
Pe. Carlos Padilla – A Quaresma tem muito de interioridade. É tempo de busca no silêncio, de esvaziar-se para encher-se de Deus, somente d’Ele. No entanto, esse caminho não é simples. Uma cena do Evangelho ilumina essa realidade: «Cada um foi para sua casa; e Jesus foi para o monte das Oliveiras». Enquanto o mundo procura conforto e refúgio no cotidiano, Jesus busca a intimidade com o Pai na oração.
Essa intimidade provoca questionamentos. O silêncio faz surgir perguntas profundas: o que pensa Deus da vida de cada pessoa? Como Jesus olha para cada um? O que Ele encontra de bom no coração humano? São perguntas exigentes, que nem sempre encontram respostas imediatas. O silêncio confronta, exige escuta e pede que as muitas vozes interiores sejam silenciadas para que a alma encontre espaço de recolhimento.
O exemplo de Jesus
O Evangelho (Jo 8:2) mostra que Jesus frequentemente se retira para o monte a fim de rezar e guardar silêncio. Desse encontro com o Pai nasce a força para voltar ao meio do povo: «E pela manhã voltou ao templo, e todo o povo veio a Ele; e, sentado, os ensinava». Depois do silêncio e da escuta de Deus, Jesus caminha novamente ao encontro das pessoas. O silêncio prepara a palavra e fortalece a missão.
Essa dinâmica revela algo essencial para a vida espiritual. Muitas vezes a pessoa fala muito e guarda pouco silêncio. Procura fora de si uma paz que não encontra dentro. Também não a encontra no mundo, porque fora tudo corre rápido demais, há ruídos e interferências constantes. As demandas são muitas, como também acontecia com Jesus. Por isso Ele precisava retirar-se, afastar-se por um tempo até mesmo daqueles que o procuravam. Para servir melhor, cuidava do seu mundo interior, da oração, do silêncio e da solidão.
O valor do silêncio
Aprender a estar sozinho é uma tarefa que acompanha toda a vida. Quando isso não acontece, a pessoa pode acabar espalhada pelo mundo, buscando consolo, paz e luz em lugares que não conseguem oferecer isso. Romper com o excesso do mundo exterior não é fácil, pois nele se encontram distrações e descansos aparentes. No entanto, quando o silêncio cresce, cresce também a profundidade da alma.
Uma frase antiga recorda: «Para qualquer mal não há mais que dois remédios: o tempo e o silêncio»¹. O tempo ajuda a ordenar muitas coisas dentro e fora do coração. O silêncio permite olhar para si mesmo e para os outros sem julgamento ou condenação.
É verdade que o silêncio nem sempre resolve tudo. Às vezes também pode ferir, porque não oferece respostas. No entanto, muitas vezes ele protege. O silêncio evita palavras que poderiam ferir e cria espaço para escutar verdadeiramente o outro. Também existe um silêncio compartilhado, quando duas pessoas permanecem juntas sem necessidade de muitas palavras. Nesse espaço nasce uma paz profunda.
As pessoas silenciosas costumam guardar um mundo interior rico e profundo, que não exibem constantemente. Cuidar desse mundo interior é algo importante. Nem tudo precisa ser exposto. É necessário proteger aquilo que habita na alma.
Interiorização e encontro com Deus
O silêncio também ajuda a perceber a presença de Deus no coração. Quando cessam os ruídos exteriores, o interior começa a se aquietar. As águas do coração, muitas vezes agitadas por tantas vozes e movimentos, encontram repouso. Porém, quando o coração está cheio de distrações e preocupações, torna-se difícil interiorizar, aprofundar e olhar para dentro.
O Pe. José Kentenich, Fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt, expressa essa realidade ao afirmar: «Vivências de Deus, interiorização de Deus; o intimar com Deus, ter vivências divinas, ter a vivência de Deus. Assim, não apenas conhecer a Deus. Vivências de Deus até o profundo do subconsciente, da vida da alma»².
A experiência de Deus acontece no mais profundo do ser humano. A contemplação conduz a esse silêncio interior. Nesse espaço a pessoa pode percorrer a própria alma sem medo do que encontrará. Aprender a estar só torna-se um bem precioso.
Muitas vezes o interior humano guarda dores, perdas e medos. Recordações difíceis podem surgir. Ainda assim, o caminho da cura passa por esse encontro com o próprio interior. Somente ao retornar a esse lugar profundo é possível, pouco a pouco, encontrar a paz e permitir que Deus ilumine a escuridão do coração com a sua presença.
* Trechos traduzidos e adaptados de homilia do 4º Domingo da Quaresma, de 15 de março de 2026.