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A maternidade pensada por Deus
Suellen Figueiredo – Em tempos de redes sociais, não é raro ver comportamentos que buscam suprir carências afetivas por meio de experiências imaginadas. Um dos fenômenos que tem ganhado visibilidade é o de mulheres adultas que se autodenominam “mães de bebês reborns”, isto é, bonecos hiper-realistas sendo tratados como filhos reais. Elas simulam rotinas maternas, compartilham esses momentos em perfis digitais e chegam a organizar eventos presenciais voltados a esse universo.
O que essa realidade nos revela? Mais do que um gosto pessoal, talvez haja nisso um anseio profundo por sentido, acolhimento, cuidado e amor. Mas, é também um alerta: o risco de desconectar-se da verdadeira vocação da maternidade, tal como pensada por Deus, e reduzir essa missão às aparências.
A maternidade como vocação e participação no amor de Deus
A Igreja sempre reconheceu na maternidade uma das formas mais nobres de participação da mulher no amor criador de Deus. Como lembra São João Paulo II, “Toda mulher é chamada, mesmo sem ser mãe biológica, a viver a maternidade espiritual, formando e doando vida com amor”[1].
Nessa mesma linha, o Pe. José Kentenich, fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt, afirma que “ser mãe significa, dar amor, despertar amor e transferir amor”.[2] Para ele, a maternidade é muito mais que um instinto natural. Trata-se de uma missão espiritual de formar personalidades, moldar corações e transformar culturas.
Em uma de suas meditações, ele reflete sobre a profunda sabedoria contida na lei da existência: “O filho iniciou sua existência pela cooperação criadora dos pais; não apenas pela onipotência de Deus, mas sim, pela participação dos pais no poder criador de Deus.”[3] Explica que pai e mãe oferecem o melhor de sua substância (biológica, espiritual, caracterológica e religiosa) para que um novo ser venha à vida. Para ele, essa forma de gerar, profundamente humana e divina ao mesmo tempo, é uma das mais belas expressões da sabedoria de Deus.
Na pedagogia de Schoenstatt, educar é uma expressão de amor. Por isso, a maternidade é entendida como um caminho de santidade, que exige entrega, paciência, sabedoria e renúncia. Nada substitui o valor de uma presença viva, de um cuidado concreto, de um amor que se doa e se faz cotidiano.
Realidade X ilusionismo virtual
O crescente número de perfis digitais dedicados a bonecos reborns mostra uma busca de afetos que não deve ser ignorada, mas, precisa ser solucionada de modo real. A maternidade imaginada ou imitada de modo não natural pode transformar a maternidade em um enredo idealizado, domesticado, sob controle, pois não há exigência real, sacrifício, imprevisibilidade nem fecundidade verdadeira.
Em Schoenstatt, aprendemos a cultivar vínculos orgânicos: A vida educa e a realidade forma. Quando fugimos do real e nos refugiamos no simulado, empobrecemos a experiência humana de afetos. É preciso recuperar a coragem de viver a maternidade como ela é: cheia de desafios, mas também de graças; marcada por noites sem sono, mas também por sorrisos autênticos e transformações profundas.
Expressão de afeto ou fuga da realidade?
A psicoterapeuta Lanna Ribeiro comenta: “Ter uma boneca bebê reborn não é, por si só, um problema. Mas, se a mulher começa a se isolar socialmente para ficar com o boneco, perder o senso de realidade ou acreditar que o ‘bebê’ é real, evitar enfrentar dores reais por meio desse cuidado simbólico. Então, a boneca bebê reborn passa a sinalizar que há um sofrimento psíquico em quem a possui.
É natural da mulher querer cuidar, acolher, maternar. Mas quando esse cuidado se volta para algo que não existe, é preciso perguntar: Do que exatamente estamos fugindo?
Da falta de sentido nos dias? Da dor de uma perda? Da exaustão de cuidar de filhos reais?
O ‘bebê reborn’ é silencioso, não chora, não adoece, não contesta. É o bebê idealizado que não nos custa. Santa Teresa D’Ávila nos convida a refletir sobre o valor do esforço: ‘É justo que muito custe o que muito vale’. Trocar a vida real por uma fantasia controlada pode nos afastar justamente daquilo que dá sentido à existência: Os vínculos verdadeiros, mesmo que imperfeitos.
Como psicoterapeuta e mulher, convido à reflexão: Que dor está por trás da fantasia das ‘mães’ da boneca? Que cuidado está faltando para que tantas de nós estejam preferindo cuidar de um bebê reborn do que cuidar de pessoas?
Aceitar a realidade como ela é, é o primeiro passo para encontrar a alegria. Ser mulher, ser mãe são dons de Deus, é Ele quem nos confia e nos capacita nessa missão materna no mundo”.

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Maria: modelo da maternidade plena
A Mãe de Deus nos oferece o modelo mais completo de maternidade. Com simplicidade, firmeza e docilidade, Maria gerou, educou e acompanhou Jesus até a cruz. Sua maternidade foi vivida longe dos olhares do mundo, na entrega silenciosa e na fidelidade cotidiana da vida de um lar.
Para Pe. Kentenich, Maria é o ideal perfeito da mulher e da mãe, aquela que permanece junto aos filhos em todos os momentos. Ele nos convida a olhar para o coração materno de Maria como inspiração para construir, também em nós, um coração materno que educa, acolhe e abençoa. Um coração que se torna refúgio, escola de virtudes e ponte para Deus.
Inspirados por ela, somos chamados a redescobrir a beleza da maternidade como dom e como missão. Mesmo quem não é mãe biológica é convidado a viver o espírito materno: formar, acompanhar, cuidar, gerar vida nova.
Diante das ilusões virtuais, a vocação à maternidade segue sendo um dos maiores testemunhos de amor real. Que Maria nos ensine a assumir essa missão com autenticidade, responsabilidade e fé.
[1] São João Paulo II, Mulieris Dignitatem, 18
[2] Pe. José Kentenich – Família serviço à vida, volume II
[3] Pe. José Kentenich – Família serviço à vida, volume II




