A imagem ideal da Igreja, segundo Pe. Kentenich

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(Capa do livro: Nas pegadas do Pe. José Kentenich em Roma, Mons. Peter Wolf)

 

Esse modelo de Igreja se constrói a cada dia

Ir. M. Nilza P. da Silva/Karen Bueno –Quando se afirma que o Fundador de Schoenstatt era um homem à frente de seu tempo, não é difícil de compreender ao estudar suas ideias. Com a Aliança de Amor, Pe. Kentenich traz uma nova concepção de vivencia da fé.

Um exemplo muito concreto de seu pensar “futurístico” é como ele imagina o modelo de Igreja ideal. Em 1914, antes até, ele reflete sobre uma imagem de Igreja Católica que só foi proposta cinco décadas mais tarde, no Concílio Vaticano II.

 

Como o Pe. Kentenich pensa a Igreja

O Fundador de Schoenstatt sonha com um modelo de Igreja muito próximo do que o Papa Francisco propõe. Nas conferências de dezembro de 1965, ainda em Roma, Pe. Kentenich detalha, mais uma vez, o que sempre propôs: “É uma Igreja que, por um lado, permanece profundamente vinculada ao passado, por outro, liberta-se, desprende-se das formas estereotipadas do passado. É uma Igreja irmanada, em forma profunda, pelos laços da fraternidade, mas também retida, governada pela hierarquia, expressão do princípio paternal. É uma Igreja incumbida de uma missão de se tornar a alma da cultura presente e futura do mundo”.

 

Veja algumas características essenciais da concepção do Pe. José Kentenich sobre a Igreja:

Peregrina: para o Fundador de Schoenstatt, a Igreja deve ser caminhante, estar em peregrinação. “Para nós é de grande valor ter o Concílio, em sua auto conceituação, usado, com agrado, a expressão: a Igreja atual figura como Igreja peregrina, e não como Igreja completa, perfeita”.

O mesmo afirmou o Papa Francisco, retomando o documento Lumen Gentium (5): “a Igreja não é uma realidade estática, parada, com finalidade em si mesma, mas está continuamente a caminho na história, rumo à meta derradeira e maravilhosa, que é o Reino dos Céus, do qual a Igreja na terra é o germe e o início”.

 

Rocha: o Fundador traz uma nova concepção sobre a ideia de rocha e assim explica: “Estávamos habituados a ver a Igreja como uma rocha imóvel, fixa. A Igreja esteve assentada sobre a rocha. ‘Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja’. A Igreja pode também ser considerada rocha. Porém, queremos e temos, como faz a própria Igreja, que interpretar a rocha de maneira distinta do que no passado. Antigamente o povo era convidado a ir em busca, a ir de encontro a tal rocha. Hoje, esta rocha tem de se mover a si mesma […], não esperar que a humanidade se dirija em sua direção”.

Essas palavras se resumem em uma expressão muito ouvida pelos católicos atualmente: Cultura do Encontro. “O que Jesus nos ensina é primeiro encontrar-nos, e no encontro, ajudar. Precisamos saber encontrar-nos. Precisamos edificar, criar, construir, uma cultura do encontro”, afirma o Papa Francisco (07/08/2013). Quando se reúne com os argentinos, no Rio de Janeiro/RJ, durante a Jornada Mundial da Juventude, o Santo Padre convoca: “Quero que saiam, quero que a Igreja saia pelas estradas, quero que nos defendamos de tudo o que é mundanismo, imobilismo, nos defendamos do que é comodidade, do que é clericalismo, de tudo aquilo que é viver fechados em nós mesmos. As paróquias, as escolas, as instituições são feitas para sair; se não o fizerem, tornam-se uma ONG e a Igreja não pode ser uma ONG” (25/07/2013).

