No centenário do Instituto das Irmãs de Maria de Schoenstatt, as superioras das duas províncias brasileiras e a superiora geral refletem sobre a missão recebida, as transformações do tempo e os caminhos para o segundo século.
Larissa Rodrigues – Em 1º de outubro de 1926, nascia em Schoenstatt, na Alemanha, uma comunidade feminina que assumiria uma missão particular dentro da Obra fundada pelo Pe. José Kentenich: tornar Maria presente no mundo. Cem anos depois, o Instituto das Irmãs de Maria de Schoenstatt celebra seu centenário olhando para uma história marcada por expansão, desafios, mudanças culturais e novas formas de presença, mas também por uma identidade que permanece. Para marcar este jubileu, as superioras das duas províncias brasileiras e a superiora geral do Instituto refletem sobre aquilo que atravessou diferentes gerações e sobre os caminhos que se abrem para o futuro.
Para Ir. M. Silvia Regina Formaggio, superiora da Província Schoenstatt-Tabor, com sede em Atibaia/SP, a essência da vocação permanece ligada à missão recebida por meio do carisma do Pe. José Kentenich. “Na essência de nossa vocação, desde o início, está a missão recebida de Deus, pelo carisma de nosso Pai e Fundador, Pe. José Kentenich: tornar Maria presente hoje, a serviço da Igreja, pela Obra de Schoenstatt, para a transformação do mundo”, explica. Ir. M. Lilian Goerck, superiora da Província Tabor, com sede em Santa Maria/RS, expressa essa mesma identidade ao afirmar: “Como a essência, eu identifico a aspiração a ser presença de Maria no mundo”. Para ela, Deus confiou às Irmãs a missão de levar Maria às pessoas e, por meio dela, levar Cristo.
A missão permanece, mas as formas de realizá-la se transformaram ao longo de um século. “No decorrer de 100 anos, a forma de ser Igreja e atuar no mundo mudou muito, com isso a forma como atuamos também se ajustou a essas mudanças”, observa Ir. M. Silvia Regina. A fidelidade ao carisma, para ela, está ligada à união espiritual com o Fundador e à abertura aos sinais dos tempos. Ao recordar uma palavra do Papa João Paulo II à Família de Schoenstatt, em 1985, ela destaca a importância da “íntima união espiritual com a pessoa do Fundador e a fidelidade à sua missão”, sempre aberta às transformações de cada época. “Na unidade com ele, permanecemos fiéis à Aliança de Amor com a Mãe de Deus, em seu Santuário, e amamos a Igreja assim como ele sempre amou”, afirma.

Ir. M. Lilian também percebe mudanças concretas na maneira de viver a missão. Ela cita novas exigências na formação profissional, maior cooperação com leigos, partilha de responsabilidades e discernimento diante de questões éticas, doutrinais e sociais. Ao mesmo tempo, aponta aquilo que considera essencial: “Indispensável para a fidelidade ao carisma é a fidelidade à Aliança de Amor com a Mãe, o Santuário e o Fundador, bem como o enraizamento em uma comunidade”.
A diversidade de formas de atuação acompanha a própria história do Instituto. “Essa realidade diversa revela exatamente o que o Fundador desejava: apostolado de todas as formas, em todos os campos alcançáveis”, afirma Ir. M. Lilian. A forma de vida própria de um Instituto Secular permite às Irmãs atuar em diferentes espaços. “Podemos atuar nas mais diversas áreas, como saúde, educação, na adoração, na ação social, nas mídias, etc. e na nossa Obra de Schoenstatt”, explica. É nessa diversidade que, segundo ela, são chamadas a viver o carisma, “como Maria, inteiramente humanas, mas possuídas por Deus”.




