Liderança e acompanhamento pastoral

Liderança como serviço – Parte 1

Dr. Pe. Marcelo Cervi* – Vivemos uma profunda crise de liderança. Crise nas lideranças políticas, nas instituições públicas e também na Igreja. Não faltam exemplos de decisões equivocadas, má gestão de pessoas e recursos, autoritarismo e abusos de poder, omissões ou procrastinações diante de decisões importantes. No contexto da liderança social e eclesial, encontramos frequentemente pessoas capazes de organizar muitas coisas, mas incapazes de gerar processos de vida que ajudem as pessoas a viver e atuar com sentido e realização própria e dos demais.

No início de maio de 2026, ocorreu um encontro entre a filósofa americana Rebecca Goldstein e o físico brasileiro Marcelo Gleiser. O tema da conversa era a busca humana por uma vida com sentido. Em determinado momento, Goldstein observou que algumas pessoas passam a acreditar que não têm relevância e procuram compensar esse sentimento por meio da violência. Em seguida, afirmou que uma das grandes tarefas da existência humana consiste em lutar contra a entropia, ou ao menos reduzir seus efeitos.

A entropia é um conceito da física que descreve a tendência natural dos sistemas à desordem. Sem uma intervenção ativa, tudo tende à dispersão e ao caos. Uma casa organizada, por exemplo, não permanece assim por muito tempo sem cuidado e dedicação. O mesmo acontece com a vida interior, com as relações humanas e com as instituições. Também elas estão sujeitas a processos de desgaste, fragmentação e desagregação. Um líder que não cuida de si mesmo, corre o risco de se desgastar até o caos.

Por isso, o conceito de entropia ultrapassou o campo das ciências exatas e passou a ser utilizado para descrever fenômenos humanos e sociais. Fala-se até mesmo em “entropia psíquica” para indicar estados de confusão interior, nos quais pensamentos, emoções e desejos competem entre si, gerando insegurança, ansiedade e estresse.

Mas qual seria a resposta para essa tendência à desordem? Para Rebecca Goldstein, ela se encontra na busca do amor, do conhecimento e da beleza, bem como na escolha da compaixão em vez da crueldade. Durante a conversa, ao refletir sobre certas lideranças políticas contemporâneas, Marcelo Gleiser perguntou se a megalomania não seria uma expressão patológica da necessidade de relevância que certos líderes tem. Goldstein concordou imediatamente e acrescentou: “O narcisismo também”.

Essas observações ajudam a compreender muitos dos desafios atuais. Vivemos em uma cultura marcada pela necessidade constante de reconhecimento, pela exaltação da própria imagem e pela dificuldade crescente de construir vínculos sólidos e duradouros. Há muito ativismo e pouca interioridade. Muito controle e pouca confiança. Muita administração e pouco cuidado com as pessoas.

Esse risco também atinge a Igreja. Como realidade inserida no mundo, ela não está imune às influências culturais do seu tempo. Por isso, é sempre necessário perguntar: como deve ser o líder cristão?

A resposta nos vem do próprio Cristo. No gesto do lava-pés (cf. Jo 13), Jesus revela a essência de toda autoridade cristã. Liderar é servir. A autoridade nasce do amor que se entrega. O verdadeiro líder não procura ocupar espaços de poder nem alimentar a própria importância. Sua missão consiste em ajudar os outros a crescer. Não cria dependência, mas favorece a liberdade. Não centraliza tudo em si, mas desperta iniciativas, responsabilidades e vocações.

Nessa perspectiva, a liderança cristã está intimamente ligada ao acompanhamento pastoral. Conduzir pessoas não significa apenas administrar atividades ou alcançar resultados. Significa caminhar com elas, ajudá-las a discernir a vontade de Deus, sustentar seus processos de crescimento e permanecer próximo também nos momentos de fragilidade.

O Pe. José Kentenich, Fundador de Schoenstatt, insistia que toda liderança autêntica deve apoiar-se na autoeducação e na formação do coração. Antes de conduzir outros, é necessário aprender a conduzir a si mesmo. Quem não é capaz de governar o próprio mundo interior dificilmente conseguirá acompanhar pessoas com equilíbrio, liberdade e sabedoria.

Por isso, a liderança cristã começa pela conquista da liberdade interior. Trata-se de reconhecer as próprias forças e limitações, educar a vontade, ordenar os afetos, cultivar hábitos saudáveis e permitir que a graça de Deus transforme continuamente a própria vida. Não basta adquirir competências ou conhecimentos. É necessário formar uma personalidade madura, livre e serviçal.

Talvez seja justamente esse o grande desafio da liderança em nosso tempo: não criar mais estruturas, mas gerar vida; não buscar protagonismo, mas fecundidade; não administrar pessoas, mas acompanhá-las. Em um mundo cada vez mais marcado pela dispersão e pela desordem, o líder cristão é chamado a ser sinal de comunhão, esperança e cuidado. Sua missão consiste em ajudar cada pessoa a descobrir que é amada por Deus, possui uma dignidade única e foi chamada a contribuir para a construção do Reino.

*Dr. Pe. Marcelo Cervi é Reitor Geral do Instituto dos Sacerdotes Diocesanos de Schoenstatt

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