“Eu andava com um santo e não percebia”

Larissa Rodrigues – O legado do Venerável Diácono João Luiz Pozzobon continua presente na memória de quem convive com sua história. Sua missão permanece viva nas comunidades, nas famílias que recebem a imagem da Mãe Peregrina e nas narrativas de geração em geração. A Igreja contempla os frutos de uma missão que alcança milhares de pessoas no Brasil e em mais de 100 países, muito além da lembrança de seu falecimento, ocorrido em um 27 de junho.

A tradicional Procissão Luminosa e as celebrações marcam essa memória. Enquanto a Causa de Beatificação avança, os testemunhos de quem conhece João Luiz Pozzobon revelam a força de sua caminhada. Ele é o “seu João”, o missionário que percorre estradas de chão, reúne famílias para o terço e ouve cada pessoa com atenção.

Memórias que o tempo não apaga

A história de João Luiz Pozzobon se mistura com a vida da professora aposentada Dalva Carmen Schiop. Na infância, ela vê o diácono passar diariamente a caminho da capela. A imagem da Mãe Peregrina visita sua residência todos os meses para a oração do terço e reúne a vizinhança.

“Era tudo muito organizado. Eram 30 famílias que recebiam a imagem. Num dia ela ficava na nossa casa. O seu João chegava, rezava o terço, conversava um pouco com a família e, no dia seguinte, voltava para buscar a imagem e levá-la para a casa seguinte. Era assim todos os meses”, recorda Dalva.

Esses encontros deixam marcas profundas. Dalva conta que Pozzobon envolve as crianças na oração e leva um grande terço para a participação de todos. Após o momento religioso, o quintal se transforma em um espaço de convivência comunitária.

“Todas as crianças seguravam aquele terço enorme enquanto ele rezava. Depois nós brincávamos no pátio. Era toda a vizinhança reunida. Era um momento muito bonito”, afirma a professora.

Anos mais tarde, como coordenadora de Ensino Religioso, Dalva reencontra o missionário nas escolas. O avanço da Causa de Beatificação desperta uma grande emoção:

“É uma emoção que eu não saberia explicar. Nós conhecemos o seu João, convivemos com ele. Hoje saber que ele está tão próximo dos altares é muito gratificante”.

A professora também guarda a dolorosa memória do acidente que tira a vida do diácono, em frente à sua casa. Ela recebe a notícia na sala de aula por meio de um aluno:

“Minha mãe viu a movimentação pela janela e disse que tinha acontecido um acidente. Depois ficamos sabendo que era o seu João. Eu estava dando aula quando um aluno chegou e disse: ‘Professora, morreu o seu João’. Nunca esqueci aquele momento”.

Um amigo das famílias

No Pé de Plátano, o feirante Ernande José Bilibio conhece o diácono pelo apelido de “Joaninho”. Pozzobon entra nas casas com simplicidade e cultiva uma proximidade que resiste ao tempo. Ernande tem 16 anos na época do falecimento do missionário. Ele passa de carroça perto do local do acidente sob uma forte cerração e descobre o ocorrido pelo rádio.

“Quando anunciaram que tinha morrido o Joãozinho Pozzobon, eu disse: ‘Mas eu passei lá agora há pouco’. Foi por uns cinco minutos que eu não vi o acidente”, diz Ernande.

O feirante prefere valorizar as lembranças alegres. As visitas da Mãe Peregrina mobilizam toda a comunidade. As crianças esperam ansiosas pelas conversas e pelas balas distribuídas ao fim do terço.

“A gente ficava feliz porque ele ia nas casas. Meu pai comprava um pacote de balas para distribuir para as crianças que participavam. Era uma festa para nós. Nas turmas, ele rezava e sempre deixava uma palavra bonita”, relata Ernande.

A rapidez e a profundidade da oração do diácono também chamam a atenção da Família.

“A gente comentava esses dias em casa. Ele rezava um terço em oito ou dez minutos. Era bem rápido, mas rezava com muita fé”, aponta o feirante.

Até hoje, a imagem da Mãe Peregrina visita a casa de Ernande e reúne seus filhos e netos para a oração.

Fé transmitida entre gerações

Na Vila Bilibiu, perto da Capela Branca, a aposentada Celestina da Silva acompanha a dedicação do diácono há quase cinco décadas.

“Ele vinha sempre às quatro horas da tarde. A gente rezava o terço junto e depois ele conversava um pouco com as famílias. Era uma pessoa muito boa. Levava balas para as crianças, distribuía cuca no Dia do Trabalhador”, recorda Celestina.

Sua filha, Nara de Fátima Ribeiro, cresce com essas histórias. Ela destaca a atenção do missionário com as necessidades sacramentais da comunidade. Pozzobon prepara a irmã de Nara para a Primeira Comunhão durante o período de gravidez. Além disso, o diácono mobiliza esforços para construir uma pequena escola ao lado da capela e evita que as crianças enfrentem caminhos perigosos em épocas de cheia.

Nara também experimenta graças por intercessão do missionário. Em 2024, após sua mãe sofrer um infarto grave, a família inicia uma novena para Pozzobon:

“Meu irmão disse: ‘Hoje nós vamos começar a novena para o João Luiz Pozzobon’. Sem mentira nenhuma, no outro dia chegamos ao hospital e ela já estava sentada na porta do quarto”, conta emocionada.

A devoção se mantém firme e a comunidade se reúne todos os domingos na Capela Branca para a recitação do terço.

A convivência com um santo

A agente comunitária de saúde Isonilda da Silva da Rosa sintetiza o impacto de Pozzobon em sua vida. O diácono celebra seu casamento religioso na Capela Branca e organiza batizados comunitários após constatar a realidade das famílias da região.

“Ele reuniu quatro ou cinco casais e realizou um casamento comunitário aqui na capelinha. Também batizou minha filha junto com outras crianças. Foi um momento muito marcante da minha vida”, recorda Isonilda.

A disposição do missionário impressiona a todos pela igualdade no trato e pela energia incansável.

“Ele chegava nas casas e sentava onde tivesse lugar. Não fazia diferença se era cadeira ou banco. Ia falando da Mãe Rainha, conversando com todo mundo. Hoje a gente faz uma ou duas coisas e já acha que fez muito. Eu fico pensando de onde ele tirava tanto tempo. Ele nunca cansava”, expressa a agente de saúde.

Atualmente, Isonilda ajuda a zelar pela Capela Branca. O local atrai fiéis em busca de esperança e abriga relatos de milagres, como um incêndio no altar que se apagou misteriosamente antes de atingir a imagem da Mãe Peregrina. A caminhada ao lado do diácono deixa uma certeza permanente, resumida por Isonilda:

“Às vezes eu fico imaginando como eu andava com um santo e não percebia”.

Com informações de Diário Santa Maria.
Fotos: Vinicius Becker (Diário)

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