 

Barco: O Pe. Kentenich explica que o conceito de barca está ligado à movimentação, ao dinamismo: “Um barco a mover-se sobre as ondas, muito embora elas sejam altas ou coloquem o barco em perigo, ameaçando a cada passo, precipitá-lo no abismo. Assim se considera e exprime a Igreja a si mesma. Será que percebemos a grande diferença existente entre o passado e o presente, entre o presente e o futuro?”.

Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (49), o Papa afirma: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças”.

 

Dinâmica: Trata-se da primeira qualidade da Igreja: é peregrina, rocha em peregrinação, barco lançado em alto mar, mas é também, em contraposição ao passado, uma igreja dinâmica. O dinamismo é a nova imagem da Igreja.

 

Fraterna: Para o Pe. Kentenich a hierarquia deve, sim, existir, e é importante. Porém, ele aponta o espírito de humildade, de caminhar lado a lado: “Desde aquela época, dominou na Igreja esta contraposição entre os superiores e os súditos. Frente a isso, agora a Igreja vê a si mesma sob este ponto uniforme. Considera a si como povo de Deus. Povo de Deus apostado sobre uma linha só. E todos, sem exceção, encontram-se sobre essa única linha: quer se trate da hierarquia, quer do próprio Papa. Qual o laço que une a todos? O espírito comum da fraternidade, a desabrochar, mais e mais, no íntimo das almas”.

Algo semelhante afirma o Papa Francisco em entrevista: “Devemos caminhar juntos: as pessoas, bispos e o Papa. Devemos viver a sinodalidade em vários níveis” (19/08/2013).

 

Alma da cultura mundial: A Igreja deve ser a alma de toda a cultura mundial moderna, afirma o Pe. Kentenich. Aí está mais uma vez a cultura do encontro que, segundo o Papa Francisco, é Cultura da Aliança. Portanto, não se deve separar cultura, Igreja e mundo.

 

Schoenstatt antecipa o Concílio

As ideias do Pe. José Kentenich não foram bem compreendidas em sua época, o que é compreensível, já que ele se posicionava de modo diferente dos padrões da Igreja em seu tempo. Isso levou o Fundador a 14 anos de exílio nos Estados Unidos, separado de sua Obra, para que a Igreja pudesse comprovar se sua espiritualidade era algo divino ou meramente humano.

Com tempo, a Igreja concluiu que Schoenstatt era algo sonhado por Deus, uma ação do Espírito Santo em seu seio, e liberou o Fundador do exílio. Isso foi possível graças à nova concepção que a Igreja tem de si mesma. Muito do que o Concílio Vaticano II propunha era o que o Pe. Kentenich já falava há vários anos. Assim ele comenta: “A concepção que a Igreja formou de si mesma a partir do Concílio, foi também sempre o nosso modo de conceber. […] ouso afirmar que a missão de nossa Família, anterior ao Concílio, é idêntica à missão pós-conciliar da Igreja”.

Pe. Kentenich convoca os schoenstattianos a serem o coração da Igreja: “Que significa ‘coração’? Significa ser a força de amor mais profunda possível e por ninguém ultrapassável. O poder de amor que conquista toda a Igreja e a preenche totalmente de heroísmo. A força do amor – tal é nossa missão”.

As palavras de Kentenich e Papa Francisco se complementam, elas seguem na mesma direção, o que representa uma grande missão para os schoenstattianos e para todos os católicos. Certamente que se nosso Fundador estivesse vivo hoje, quando se recorda os 50 anos do encerramento do Concílio Vaticano II, afirmaria novamente com orgulho: Dilexit Ecclesiam (Amou a Igreja). “Nós, como Família, desejamos empenhar todas as forças a fim de colaborar com o Papa no cumprimento da missão pós-conciliar da Igreja. Com isso, a frase Dilexit Ecclesiam recebe um significado profundo, marcante: Schoenstatt Dilexit Ecclesiam. O amor à Igreja nos impulsiona a proteger a missão da Igreja pós-conciliar, de modo mais perfeito possível, e em todos os sentidos”.

Bibliografia:

Pe. José Kentenich. Schoenstatt e a Igreja. 1977.

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