Uma reflexão sobre o sofrimento

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Minha cruz e a cruz de Cristo.

Karen Bueno – “Nós existimos na medida em que somos capazes de sofrer: se apagarmos a nossa vontade, se renunciarmos à nossa personalidade, a realidade dolorosa esvai-se, mas a alma adormece” (A Cruz de Cristo e a nossa, Pie Régamey).

Falar de sofrimento e dor num mundo que prega o prazer e a satisfação como norma de vida parece rebeldia, subversão. Nesse mundo, quem diz que o sofrimento tem um sentido rico e divino, que pode elevar alma, é interpretado como uma pessoa transtornada, que não sabe o que diz. No entanto, a verdade é justamente isso e é o que afirma o maior homem da história, aquele que convidou cada um a abraçar o seu sofrimento. Jesus não apenas aponta o sacrifício como caminho, mas ele próprio se torna o sacrifício vivo, dando um novo sentido ao sofrimento.

Pe. José Kentenich recorda: “A opinião pública em geral rejeita o sofrimento e a cruz. Nós, porém, não podemos esquecer que a tarefa de vida do cristão consiste, essencialmente e em grande parte, também no sofrimento e na cruz. Todas as pessoas e todas as famílias carregam sobre os ombros uma grande medida de cruz e de sofrimento”.

Não se trata de ser masoquista, mas de saber utilizar o sofrimento para crescer na espiritualmente. Pe. Luiz Gemelli explica: “O cristianismo não é a religião que prega o sofrimento, o estoicismo, o faquirismo, o masoquismo, o sadismo. O sofrimento só tem valor quando significa doação, abertura para o outro; quando traz comunhão com os homens e com Deus”.

O sentido do sofrimento para o cristão

O sofrimento humano se manifesta de várias formas (perdas físicas e espirituais, doenças, escravidão, etc.) e geralmente é imposto, pois dificilmente a pessoa escolhe sofrer. Mas, seja qual for o caso, o fato é que sempre é possível tirar proveito das situações críticas. Se compreendo a dor como uma escola de amor, posso me santificar e santificar os demais por meio do meu testemunho.

“O Pai poda a videira (Jo 15,2). Se o Pai quer desintoxicar nossa natureza envenenada, não vai consegui-lo sem cooperação. Pensem na participação na vida de Cristo. Se quisermos ser membros de Cristo, imagens de Cristo, como é o desejo da comunidade, é evidente que isso não se realiza sem sofrimento”, afirma o Pe. Kentenich.

Santo Agostinho e São Tomás de Aquino explicam o sentido do sofrimento: “A existência do mal não se deve à falta de poder ou de bondade em Deus; ao contrário, Ele só permite o mal porque é suficientemente poderoso e bom para tirar do próprio mal o bem” (Enchiridion, c. 11; Suma Teológica qu. 22, art. 2, ad 2).

Como “sofrer de maneira sadia”?

Para o Pe. José Kentenich, FILIALIDADE é a resposta!

O Pai e Fundador mostra que justamente no sofrimento se manifesta a mais perfeita filialidade, é quando se torna possível dar uma resposta de amor ao Pai, independente da situação. Assim ele descreve: “Devemos suportar os sofrimentos não como recrutas, mas como filhos. E o filho pode às vezes gritar no sofrimento. O recruta fica à espera até que venha o comando: “À direita! À esquerda, volver!”. Este não é um modo filial de sofrer. […] Se no sofrimento nos comportarmos como militares, penso que isso destrói na natureza algo da filialidade, torna-nos rudes”.

É natural queixar-se com Deus, pois cada um é um filho muito amado. Pe. Kentenich explica: “O sofrimento filial é capaz de queixar-se. É capaz de queixar-se filialmente ao Pai. Se já tiveram uma experiência muito paternal sabem o que isso significa: quando um filho pequeno chega e se queixa: “Isto me faz sofrer!”, então cresce a paternidade, não a faz retrair-se. Devemos ver as coisas de modo mais humano; vejamo-lo também de modo divino. […] não é uma imperfeição se uma vez ou outra eu resmungo com Deus, reclamo filialmente e me queixo pelo que me faz sofrer. Penso que o bom Deus tem até alegria com isso”.

Mas, a reclamação não deve ser regra. A regra, para aqueles que amam o Bom Pai, é fazer sua vontade. “Se nós acolhermos filialmente o sofrimento, num tempo previsível nos vem a segunda lição: ‘Pai, não se faça a minha vontade, mas a sua!’. Porém, com isso o interior não é imediatamente consolado. Pode ser que a tempestade continue a rugir. Mas a vontade é orientada de maneira filial no desejo e na vontade de Deus”, afirma o Fundador. “Não devemos ser escravos, mas filhos livres que com fé fazem o que o Pai lhes diz. […] Examinem: como posso realizar, em minha vida prática, a doação de Jesus?”.

Em Schoenstatt os sacrifícios oferecidos por amor fazem parte das contribuições ao Capital de Graças. O sofrimento adquire um sentido apostólico quando depositado nas mãos de Maria, pois ela o transforma em graças e distribui para todos que necessitam, é a forma de ser missionário por meio da dor, por amor ao Pai e aos irmãos.

“Não temas, estou contigo”

O ditado popular ensina que “Deus não manda um frio maior que o cobertor”, assim, da mesma forma ele não manda um sofrimento maior que a capacidade humana de suportar. Se Deus permite o sofrimento de um filho, é para que esse cresça e desponte como um novo homem. Como o diamante passa por altas temperaturas para ser lapidado, a alma humana se enobrece por meio das provas da vida.

A reposta para atravessar os períodos de tempestade com heroísmo foi dada pelo próprio Cristo, como recorda o Pe. José Kentenich: “O Pai brada constantemente: Estou contigo, estou junto de ti! Tudo o que acontece de bom, todo o sofrimento contém a mensagem do Pai: Filho, estou contigo, estou junto de ti! Que respondo? Ego tecum sum! Quero estar contigo! Tu comigo e eu contigo! Isso significa, concretamente, passar o dia de mãos dadas com o Pai. E nisto que consiste a segunda conversão, é isso que significa ser um autêntico filho do Pai, uma autêntica filha do Pai”.

Referências:

Pe. José Kentenich. Às segundas-feiras ao anoitecer. Vol 3, Palestra de 23 de julho de 1956 – O verdadeiro filho e a verdadeira filha do Pai no sofrimento
Pe. José Kentenich. Ser filho diante de Deus, Décima Conferência, No seu sofrimento.
Pe. Luiz Gemelli. Para os que sofrem. 3ª edição.
Pie Régamey. A Cruz de Cristo e a nossa – A dor serena. Editora Quadrante, São Paulo/SP: 2014.

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