Alexandre e Gilseanne Rossi* – ECCE HOMO! A imagem perenemente válida da pessoa humana é o Senhor diante de Pilatos[1]. O Seu rosto está ferido, o corpo dilacerado: Ecce homo. A imagem supratemporal de Cristo é o ideal do homem de natureza elevada pela graça, perfeita e marcada pelo sacrifício.[2]
Em latim, ecce significa “eis”, “aqui está”, “veja”, “olha”. Chama a atenção para algo que está sendo mostrado. A ideia não é simplesmente um “olhe”, é um clamor, uma ordem, um gesto: “Está aqui, vejam a realidade! Prestem atenção! Contemplem!” Assim, no contexto espiritual, ECCE pode ser entendido como um convite a olhar atentamente à realidade, reconhecer, acolher e responder àquilo que está diante de nós. Olhar para a realidade e contemplá-la para descobrir o que o Deus da vida quer me dizer pessoalmente por meio dela. Não se trata de inventar, de manipular, de moldar, de relativizar… mas sim de reconhecer a realidade tal qual se apresenta, com toda sua verdade, com toda sua beleza e, sobretudo, com a boa intenção que está por trás dela.
Pela correria dos tempos modernos, necessidades pessoais, pressão por números, metas, notas escolares, falta de recursos, pressão do custo de vida, conquistas, tarefas… (ufa)! Em meio a tanto corre-corre, desaprendemos a contemplar e, com isso, perdemos a capacidade de comunicação. Muitos acreditam que comunicar é falar, quando, na verdade, só nos comunicamos quando respiramos, ou seja, a comunicação se inicia pela capacidade de silenciar, de parar para tomar ar – comunicAR!
Contemplar é, antes de tudo, exercitar a escuta, é olhar para fora de si, enxergar o outro, reconhecer nele sua bondade, sua dignidade, reconhecer a verdade objetiva do ser, verdade do ser masculino ou feminino, dos temperamentos, das paixões dominantes, das gerações, do ser humano integral com suas dimensões: física, emocional, racional e sobrenatural. Contemplar é poder tirar as lentes e reconhecer a realidade de fato e, diante dela, a busca pelo bem, pelo bem de todos, pelo bem comum.
Contemplar a realidade é responder: o que o bom Deus me diz sobre isso?
“Estou inteiramente à vossa disposição com tudo o que sou e tenho, com meus conhecimentos e capacidades, com minhas limitações; mas, sobretudo, vos pertence o meu coração.”[3] Esvaziarmo-nos, sairmos de nós mesmos, irmos ao encontro para contemplar e acolher a verdade do outro é o primeiro passo rumo à comunicação! É o primeiro passo para, em nossos tempos, escutarmos o Deus da vida, para dialogarmos com o Deus da vida e finalmente podermos dialogar com os irmãos.
Em nome do direito de escolha, muitos defendem o livre-arbítrio, afirmando: eu posso, eu quero, eu faço! Mas isso se trata de uma grande confusão: livre-arbítrio X liberdade verdadeira. O primeiro não constrói, pois permite a opção pelo bem ou pelo mal, fazendo uso do que se quer, rebaixando a condição humana, muitas vezes à dimensão física, retirando toda sua plenitude de imagem de Deus. Já a liberdade, direito fundamental e expressão máxima da dignidade humana, nos leva sempre a optar pela verdade, pelo bem, pelo DEVER SER. Este arco de tensão entre o ser e o dever ser é o verdadeiro exercício da nossa liberdade, afirma Viktor Frankl. Nosso Pai e Fundador, Pe. José Kentenich, usa a expressão de “tensão criadora” e propõe a formação de personalidades livres, firmes e sacerdotais [4], que usam a autoeducação para preencher a distância entre o que são e o ideal que Deus sonhou para elas.
Essa confusão entre livre-arbítrio e liberdade tem consequências que presenciamos atualmente em nosso país: polarização, extremismos, ausência de virtudes universais, fake news, relativismo, corrupção, mentiras, perseguições, ausência de direitos fundamentais… enfim, o afastamento do Bom Deus.
“Em cada um de nós há um santo e um criminoso. Para nos tornarmos um ou outro, só precisamos querer seriamente, com determinação e perseverança” [5] Nossa Aliança de Amor nos convoca à santidade: “elevai ao máximo as exigências a respeito de si mesmo, esta santificação exijo de vós” um real esforço de autoeducação, um esforço de contemplação, um esforço de escutar o Deus da vida, por meio do cotidiano, por meio dos pequenos acontecimentos do dia a dia.
Esta é a imagem da pessoa humana que hoje precisamos reconquistar. Ecce homo! Eis o homem! Jesus, plenamente Deus, também está diante de nós como o homem de natureza sacrificada. É por meio de sacrifícios diários de autoeducação, pela tensão entre o que sou e o que Deus sonhou para eu ser – o que chamamos de ideal pessoal – que a natureza humana se plenifica. Sem o sacrifício do cotidiano, não podemos participar da graça de Cristo. Para que Deus possa reinar, devemos elevar e controlar o “animal em nós”, devemos optar pelo Santo e não pelo Criminoso, assim poderemos nos tornar plenamente homens com a razão, a vontade e o coração.
“Não é verdade que nosso tempo está ainda mais escravizado pelas suas conquistas?”[6] A fidelidade radical ao propósito pessoal é nossa liberdade. Todos somos chamados a ser herói hoje! Todos somos convocados, assim como Maria, a dar o nosso FIAT – eis-me aqui! ECCE é também dar uma resposta! É um compromisso! É uma missão!
Contemplar e responder!
ECCE é reconhecer a realidade e responder a ela. É assumir o papel para a construção de um novo homem e uma nova sociedade. Todos somos chamados a evangelizar no mundo moderno, e isso não significa fazer proselitismo religioso, mas irradiar a vivência prática do Evangelho. É fazer da mesa de trabalho, da mesa de refeição, da mesa da escola… um altar! Onde os sacrifícios diários e a coerência de vida (nossas contribuições ao Capital de Graças) tornam-se um testemunho magnético e transformador da presença de Cristo e Maria na sociedade.
A exemplo de Maria: “Como Tu, passemos pela vida fortes e dignos, simples e bondosos, espalhando amor, paz e alegria” [7]. Que, ao contemplar o Cristo flagelado, pela força da Aliança de Amor e pelos pequenos sacrifícios diários, possamos nos assemelhar à sua imagem transfigurada e gloriosa!
Contemplar, escutar, responder, assumir… Assim estaremos em diálogo com o Deus da vida, e nos tornaremos heróis hoje!
O Brasil que eu quero começa em mim!
Nossa Senhora Aparecida, rogai por nós e abençoai nosso Brasil!
Referências
[1] Cf. Jo 19,4ss
[2] KENTENICH, José – Linhas Fundamentais de uma Pedagogia Moderna para o Educador Católico – tradução: Movimento Apostólico de Schoenstatt. 1984. P. 88s
[3] Kentenich, José. Documento de pré-fundação.
[4] Ibid.
[5] Dominique Lacordaire – citado em Sob a Proteção de Maria – P.F. Kastner, p. 45.
[6] Ibid.
[7] Kentenich, José – Rumo ao céu 609.
*Alexandre e Gilseanne Rossi pertencem à União de Famílias de Schoenstatt.