O amor que tira da acomodação

Pe. Carlos Padilla – O chamado de Deus sempre surpreende. É como um vento forte que invade a vida e desestabiliza tudo. O Evangelho relata: “Naquele tempo, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e lhe disse: ‘Segue-me’. Ele se levantou e o seguiu”.

É um chamado que surge no meio da rotina e rompe a falsa tranquilidade. Muitas vezes, a vida parece organizada, previsível e confortável. Tudo está planejado, decidido e calculado. Não há espaço para o inesperado. A pessoa pode até não estar plenamente feliz, mas acredita que já não é possível mudar. As circunstâncias parecem uma rede que prende e impede qualquer passo diferente.

O olhar que transforma

Mateus também vivia assim. Era cobrador de impostos e tinha sua vida resolvida. Aos olhos do povo judeu, porém, era um pecador e um traidor, alguém que se beneficiava do próprio povo. Talvez acreditasse que não merecia o amor de Deus ou que não tinha direito a esperar algo diferente para sua vida. Nem mesmo é possível saber se desejava mudar ou se já havia se conformado com sua situação.

É justamente nesse momento que Jesus o vê. Aproxima-se, olha em seus olhos, tem misericórdia e o chama. Essa cena sempre emociona, porque revela um Deus que escolhe antes mesmo de qualquer mudança acontecer. Jesus não espera que Mateus se torne melhor para amá-lo. Primeiro o ama, depois o convida a segui-lo.

Certamente, muitas vezes Mateus recordou aquele instante. Bastou um olhar para transformar completamente sua existência. Naquele encontro, experimentou a certeza de ser amado e escolhido.

A misericórdia acima dos méritos

Logo depois, Jesus está sentado à mesa com publicanos e pecadores. Os fariseus se escandalizam e perguntam por que o Mestre convive com essas pessoas. A resposta é clara: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes. Quero misericórdia e não sacrifícios. Não vim chamar os justos, mas os pecadores”.

Essa lógica continua provocando inquietação. É comum imaginar que Deus se aproxima apenas quando tudo está em ordem e quando as escolhas são corretas. Sem dúvida, alegra-se com o bem praticado e com a entrega generosa. No entanto, sua misericórdia se manifesta de modo especial justamente nas fragilidades, quando a pessoa está mais consciente da própria pobreza e incapacidade.

O risco da acomodação

Talvez o maior perigo não seja o pecado evidente, mas a acomodação. A tibieza torna difícil perceber a presença de Deus. Quando nada se deseja, nada se espera e nada parece capaz de mudar, sua voz pode passar despercebida.

Por isso, vale recordar o primeiro encontro com Cristo, aquele momento em que seu olhar despertou entusiasmo, confiança e coragem para deixar a segurança de lado. Foi esse amor que levou tantos discípulos a realizar gestos que pareciam impossíveis, movidos apenas pelo desejo de permanecer ao lado do Senhor.

Um amor que nunca se contenta

O Papa Francisco recordava esse mesmo ardor ao falar de São Pedro Fabro: “Fabro era devorado pelo intenso desejo de comunicar o Senhor. Se não temos esse mesmo desejo, precisamos pedi-lo em oração, para que o Senhor volte a nos fascinar”.

Esse é o amor que vale a pena pedir. Um amor sem cálculos, capaz de servir e de ir além da própria comodidade. Um amor que olha cada irmão com misericórdia, abre novos caminhos e não se contenta com uma vida sem desafios.

É um amor livre, que sonha com horizontes mais altos e não aceita permanecer nas planícies da acomodação. Um amor que não mede esforços, que continua acreditando que sempre é possível entregar mais e amar mais.

Esse é o amor que segue Jesus sem reservas, disposto a transformar a própria vida e a levar esperança aos outros.

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