruínam, as ideologias se intrometem para fazer um caminho de destruição. Cuidado com as ideologias!”[1]

O perigo está no fato de que há ideologias que não colocam o ser humano e sua dignidade no centro, que se impõe como pensamento único válido para toda a sociedade em detrimento a valores tradicionais importantes.

 

Pe. Kentenich alerta para o perigo da padronização

Nunca se falou tanto em liberdade e diversidade, ao mesmo tempo em que se estabelece socialmente o que e como se deve pensar. O Pe. Kentenich, sempre de novo, alertou sobre os perigos de uma unidade de massa. “O que estamos enfrentando é uma cultura de padronização, de uniformidade. […] O que este desenvolvimento implica? Por um lado, a emergência da ditadura, por outro, a perda de valores pessoais.”[2] Aqui não se trata meramente de uma ditadura política, mas da ditadura social e econômica, da ditadura que define o modo de pensar de uma sociedade inteira, em vista de lucros sempre mais exorbitantes, entre outros.

As novas formas de comunicação, acessíveis a muitos veículos de comunicação e indivíduos, favorecem a proliferação da ditadura do pensamento único, com base em categorias que alimentam as próprias certezas e depreciam as diferenças. De um lado, valores tradicionais, mesmo importantes para uma sociedade, muitas vezes, são rejeitados, pelo simples fato de se querer fazer parte da categoria social como a dos ‘modernos’ ou aquela dos que fazem algo simplesmente porque ‘todo mundo faz’. Basta dizer que algo é moderno para que haja ampla adesão social sem a devida análise crítica sobre os valores ou contravalores envolvidos.

 

 

Boa tradição versus retrocedismo

Por outro lado, existe a opção pelo “retrocedismo”, o que não tem nada a ver com a boa tradição. Retrocede-se para se sentir confortável, incluindo valores espúrios que deveriam ser purificados por meio do discernimento e consequente mudança de comportamento. “Estai atentos: hoje a tentação é o ‘retrocedismo’ disfarçado de tradição.”[3] Estas posições se polarizam sempre mais, seja no campo social em geral, seja no ambiente religioso, levando muitas vezes a conflitos, com consequências que podem ser bastante graves. Outro modo de alimentar a polarização, para o qual Niceto Blazquez[4] chama atenção, é o abuso da linguagem. O uso de expressões de prestígio público como direitos humanos, democracia, liberdade, família… com o objetivo de se conseguir adeptos, mesmo quando os referidos valores, de fato, não são prioridade.

 

Necessitamos do equilíbrio

A intolerância, neste contexto, tem gerado divisões na sociedade, particularmente, no seio das famílias. Estas divisões, quando levadas ao extremo, podem resultar em violência, seja verbal, seja física, de forma que a convivência num grupo social ou familiar, se tornam insuportáveis. Neste sentido, quase diariamente, ouvimos casos de pessoas que praticaram violência, agindo contrários aos seus próprios princípios, dizerem: “Foi no calor das emoções, estou arrependido!”, ou então, “perdi a cabeça!”, “foi impensado”. É disto que estamos falando. Isto acontece quando a dimensão emocional se sobrepõe à racional, não havendo mais o equilíbrio entre as duas para o discernimento e decisão acertada. Nisto podemos deduzir a importância do equilíbrio entre emoção e razão.

Quando as emoções descompensam, a razão pode ajudar a frear uma ação, permitir que tenhamos tempo para reflexão e evitemos ações e reações intempestivas. É preciso compreender os próprios padrões de comportamento e também entender que, em situação de pressão emocional, a força interior para se manter o equilíbrio precisa ser ainda maior. Quem já não ouviu o bom conselho: “Não tome decisões sob fortes emoções?”

 

 

Conhecer e controlar as emoções

Primeiro devemos conhecer nossas emoções, pois elas são únicas. Seria prejudicial comparar-nos, simplesmente, com pessoas bem-sucedidas em sua vida emocional. Para alcançar uma vida saudável emocionalmente é preciso procurar o próprio equilíbrio e exercitá-lo na vida cotidiana. Então, ele faz parte de nosso comportamento natural e nos preserva na hora de intenso conflito.

Quando o assunto é o controle das emoções e racionalidade é importante encontrar o meio termo. Não tem graça uma vida sem emoção. Mas, também não podemos carregar o peso das consequências do desiquilíbrio emocional, quando somos expostos a situações críticas.

 

A unidade na diversidade

O equilíbrio entre racionalidade e emoção nos permitem entender que podemos acolher a diversidade sem abdicar dos próprios valores. Numa mesma família ou grupo social, é possível viver em unidade na diversidade. A polarização cega e doentia induz ao ódio e à violência, enquanto as diferenças vivenciadas no espírito cristão são oportunidades de diálogo e inspiração recíproca. Neste sentido, diz o Papa Francisco (2022): “A cultura do encontro edifica-se na busca da harmonia entre as diversidades. Uma harmonia que exige acolhimento, abertura e criatividade. Na raiz deste estilo de vida está o Evangelho, o Espírito Santo.”[5]

 

 

Por uma Cultura da Aliança

Em tempos de intolerâncias, violências, polarizações ideológicas… somos conclamados a viver ainda com maior fidelidade aquilo que herdamos como sagrada herança para o nosso tempo. Sabemos que a vivencia cotidiana da espiritualidade de Schoenstatt é uma resposta efetiva para os desafios modernos. Viver em Aliança implica acolher diferenças, fazer o discernimento à luz da fé cristã e dar testemunho do Evangelho, numa sociedade plural. A Cultura da Aliança nos conclama a viver a unidade e comunhão.

Por fim, sigamos o conselho do Papa Francisco (2022): “Superemos as polarizações e guardemos a comunhão, tornemo-nos cada vez mais ‘um só’, como Jesus implorou antes de dar a vida por nós (cf. Jo 17, 21). Nisto, nos ajude Maria, Mãe da Igreja.”[6]

 

* Geni Maria é Dirigente Geral da União Apostólica Feminina de Schoenstatt

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[1] Papa Francisco. À comunidade acadêmica do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2022/october/documents/20221024-istitutogp.pdf

[2] José Kentenich. Am Montagabend… Mit Familien im Gespräch. Band 1. Vallendar-Schönstatt 1994, 187-199

[3] Papa Francisco. Aos membros da associação italiana…  (2022). Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2022/september/documents/20220901-cultori-liturgia.pdf

[4] BLÁZQUEZ, Niceto. Ética y médios de comunicación. Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 1994. [Ed. Bras.: Ética e meios de comunicação. São Paulo: Paulinas, 2000.

[5] Papa Francisco. Discurso a um grupo de peregrinos da Eslovaquia. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2022/april/documents/20220430-pellegrinaggio-slovacchia.html. Acesso em 18 mar. 2023.

[6] Papa Francisco. Homilia 11/10/2022. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2022/documents/20221011-omelia-60concilio.pdf

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