O dia em que todos nós votamos

Karen Bueno – Chega o dia da eleição. E, de repente, parece que o país inteiro cabe dentro de uma urna eletrônica.

Cada pessoa chega à frente da cabine carregando uma história, uma família, uma experiência, uma preocupação, uma esperança. Há quem vote pensando na economia; quem pense na saúde, na educação, na segurança, no meio ambiente… Há quem esteja convencido de uma escolha e há quem ainda tenha dúvidas diante da tela. Há quem vote com entusiasmo e quem vote com o sentimento de ceticismo – e, como é bem comum, tem quem vote apenas por obrigação.

Seja como for, precisamos lembrar de algo neste dia: o eleitor que está ao nosso lado pode ter escolhido diferente de nós e continuar sendo uma pessoa tão honesta, consciente e bem-intencionada quanto nós mesmos.

Discordar não deveria ser uma ameaça

A democracia, afinal, não foi criada para que todos pensem igual. Ela existe justamente porque pensamos diferente e, ainda assim, precisamos encontrar uma maneira de viver juntos.

Talvez um dos maiores desafios de uma eleição seja compreender que não existe partido perfeito, candidato perfeito ou plano de governo perfeito. Existem propostas, prioridades, histórias, ideias, acertos e erros. Existem visões diferentes sobre o país que queremos construir. E cada eleitor, diante de tudo isso, faz sua escolha de acordo com aquilo que considera mais importante.

Isso não significa que todas as propostas sejam iguais ou que não devamos discutir, questionar e cobrar. Pelo contrário. Uma democracia saudável precisa de cidadãos atentos, capazes de discordar, de perguntar, de fiscalizar e também de reconhecer quando o outro apresenta um argumento que merece ser considerado.

Mas, talvez devêssemos aprender a separar uma coisa da outra: não precisamos enxergar um “inimigo” em quem pensa diferente de nós. Especialmente nós, que somos FAMÍLIA de Schoenstatt e que escolhemos o “diálogo” como palavra-chave para a vida de Aliança neste ano.

Mais de 1.600 cargos estão em jogo

Naturalmente, muitos olhos estarão voltados hoje para a escolha do presidente. Ter uma preferência por candidato X, Y, Z… já ajuda a discernir na hora da escolha. Mas, é essencial lembrar que a eleição não termina na escolha do chefe do Executivo.

Deputados e senadores também receberão o nosso voto – e terão papel fundamental na vida do país. São eles que participam da elaboração e aprovação das leis, da fiscalização do governo e das decisões que podem afetar profundamente nosso cotidiano. O Senado, o Congresso e os estados não são um detalhe da eleição, são parte essencial dela.

Colocando em números, serão eleitos 513 deputados federais, 1.035 deputados estaduais, 24 deputados distritais, 54 senadores e, obviamente, um governador em cada estado.

E então chega o momento de apertar o botão “CONFIRMA”.

Não sabemos o que acontecerá nos próximos anos. Nenhum de nós tem como garantir que o candidato escolhido cumprirá tudo o que prometeu. Nenhum plano de governo prevê todas as dificuldades que um país pode enfrentar. Aí vem outra parte complexa e bela da democracia: acompanhar, cobrar, participar e assumir a responsabilidade em cima do voto depositado.

Em meio à polarização, é fácil enxergarmos apenas as qualidades dos candidatos que escolhemos. Não é incomum ver, atualmente, alguns políticos sendo tratados quase que como “ídolos” – isso ocorre em todos os lados: na direita, na esquerda e no centro. Nosso voto não deveria significar uma adesão cega, mas uma escolha consciente, acompanhada de responsabilidade e também de capacidade para cobrar e questionar. Nós sempre rezamos o “confio cegamente” – mas, vale lembrar, esse “confio cegamente” é direcionado apenas para Deus e para nossa Mãe; de todos os demais temos o direito de desconfiar ou, ao menos, “ter um olho aberto”.

Por isso, talvez o gesto mais bonito deste dia não seja apenas votar. Talvez seja sair da cabine lembrando que, enquanto eu exerço o meu direito de escolher, milhões de outras pessoas também estão exercendo o mesmo direito – inclusive aquelas que escolheram diferente de mim. E que teremos a tarefa e o desafio de seguir cobrando e fiscalizando as pessoas em quem depositamos nossa confiança.

Amanhã, o país continuará sendo de todos nós.

Dos que votaram igual a mim – ou naquilo em que eu acredito – e dos que votaram pelo outro lado. Dos que comemoraram e dos que ficaram decepcionados. Dos que têm certezas e dos que ainda fazem perguntas.

A eleição termina. A convivência continua.

E talvez essa seja uma das maiores responsabilidades que temos depois de apertar “CONFIRMA”: continuar sendo capazes de olhar para o outro e enxergar, antes de qualquer rótulo político, um irmão que também ama este país e tem o direito de pensar diferente.

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