Pe. Carlos Padilla – Deus não leva em conta o mal cometido. Não permanece fixado no pecado, mas oferece misericórdia e abre novamente o caminho para a vida. O Salmo 103 recorda que o Senhor é compassivo e misericordioso, lento para a ira e rico em bondade. Ele perdoa as culpas, cura as feridas e afasta de nós os nossos pecados, como o Oriente está distante do Ocidente (cf. Sl 102[103]).
A misericórdia que acolhe
Deus não estabelece uma distância entre Ele e o ser humano por causa da sua fraqueza. Não se afasta daquele que reconhece o próprio pecado e pede perdão. Ao contrário, acolhe com misericórdia e permanece próximo.
A misericórdia de Deus envolve a pessoa e a levanta depois da queda. Seu amor alcança as feridas e devolve a esperança. Como a água que se infiltra entre as rochas, a graça de Deus encontra caminhos mesmo quando tudo parece fechado.
Essa experiência do perdão também traz uma responsabilidade. Quem recebe misericórdia é chamado a agir com misericórdia. O livro do Eclesiástico pergunta: “Se não tem compaixão do seu semelhante, como pode pedir perdão dos seus próprios pecados?” (Eclo 28,4).
Perdoar como quem foi perdoado
Jesus apresenta essa mesma verdade na parábola do servo que recebe o perdão de uma grande dívida, mas não consegue perdoar uma dívida muito menor. O senhor se compadece dele e cancela toda a dívida. O servo, porém, encontra um companheiro que lhe deve pouco e exige o pagamento sem misericórdia (cf. Mt 18,21-35).
A parábola mostra uma contradição presente muitas vezes na vida. A pessoa pode experimentar o perdão e, pouco depois, negar esse mesmo perdão a quem lhe causou algum sofrimento. Pode reconhecer a própria fragilidade, mas exigir muito dos outros.
É fácil usar uma medida para si e outra para o próximo. Para os próprios interesses, existe compreensão. Para os interesses dos outros, aparece a exigência. Assim, o perdão recebido não chega a se transformar em misericórdia oferecida.
Quem reconhece a grandeza do perdão recebido encontra motivos para acolher também aquele que não foi justo. A consciência de que nada foi merecido torna o coração mais generoso.
Uma vida sem rancor
O perdão pede que a pessoa não permaneça presa à ira, à raiva e ao ressentimento. Esses sentimentos podem ocupar tanto espaço interior que passam a determinar a maneira de olhar para os outros.
Quando a vida é construída a partir de expectativas, surgem ofensas por todos os lados. Há quem perceba rapidamente quando foi ignorado, desvalorizado ou tratado de maneira diferente. Aos poucos, o ressentimento pode se tornar uma forma de interpretar todos os relacionamentos.
A pessoa passa a acreditar que os outros lhe devem alguma coisa. Compara-se, sente-se ameaçada e enxerga adversários onde existem apenas pessoas diferentes. Nesse contexto, o perdão parece impossível.
A liberdade interior nasce quando já não se vive esperando que os outros correspondam a todas as expectativas. Ninguém precisa provar seu valor o tempo todo. Nem todos precisam agir exatamente como se espera.
Viver em paz com todos é uma graça de Deus. Essa atitude permite reconhecer cada pessoa como irmã, sem exigir dela aquilo que não é exigido de si mesmo.
Viver para o Senhor
O apóstolo Paulo recorda que a vida não pertence apenas ao próprio indivíduo: “Nenhum de nós vive para si mesmo, e nenhum morre para si mesmo. Se vivemos, vivemos para o Senhor; se morremos, morremos para o Senhor” (Rm 14,7-8).
Essa perspectiva muda a maneira de olhar para as próprias feridas e para as faltas dos outros. A vida deixa de ser centrada apenas nos próprios interesses. O olhar se abre para Deus e para o próximo.
Deus deseja que o ser humano aprenda com sua bondade. Se Ele perdoa uma dívida, também espera que a pessoa seja capaz de perdoar quem lhe deve algo. Se acolhe o pecador com misericórdia, espera que seus filhos façam o mesmo.
O perdão nem sempre parece possível. Pode parecer contrário à natureza humana, especialmente diante de uma grande ferida. Ainda assim, Jesus convida a perdoar de coração. O perdão não apaga o que aconteceu, mas impede que o ressentimento tenha a última palavra.
Perdoar também cura
O perdão pode trazer benefícios para quem perdoa. Estudos sobre o tema relacionam o ato de perdoar ao bem-estar psicológico e físico, inclusive em situações de ofensas graves. Por isso, o perdão não beneficia apenas quem é perdoado. Ele também liberta quem decide não permanecer preso ao ressentimento.
Perdoar é uma forma de compreender a vida. É reconhecer que todos precisam de misericórdia. É abandonar a necessidade de cobrar constantemente aquilo que se acredita ter recebido de menos.
A misericórdia recebida de Deus pode se tornar uma forma de olhar para os outros. Quem se sabe amado mesmo em sua fragilidade encontra mais liberdade para amar sem exigir perfeição.
Deus perdoa, acolhe e permanece próximo. Seu amor levanta quem caiu e cura quem está ferido. Essa misericórdia também se torna um chamado: viver perdoado e aprender a perdoar, sem rancor e sem permanecer preso às feridas.
Leituras deste domingo (13/09/2026)
1ª Leitura – Eclo 27, 33-28,9
Salmo – Sl 102
2ª Leitura – Rm 14, 7-9
Evangelho – Mt 18, 21-35
*Trecho extraído da homilia do Pe. Carlos Padilla, traduzido e adaptado para português.