Larissa Rodrigues – No Estádio Olímpico de Berlim, em 23 de junho de 1996, o Papa João Paulo II proclamava beato o Pe. Carlos Leisner, o único sacerdote ordenado, na história da Igreja, dentro de um campo de concentração nazista. Trinta anos depois, a Família de Schoenstatt é convidada a mais do que recordar uma data: a perguntar-se se reconhece, em toda a profundidade, o tesouro que tem em seu primeiro beato.
“Aqui estou, envia-me”: Uma vida que se decide cedo
Carlos Leisner nasce em 28 de fevereiro de 1915, em Rees, na Renânia alemã. Desde jovem, destaca-se como líder entre os jovens católicos. Aos 16 anos, é eleito dirigente da Juventude Católica em seu distrito. Em 1933, aos 18 anos, visita Schoenstatt pela primeira vez e algo muda para sempre.
Ele mesmo registra no diário o que sente naquela primeira primavera no Santuário: “Os dois dias silenciosos lá em cima, na primeira primavera que despontava, nas alturas próximas do Westerwald, e na oração silenciosa na pequena capela diante da imagem de graças da Mãe Três Vezes Admirável, ou as devoções sacramentais vespertinas com as “Orações pelo amor a Deus e ao próximo” tocaram fortemente a minha alma. O sacerdotal e o cavalheiresco em mim, que estavam bastante retraídos e profundamente adormecidos, despertaram-se e se inflamaram profundamente.” [1]
O Pe. Oskar Bühler, do Instituto dos Sacerdotes Diocesanos de Schoenstatt e profundo conhecedor de Leisner, sublinha o peso dessa visita: “A vinculação ao Santuário foi para Carlos o fator decisivo que o ajudou em situações-chave.” [2]
Não foi um encontro passageiro. Foi uma Aliança.
Ao iniciar os estudos de Teologia no Seminário de Münster, Carlos escreve com clareza: “Cristo, tu me chamaste. Digo, humilde e determinado: “Aqui estou, envia-me”.” [3] O próprio São João Paulo II cita essas palavras na homilia da beatificação, em Berlim.
“Sigo sendo católico”: Entre a fé e o totalitarismo
O nacional-socialismo não é, para Carlos, apenas pano de fundo histórico. É uma interpelação pessoal e moral constante. Em maio de 1933, ainda na escola, ele escreve no diário:
“Algum professor nazista maldito vai querer armar para mim, impedir que eu passe no exame de graduação. Mas eu permaneço fiel às minhas convicções. Como eu deveria estar com Hitler e os nazistas? Devo correr com eles, gritar com eles, seguir a corrente? Não, não vou; sigo sendo alemão e amo minha pátria e meu país. Mas também, e acima de tudo, sou católico.” [1]
Ordenado diácono em 25 de março de 1939, Carlos é logo diagnosticado com tuberculose pulmonar. A caminho do hospital, desce do ônibus em Schoenstatt para rezar. O Pe. Bühler narra esse momento:
“A caminho do hospital, devido à tuberculose pulmonar que ameaçava sua vida, ele desceu do ônibus em Schoenstatt e rezou com a Família de Schoenstatt daquela época no espírito da Carta Branca: “Querida Mãe, coloco tudo em suas mãos”. Meses depois, quando foi detido e esteve na prisão de Friburgo, manteve muito presente esta visita e a oração que rezou, e a rezou novamente.” [2]
A detenção vem após Carlos murmurar uma única palavra ao saber que um atentado contra Hitler havia falhado: “Pena”. Denunciado por simpatizantes do regime, é considerado “cúmplice moral” e enviado ao campo de concentração de Dachau, o mesmo em que o Pai e Fundador, Pe. José Kentenich, está preso. Lá, junto com outros sacerdotes schoenstattianos, Carlos funda o primeiro grupo de Schoenstatt dentro do campo e mantém viva a Aliança de Amor onde tudo tenta destruí-la.
