Liberdade, consciência e responsabilidade à luz da Doutrina Social da Igreja, da Logoterapia e da pedagogia do Pe. José Kentenich.
Ana Beatriz Manoel Suzan* – Em tempos de eleições, a sociedade experimenta tensões que ultrapassam o campo das propostas políticas e alcançam as relações humanas. Famílias se dividem, amizades são colocadas à prova e pessoas que compartilham a mesma fé passam a se perceber como adversárias em razão de suas escolhas eleitorais.
Esse cenário nos convida a uma reflexão que considero anterior a qualquer posicionamento partidário: qual é a nossa concepção de pessoa humana e, a partir dela, o que compreendemos como bem comum?
Para nós, que encontramos na espiritualidade de Schoenstatt um caminho de formação e transformação da sociedade, essa pergunta adquire uma responsabilidade ainda maior. Afinal, como podemos contribuir para a construção de um organismo de vínculos se nossas diferenças políticas se tornam suficientes para romper os vínculos que construímos na fé, na amizade e na Aliança de Amor?
A pessoa humana como fundamento da política
Na tradição da Doutrina Social da Igreja, desde a Rerum Novarum, de Leão XIII, até os ensinamentos dos pontífices contemporâneos, encontramos uma preocupação constante com a dignidade integral da pessoa humana.
O ser humano não pode ser reduzido à sua condição econômica, social, psicológica ou política. Sua dignidade não nasce da identificação com determinada ideologia ou da adesão a um projeto partidário. A pessoa é anterior ao Estado, aos partidos e às instituições políticas.
São João Paulo II, na encíclica Centesimus Annus (n. 46), nos recorda que uma autêntica democracia somente é possível em um Estado de Direito e sobre a base de uma reta concepção da pessoa humana. Essa afirmação aponta para uma questão fundamental: antes de discutirmos qual projeto político é melhor, precisamos compreender a serviço de quem ele deve existir. É aqui que encontramos a relação essencial entre a ordem do ser e a ordem do agir. Antes de perguntarmos o que devemos fazer, precisamos compreender quem é a pessoa humana para quem nossas ações devem estar orientadas.
A política não constitui um fim em si mesma. Sua finalidade é promover as condições necessárias para que as pessoas e as comunidades possam desenvolver-se integralmente.
O bem comum e a política como expressão da caridade
Na encíclica Fratelli Tutti, o Papa Francisco apresenta a amizade social e o amor político como caminhos para recuperar o verdadeiro sentido da vida em sociedade.
O bem comum não pode ser confundido com os interesses exclusivos de uma maioria eleitoral ou daqueles que compartilham nossas convicções. Quem assume um mandato não é chamado a governar apenas para seus eleitores, mas para toda a comunidade política.
Entretanto, o que temos presenciado é a transformação do debate político em um cenário de enfrentamento. Muitas campanhas privilegiam a desconstrução do adversário em vez da apresentação de propostas. O eleitor é frequentemente convidado a temer ou rejeitar uma pessoa antes mesmo de compreender aquilo que ela pretende realizar.
Quando o adversário é transformado em inimigo, a política perde uma de suas possibilidades mais nobres: favorecer a convivência e a construção de uma sociedade orientada ao bem de todos.
Essa lógica também pode alcançar nossas famílias e comunidades religiosas. Por isso, precisamos ter cuidado para não reduzir as pessoas às categorias políticas com as quais as identificamos. Nem toda posição conservadora representa extremismo, assim como nem toda posição progressista significa adesão integral a uma determinada ideologia.
Isso não implica relativizar condutas incompatíveis com a dignidade humana ou com a democracia. Significa reconhecer que há uma diferença entre avaliar criticamente uma proposta e desqualificar a pessoa que a defende.
O eleitor que pensa diferente de nós não deixa, por isso, de ser alguém capaz de agir com honestidade, consciência e boa intenção.
Viktor Frankl: liberdade e responsabilidade diante das diferenças
A antropologia de Viktor Frankl oferece uma contribuição importante para compreendermos a polarização política. O ser humano é condicionado por sua história, educação, experiências, vínculos familiares e ambiente social, mas não é inteiramente determinado por eles.
Cada pessoa chega ao momento do voto carregando preocupações, convicções, expectativas e esperanças. Alguns priorizam a segurança, outros a educação, a economia, a liberdade, a justiça social ou a proteção dos mais vulneráveis.
Duas pessoas podem desejar sinceramente o bem de seu país e, ainda assim, chegar a escolhas políticas diferentes, porque interpretam de maneira distinta os desafios da realidade e os caminhos possíveis para enfrentá-los. Isso não significa que todas as escolhas sejam igualmente acertadas, mas que o discernimento humano acontece em condições concretas, marcadas por possibilidades e limitações.
Frankl nos recorda que existe na pessoa uma capacidade propriamente espiritual de tomar posição diante de seus condicionamentos. Mesmo diante de circunstâncias adversas, permanece a possibilidade de escolher a atitude que assumiremos.
Podemos experimentar medo, indignação ou profunda discordância diante de determinado posicionamento político. Entretanto, continuamos responsáveis pela maneira como respondemos a essas experiências. Não precisamos transformar em inimigo aquele que ameaça nossas convicções. Podemos discordar, argumentar, questionar e assumir posições firmes sem deixar de reconhecer a dignidade do outro.
Essa é uma contribuição importante da Logoterapia para o nosso tempo: educar para a liberdade interior, para a responsabilidade e para a capacidade de conviver com aquilo que não corresponde às nossas expectativas.
A liberdade não consiste apenas em escolher aquilo com que concordamos, mas também em decidir como nos posicionamos diante daquilo que nos contraria.
Referências
- BENTO XVI. Caritas in Veritate. 2009.
- FRANCISCO. Fratelli Tutti. 2020.
- FRANKL, Viktor E. Em Busca de Sentido.
- JOÃO PAULO II. Centesimus Annus. 1991.
- LEÃO XIII. Rerum Novarum. 1891.
- KENTENICH, José. Proposta de uma pedagogia para educadores católicos
*Ana Beatriz Manoel Suzan pertence a União de Famílias e é Psicoterapeuta na linha da Análise Existencial e Logoterapia Frankliana