José Engling: O herói que escutou a vida

Gustavo Cenci Valduga – Há 108 anos, em 4 de outubro de 1918, caía em Cambrai, na França, um jovem soldado alemão de vinte anos. Sua vida inteira cabia numa frase, seu Ideal Pessoal: “ser tudo para todos e propriedade especial de Maria”.

Quando José Engling nasceu, em 5 de janeiro de 1898, ninguém diria que aquele filho de um alfaiate de aldeia entraria para a história de Schoenstatt e atrairia corações juvenis à obra predileta. Ainda quando criança, a poliomielite deixou nele marcas para a vida inteira: a coluna levemente deformada, o andar encurvado, a dificuldade de pronunciar certas consoantes. Era pobre, míope e fisicamente desajeitado. Tinha, como diz o livro Herói de duas espadas, todos os motivos para ficar na sombra.

Não ficou. Sem amargura diante dos limites que a vida lhe impôs, aceitou a luta em todas as áreas.

Um jovem de carne e osso

Engling foi aluno dos Palotinos e do Pe. José Kentenich, e pertencia à Congregação Mariana. Não participou do ato de fundação de Schoenstatt, em 18 de outubro de 1914, porque chegou dias depois das férias. Mesmo assim, foi um dos primeiros a compreender a fundo o sentido da Aliança de Amor, a ponto de o Pe. Kentenich chamá-lo de “Documento de Fundação vivido” e inspirar posteriormente, em Santa Maria/RS, um diácono e pai de família, chamado João Pozzobon, herói de Schoenstatt, Venerável e iniciador da Campanha da Mãe Peregrina.

João Pozzobon em Cambrai, na França

O que o formou foi a escola da vida cotidiana. O Pe. Kentenich ensinava aos jovens que o santo moderno não busca coisas extraordinárias, mas realiza as coisas comuns com perfeição extraordinária. Engling levou isso a sério no estudo, nas relações, na luta contra si mesmo e, depois, na vida de soldado. Cada esforço e cada renúncia eram oferecidos a Maria como contribuição ao Capital de Graças.

Heroísmo no meio das trincheiras

A Primeira Guerra Mundial levou Engling para longe do Santuário, mas não da Aliança, ao contrário, aproximou-o ainda mais de sua consagração a Maria. Seu diário mostra que ele não via nas circunstâncias um obstáculo: via nelas uma voz, uma razão. Escreveu: 

“Querida Mãezinha, quero aproveitar as difíceis circunstâncias em que me colocaste para me santificar o mais depressa possível.”

Nas trincheiras, procurava manter a alegria. Propunha-se lembrar cinco vezes ao dia que “um filho de Maria não deve andar triste”. Servia os companheiros e tentava aproximá-los de Maria. Em 31 de maio de 1918, ofereceu a própria vida pela Obra de Schoenstatt.

Em 4 de outubro de 1918, entre as seis e as sete da tarde, um estilhaço de granada o atingiu perto de Cambrai. No dia seguinte, a Alemanha pedia o armistício. Seus cadernos de diário, encontrados na mochila, foram enviados aos pais. Foi a partir deles que o mundo conheceu sua vida.

O que a juventude vê nele

Um jovem de hoje se reconhece em Engling porque ele nunca foi um super-herói. Foi alguém que tinha defeitos, limites reais e, ainda assim, não os usou como desculpa. Sua grandeza está na decisão de recomeçar todos os dias, sem esperar o momento certo.

Mais um motivo: ele escolheu uma vida em que ninguém aplaude. Numa época de comparação constante e de busca por reconhecimento, Engling mostra que o heroísmo mora na fidelidade escondida.

Na Juventude Masculina de Schoenstatt (Jumas), ele não é somente um outro herói de Schoenstatt, ele é nosso Irmão Maior, exemplo de vida e santidade. Aprendemos com ele, por meio do Jumas, não somente que devemos fazer o ordinário extraordinariamente bem, mas sim sermos autênticos, Homens Novos e estarmos preparados para ouvir a Voz de Deus, assim como ele ouviu. Ainda mais: não basta ouvi-la, devemos colocá-la em prática.

Uma presença que continua

Depois de sua morte, o Pe. Kentenich guardou seus escritos, e o diário passou a ser publicado na revista Mater Ter Admirabilis. Muitos começaram a querer saber mais sobre aquele rapaz. O local onde ele tombou tornou-se destino de peregrinação: ali há hoje uma cruz, um memorial com chamas e o Santuário da Unidade. Segundo o livro, muitos jovens se sentem atraídos pelas chamas e há quem escreva uma carta a Engling e a lance na taça de fogo. Os moradores da região chegaram a chamá-lo de “santo da reconciliação”, e seu processo de canonização segue em Roma.

Dele também nasceu a tradição das Flores de Maio, em que a Família de Schoenstatt oferece a Maria um buquê espiritual de pequenos sacrifícios. Mostrando que, por meio de ofertas ao Capital de Graças, podemos buscar a máxima proposta por Schoenstatt: a Santidade da Vida Diária.

Em minha vida, Engling se mostra como uma voz da Aliança. Sua trajetória me mostra aquilo que pude ouvir na homilia da missa do Retiro da minha Aliança de Amor, em 5 de outubro de 2025, proferida pelo Pe. Maike Andrade, “viver uma vida dedicada a Deus e à Virgem Maria é uma vida que vale a pena ser vivida”, é a mais pura verdade. A ardente devoção e entrega dele à MTA me inspiram diariamente, refletindo no meu modo de atuar à frente do Jumas em Rodeio Bonito, nos meus estudos, em meu trabalho e nas relações com os outros.

“Em diálogo com a vida, Herói Hoje!”

O lema da Família de Schoenstatt no Brasil encontra em Engling sua tradução mais concreta. Dialogar com a vida é escutar nela a voz de Deus e responder, e foi isso o que ele fez com a doença, com os estudos, com o quartel e com a guerra. Seu “sim” não dependia de a vida ser fácil.

E ser herói hoje é exatamente isso: não precisa de palco, não precisa ser mostrado e aplaudido. É permanecer fiel quando o ambiente convida à acomodação, é servir os que estão ao lado, é transformar o esforço de cada dia em oferta de amor.

Um convite neste 4 de outubro

O Pe. Kentenich repetiu muitas vezes uma pergunta que continua à espera de resposta: quem será o José Engling de hoje? Talvez a resposta comece num gesto pequeno, no lugar onde cada um está, no dia de hoje, com as condições que são possíveis agora. Que Engling, que se consagrou a Maria dizendo “Tudo por ti, querida Mãezinha”, interceda por nós para que, em diálogo com a vida, sejamos heróis hoje!

Referências

Livro: Herói de duas espadas, Olivo Cesca.
José Engling. Seção Nossos Modelos.
José Engling: O Herói do Diálogo.
Heróis de Schoenstatt: uma constante inspiração para nós.

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