Causa Kentenich: Um novo estudo questiona a base documental das acusações públicas

Heinrich Brehm – O Prof. Paul Oberholzer SJ defende, na revista “Römische Quartalschrift für Christliche Altertumskunde und Kirchengeschichte” (publicada pela Herder), um tratamento minucioso dos depoimentos arquivados nos processos de beatificação.

O artigo intitula-se “Reflexões sobre o tratamento de testemunhos arquivados em um processo de beatificação: um caso prático baseado na Causa de José Kentenich” e deixa claro que, ao analisar um processo de beatificação, o que está em jogo é a solidez científica das fontes nas quais pode se basear um possível debate público com consequências importantes.

Os depoimentos arquivados das testemunhas fazem parte de um conjunto complexo de fontes

Oberholzer descreve os processos de beatificação e canonização como um campo de tensão entre a veneração existente de uma personalidade e o trabalho científico com as fontes. Tanto as lembranças positivas quanto as críticas fazem parte do panorama geral das figuras carismáticas fundadoras. No caso de José Kentenich, ele se refere a uma “controvérsia existente e reconhecida há décadas”, na qual estão presentes vozes tanto positivas quanto negativas dentro da Igreja.

O artigo não se concentra em uma avaliação definitiva sobre Kentenich, mas na questão metodológica de como lidar com os depoimentos arquivados em um processo de beatificação. O ponto de partida é a “documentação de arquivo” publicada em 2020 por Alexandra von Teuffenbach sobre os depoimentos de ex-Irmãs de Maria de Schoenstatt.

Crítica ao método e à prática editorial

A crítica de Oberholzer às deficiências formais e científicas da publicação ocupa um espaço considerável. Em repetidas ocasiões, ela denuncia a falta de dados sobre o local, a data e a classificação de documentos específicos. Em alguns casos, faltavam informações básicas sobre as fontes e as referências arquivísticas. Embora a autora estabeleça critérios de edição, ela própria não os respeita de forma sistemática.

Oberholzer avalia de forma especialmente crítica o fato de os critérios de seleção dos documentos não terem sido revelados. Isso dá a impressão de que se trata de uma coleção “compilada de forma totalmente arbitrária”. Além disso, falta uma classificação do acervo arquivístico utilizado, bem como uma explicação sobre por que determinadas fontes foram incluídas e outras não foram levadas em consideração. Assim, ele constata, por exemplo, que von Teuffenbach recorre exclusivamente ao acervo de fontes daquele grupo que se caracteriza por uma memória negativa sobre José Kentenich.

Oberholzer também destaca claramente as deficiências linguísticas e editoriais. Ele menciona erros de pontuação, inconsistências na grafia dos nomes, erros gramaticais e ambiguidades nas citações e na reprodução das fontes. Em alguns casos, os erros linguísticos nos documentos não foram assinalados com a indicação editorial “[sic]”. Dessa forma, fica sem esclarecimento se se trata de erros da fonte original ou de erros de transcrição.

O jesuíta não considera que se trate simplesmente de questões secundárias. Justamente em uma publicação que pretende ter caráter científico e que poderia ter consequências consideráveis para um processo de beatificação, a precisão e a transparência são indispensáveis. Em sua opinião, a grande quantidade de deficiências formais também enfraquece a credibilidade das afirmações de fundo.

Sem julgamentos precipitados

Oberholzer critica, além disso, que, em alguns casos, os depoimentos das testemunhas sejam aceitos como provas diretas, sem que se investigue suficientemente o contexto em que ocorreram. As memórias não são instantâneos objetivos, mas mudam com o passar do tempo e podem ser influenciadas por experiências posteriores.

Por isso, defende que se dedique maior atenção à crítica das fontes históricas e aos chamados “estudos da memória” (“memory studies”), ou seja, à investigação científica da memória coletiva. Precisamente no caso das declarações que foram prestadas décadas após os fatos descritos, é necessário um rigor metodológico especial.

Oberholzer ressalta em várias ocasiões que sua contribuição não oferece nenhuma resposta à questão de se José Kentenich cometeu abusos espirituais, psicológicos ou sexuais. Em sua opinião, as lacunas existentes na documentação não permitem tirar conclusões definitivas sobre Kentenich.

Questões para processos futuros

Para concluir, Oberholzer amplia a perspectiva para questões fundamentais dos processos de beatificação da Igreja. Ele se pergunta como as vozes críticas poderão ser melhor integradas nesses processos no futuro. Nesse sentido, ele lembra o antigo “advocatus diaboli”, cuja tarefa consistia em apresentar argumentos contrários em um processo.

Justamente no caso das acusações históricas de abusos, é necessário agir com especial cautela, já que, em geral, não é mais possível interrogar nem os acusados nem as supostas vítimas. Por isso, Oberholzer defende um tratamento metodologicamente muito rigoroso dos depoimentos arquivísticos.

Avaliação geral dos depoimentos

Com sua contribuição, Oberholzer situa o debate sobre a Causa Kentenich em um contexto científico mais amplo: não é a mera existência de acusações arquivadas que permite, por si só, emitir um julgamento definitivo, mas sim a análise crítica das fontes no contexto da avaliação global de todos os depoimentos.

Mais informações

É possível BAIXAR o artigo de Paul Oberholzer em herder.de

Sobre o padre Paul Oberholzer SJ, decano da Faculdade de História da Igreja da Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, desde setembro de 2025: jesuiten.org

Fonte: schoenstatt.com

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