Novas realidades
Entre as transformações que desafiam a missão das Irmãs estão o avanço tecnológico e a presença cada vez maior das pessoas no ambiente digital. “Nossos principais desafios e apelos são os que o Papa Leão XIV coloca em sua carta Magnifica Humanitas: ajudar para que, na cultura atual, com tanta evolução tecnológica, a humanidade permaneça humana”, afirma Ir. M. Silvia Regina.
Essa realidade também alcança o campo missionário. “Há cem anos, não havia o espaço digital, e hoje nossa missão abrange também essa nova realidade, na qual toda a sociedade ainda é aprendiz”, explica. “Estamos juntas com a Igreja, como missionárias também nesse espaço, para ajudar as pessoas a cultivarem vínculos reais.” Para Ir. M. Silvia Regina, a presença nesse ambiente precisa permanecer acompanhada da confiança na condução de Maria: “Confiamos vitoriosamente que a Mãe de Deus sabe o melhor caminho e nos guia em cada situação”.
Ir. M. Lilian também menciona a inteligência artificial entre os desafios atuais. Ao lado das novas tecnologias, ela aponta para uma realidade mais ampla: a secularização. “Na verdade, trata-se de resistir às grandes correntes de secularização que hoje minam a fé, até mesmo em ambientes eclesiais”, afirma. Ao recordar a percepção do Pe. Kentenich, nosso Pai e Fundador, sobre a realidade de seu tempo, Ir. M. Lilian estabelece uma relação com o presente: “Já em 1926, ele percebeu que a resposta de Deus a um mundo cada vez mais secularizado é Maria”.
A missão continua, portanto, ligada ao desejo de conduzir as pessoas a Cristo. “O grande desafio e apelo que, como Irmãs de Maria, queremos responder é abrir caminhos para que Cristo seja cada vez mais amado e se torne o centro do coração de todas as pessoas com as quais entramos em contato”, afirma Ir. M. Lilian.
Uma história que ensina
Ao olhar para os primeiros cem anos, Ir. M. Joanna Buckley, superiora geral das Irmãs de Maria de Schoenstatt, amplia a perspectiva para a experiência internacional do Instituto. Ela recorda que a comunidade nasceu em condições muito simples. “Não havia dinheiro, nem uma casa própria, nem qualquer tipo de segurança para as jovens que haviam abandonado suas profissões. Alguns pais ficaram chocados, pois pensavam que, no convento, tudo seria providenciado. Mas não havia convento.”

Mesmo diante dessas dificuldades, as primeiras Irmãs estavam dispostas a construir algo novo. “Nossas primeiras Irmãs viviam em condições muito modestas, mas ardiam de paixão por Schoenstatt. Elas queriam construir algo novo”, conta Ir. M. Joanna. Já nas primeiras semanas, algumas começaram a atuar fora de Schoenstatt e a comunidade cresceu rapidamente.
A expansão tornou-se uma característica da história do Instituto. “No início, foram as Irmãs alemãs que se colocaram à disposição como missionárias e, apesar das grandes dificuldades iniciais, ajudaram a construir Schoenstatt nos diversos países”, explica. Com o passar das décadas, porém, esse movimento mudou. “Agora são Irmãs de todos os países que, a partir de suas províncias, se expandem para novas regiões.” Ir. M. Joanna também percebe nesse processo uma “corrente de retorno” dos diferentes países à origem, com uma estrutura cada vez mais internacional.
O centenário, porém, não é apresentado apenas como uma celebração das conquistas. Ao recordar os obstáculos enfrentados pela comunidade, Ir. M. Joanna menciona conflitos, dificuldades internas e situações em que as Irmãs reconhecem que não corresponderam plenamente ao que anunciavam. “Lamentamos ter decepcionado as pessoas. Certamente, nossa vida e nosso comportamento nem sempre corresponderam ao que nós mesmos proclamávamos”, afirma.

