Proclamação da República e o Ideal Tabor

 

Das pequenas coisas do dia a dia chegamos à transfiguração do nosso país

Karen Bueno – Uma professora de educação infantil, do Rio Grande do Sul, sempre que fala sobre o uso dos bens comuns e o respeito ao que é público, narra a seguinte historinha para os seus alunos: “Havia um belo jardim, numa praça pública, com várias rosas floridas. Passou um cidadão e, concluindo que as rosas eram ‘públicas’, levou uma consigo. Veio o segundo e deduziu que, se alguém tirou a primeira rosa, ele também tinha o direito de arrancar uma segunda rosa para si. Assim passou o terceiro, o quarto e sucessivamente outros, até que todas as rosas foram tiradas do jardim, para cada qual que as tirou”.

A professora gaúcha que conta essa história provavelmente não visitou o Santuário de Schoenstatt de Atibaia/SP. Mas, se ela fosse até lá, saberia que sua historinha tem grande fundo de verdade, como mostra a placa que ficou por vários anos no jardim: “Favor não retirar as plantas!”. Isso acontece em outros Santuários também.

O que levamos dessa história para este feriado nacional?

Todo dia 15 de novembro recordamos a Proclamação da República no Brasil. Este termo, “república”, além de indicar a forma de organização política que nosso país adota, também aponta o modelo de sociedade que buscamos viver. A palavra “república” vem do latim res publica, que significa, literalmente, o “bem público”, chamando a atenção para a “coisa pública, coisa comum” [1], portanto, república diz respeito e é construída de acordo com o interesse público de todos os cidadãos.

A consciência de responsabilidade social pelo outro faz (ou deveria fazer) parte do nosso sistema de governo e da nossa vida diária, enquanto brasileiros.

O fundador de Schoenstatt, Pe. José Kentenich, recorda que nós, seres humanos, somos “um ser social: que quer dizer isso? O homem tem em si um instinto que o leva para a comunidade. Vem ao mundo como um ser social. Vem ao mundo primeiramente na sociedade menor, na menor comunidade, que é a família; depois cresce e se incorpora às formas mais amplas de comunidade: a cidade, o Estado, a Igreja…” [2].

Dentro de cada uma dessas comunidades está o desafio de viver o “espírito da república” ou, em termos mais schoenstattianos, de viver o “um no outro, com o outro e para o outro” – a missão de pensar no “nós”, antes do “eu”.

Educar-se para o espírito da república

Neste 15 de novembro não queremos idealizar, exaltar ou maquiar a história do país, nem o modelo de organização política que o Brasil adota – repletos de incoerências, jogos de poder e com grandes desafios – tampouco rebaixar outras formas de governo. Mas queremos, contudo, animar cada um a buscar o que há de bom no termo “república”, pois isso pode ajudar a levar adiante a missão de fazer do Brasil um Tabor.

Nas raízes positivas da república está a consciência de responsabilidade pelo outro, estão também o respeito pelos bens de todos, a liderança descentralizada, a democracia pela qual todos podem e devem ter voz (apesar de “república” e “democracia” serem conceitos diferentes, mas que precisam se complementar). Tudo isso precisa ser pensado e colocado em prática nas várias comunidades que habitamos: família, Igreja, sociedade…

Segundo Dom Leonardo Steiner, “república não é algo pronto, exige a participação e o cuidado dos cidadãos em cada época. Teríamos, então, a República como como expressão viva das pessoas livres que são ouvidas, representadas e respeitadas, isto é, democraticamente ativas” [3].

Não estragar os bens que possuímos juntos, em nossa casa (seja uma vassoura ou um eletrodoméstico caro) pode fazer parte de viver a consciência de república. Deixar biscoitos também para os colegas de trabalho, quando estão acabando, é um sinal de consciência social. Tomar decisões em diálogo com outras pessoas, fugindo do autoritarismo (“só a minha opinião importa”) é valorizar a república… Desses pequenos pontos do dia a dia podemos partir para os grandes gestos de transformar o Brasil na REPÚBLICA DO TABOR e, mais ainda, na “monarquia do querer de Deus Pai” – pois ele é o único e eterno rei e senhor.

 

[1] LAFER, Celso. Estudos Históricos 4 – República. O Significado de República. v. 2 n. 4. 1989

[2] KENTENICH, Pe. José. Desafio Social. 1930, p. 188-189

[3] Entrevista ao portal cnbb.org.br. Disponível em: https://www.cnbb.org.br/republica-nao-e-algo-pronto-exige-a-participacao-e-cuidado-dos-cidadaos-em-cada-epoca-diz-dom-leonardo-steiner-em-entrevistaa/ Acesso: 11 de novembro de 2021.

 

 

 

 

Publicado em: 15 de nov de 2021

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