O sacerdote de uma única Santa Missa
No domingo “Gaudete” do Advento de 1944, em uma barraca improvisada como capela, Carlos Leisner é secretamente ordenado sacerdote pelo bispo Dom Gabriel Piguet, ele próprio prisioneiro no campo. É o único diácono que, na história da Igreja, recebe a ordenação sacerdotal em um campo de concentração nazista. Com a saúde gravemente debilitada, celebra apenas uma única Santa Missa, no dia 26 de dezembro, festa de Santo Estêvão.
São João Paulo II, na homilia da beatificação, descreve a convicção central de Carlos: “Cristo é a Vida: esta era a convicção pela qual Carlos Leisner viveu e pela qual ele finalmente morreu. Ao longo de sua vida, buscou a proximidade com Cristo na oração, na leitura diária da Bíblia e na meditação. E encontrou essa proximidade de modo particular no encontro eucarístico com o Senhor.” [3]
Em 4 de maio de 1945, Carlos é libertado pelas tropas Aliadas. Mas a saúde não se recupera. Nas últimas semanas de vida, pede que rezem por ele na pequena capela de Schoenstatt. As últimas palavras do diário, pouco antes de morrer, são: “Abençoa também, Senhor, aos meus inimigos!” [1] Falece em 12 de agosto de 1945, aos 30 anos.
A Igreja proclama seu filho
A beatificação acontece no mesmo Estádio Olímpico em que, sessenta anos antes, o regime nazista tentou transformar os Jogos Olímpicos num triunfo de sua ideologia. São João Paulo II não deixa passar o simbolismo: ali onde o idealismo da juventude foi distorcido para o ódio, dois beatos mártires triunfam.
Na homilia, o Papa destaca o vínculo de Carlos com Schoenstatt e com a devoção mariana: “Ainda antes de ser preso em Dachau, ele se tornou o apóstolo de uma profunda devoção a Maria, à qual foi estimulado pelo Pe. Kentenich e o Movimento de Schoenstatt.” [3]
Ao encerrar a celebração, o Papa retoma a frase que o próprio Pai e Fundador havia plantado no coração de Carlos: “”Mater habebit curam” – a Mãe celeste vai cuidar! Com estas palavras de alegre esperança de Carlos Leisner, confio-vos à intercessão de Maria, que, como primeira cristã, disse sim à vontade de Deus.” [3]
Estamos conscientes de ter um beato em nossa Família?
Trinta anos após a beatificação, a pergunta que o Pe. Bühler formulou aos 25 anos permanece aberta, e talvez ainda mais urgente:
“Como a Família de Schoenstatt internacional assumiu e tomou para si a beatificação de Carlos Leisner? Está consciente, em todas as suas comunidades, de que um membro das suas fileiras foi elevado à glória dos altares e pode ser venerado e invocado como beato na liturgia oficial da Igreja? […] Muitos que encontraram seu lar espiritual em nosso Santuário estão conscientes da existência de nosso beato? Minha percepção pessoal é que ainda estamos no início dessa questão. Até que possamos dizer que o Beato Carlos Leisner ocupa um lugar natural no seio da Família de Schoenstatt mundial, falta a condição mais importante para sua canonização.” [2]
Não é uma crítica – é um convite. O Pe. Bühler é claro sobre o que Carlos tem a dizer hoje: “Como todos os santos da história da Igreja, o nosso Beato Carlos Leisner é um sinal claro e manifesto do Deus vivo. Dá testemunho de que a fé em Deus, ao nos deixarmos conduzir por Ele, faz com que a vida tenha sentido e valor.” [2]
O Pai e Fundador já havia dito, em carta de 14 de setembro de 1952: “Se São Miguel e Carlos Leisner são seus companheiros, nada tens a temer sobre o futuro.” [2]
Trinta anos após a beatificação, a Família de Schoenstatt é chamada a deixar que Carlos Leisner ocupe esse lugar, não apenas nas páginas da história, mas no coração vivo da Aliança de Amor.
Referências
[2] Pe. Oskar Bühler. 25 anos de beatificação do Pe. Carlos Leisner.
[3] São João Paulo II. Homilia na beatificação de Bernhard Lichtenberg e Carlos Leisner.