O reconhecimento dessas situações faz parte do caminho para o segundo século. “Encarar a história de forma diferenciada significa aprender”, afirma Ir. M. Joanna. Para ela, a história oferece “muitos campos de aprendizado que nos proporcionam insights importantes na transição para um novo século”.
Essa perspectiva marcou também a preparação espiritual do jubileu. “Sentimos que o jubileu é uma oportunidade – não apenas para agradecer e celebrar, mas para dizer hoje um ‘sim’ novo e decidido à nossa vocação”, relata. A comunidade buscou, assim, renovar sua disposição para a missão e iniciar o segundo século com maior leveza, depois de reconhecer também aquilo que precisava ser curado e aprendido ao longo do caminho.
Uma chama para o futuro
Ao imaginar que as primeiras Irmãs e o Pe. José Kentenich pudessem contemplar hoje a comunidade que ajudaram a iniciar, Ir. M. Silvia Regina gostaria que eles reconhecessem a continuidade daquela entrega ao longo de um século. “Gostaríamos e nos empenhamos para que eles vissem que a chama que o Espírito Santo acendeu em seus corações continua a iluminar o mundo e aquecer os corações no amor a Deus, ao próximo e no cuidado com a criação.” Para ela, a confiança em Maria acompanha toda essa trajetória: “Cremos que eles nos diriam o que sempre disseram com suas palavras e exemplo de vida: Mater perfectam habebit curam (A Mãe de Deus tem o perfeito cuidado). Essa confiança vitoriosa é o fio vermelho que teceu esses 100 anos e continua a tecer ainda hoje”.
A mesma pergunta, dirigida a Ir. M. Lilian conduz seu olhar para aquilo que considera um dos frutos mais significativos da história do Instituto: a fidelidade ao carisma e a expansão da missão para diferentes países e continentes. “Nós acreditamos que, pela comunhão dos santos, nossas primeiras irmãs e, de forma especialíssima, nosso Fundador, acompanharam a nossa história de 100 anos após a sua partida para o Céu.” Para ela, “um dos frutos mais significativos é a fidelidade ao carisma recebido e que pudemos levar Schoenstatt a novas terras, países e continentes”. Sobre a mensagem que essas primeiras gerações deixariam às Irmãs responsáveis pelo futuro, afirma: “A mensagem que deixariam penso ser um apelo a seguirmos fiéis à Aliança de Amor e que continuem a seguir Maria como luz da nossa esperança!”
A passagem para o segundo século não significa apenas preservar o que foi recebido. Ir. M. Joanna apresenta o jubileu como uma oportunidade de renovar a vocação e, ao mesmo tempo, aprender com a própria história. “Sentimos que o jubileu é uma oportunidade – não apenas para agradecer e celebrar, mas para dizer hoje um ‘sim’ novo e decidido à nossa vocação.”
É nesse contexto que ganha sentido a imagem da chama que atravessa gerações. “Passar adiante a chama – é exatamente isso que queremos simbolizar na celebração do nosso jubileu”, afirma Ir. M. Joanna. As novas gerações, vindas de diferentes países e culturas, são chamadas a levar adiante o mesmo fogo que animou as primeiras Irmãs.

O caminho, porém, exige discernimento diante das condições atuais do Instituto. Ir. M. Joanna fala sobre a necessidade de avaliar realisticamente a situação em cada país, considerando a redução do número de membros e os recursos disponíveis. Algumas responsabilidades precisarão ser revistas ou compartilhadas, enquanto a comunidade busca recuperar forças para se dedicar às suas tarefas, em e para Schoenstatt. “Em todo o mundo, queremos dar passos estratégicos que garantam um bom futuro à nossa comunidade”, afirma.
Nesse processo, a colaboração aparece como uma dimensão importante para o futuro. “O futuro só existe na união – isso vale tanto para o âmbito interno de nossa comunidade familiar quanto para Schoenstatt como um todo”, afirma Ir. M. Joanna. A cooperação dentro do Movimento e com as Igrejas locais está entre os caminhos que ela aponta para o novo século.
O lema escolhido para o jubileu, “Maria, luz da nossa esperança!”, reúne essa perspectiva de continuidade e renovação. Para Ir. M. Joanna, viver como Irmã de Maria hoje significa ajudar as pessoas a experimentar Deus, crescer interiormente e encontrar orientação e esperança. “As pessoas experimentam essa ação específica de Maria no encontro com nossos Santuários. Trata-se, acima de tudo, da profunda experiência de ser pessoalmente acolhido e amado por Deus.” A missão também passa por ajudar na formação de personalidades e comunidades livres e cristãs e por “preparar o caminho para Cristo em nossa cultura, por meio de nossos projetos e de nosso testemunho”.

Depois de um século, a chama não é apenas memória de um início. Ela representa uma missão que continua a ser recebida, discernida e vivida por novas gerações, em diferentes países e culturas. Como resume Ir. M. Joanna: “Assim, queremos levar a obra do nosso fundador, com profunda gratidão a ele, para um novo século”.
*Entrevista com Ir. M. Joanna Buckley realizada por Heinrich Brehm, da assessoria de imprensa do Movimento de Schoenstatt na Alemanha. Publicada originalmente em schoenstatt.de. Disponível em português em schoenstatt.com.