
Ana Paula Paiva – Não há muitos relatos bíblicos a respeito da discípula de Jesus que hoje celebramos, mas quando pensamos em Maria Madalena é comum que nos venha à mente seus pecados e sua conversão a partir do encontro com Jesus, que lhe expulsa 7 demônios e transforma profundamente sua vida (Mc 16, 9).
A partir do encontro com Cristo – que converte, redime os pecados e dá nova vida, Maria Madalena passa a seguir Aquele que – não obstante lhe tenha exigido uma mudança radical de vida – não lhe condenou. Só havia amor por parte de Jesus, ainda que pairasse o pecado e o julgamento alheio. Maria Madalena se permite transformar e entrega toda sua vida, caminhando com Jesus e testemunhando o grande amor de Deus pela humanidade.
Esteve presente nos grandiosos milagres de Cristo, conviveu com os Santos Apóstolos e com nossa querida Mãe de Deus. Adentrou com Jesus a Jerusalém no Domingo de Ramos e estava ao lado de Maria durante a crucificação de Seu Filho, assim como as demais Santas Mulheres de Jerusalém. O quão impactante lhe deve ter sido reconhecer que Jesus carregava Sua cruz em nome de suas chagas e pecados, assim como o fez por cada um de nós.
Maria Madalena é um grande exemplo de que nossos pecados, quando entregues à Cristo, não nos definem ou limitam. Ao contrário: foi da profunda experiência de sofrimento (seus demônios, a que foi liberta) que brotou a consciência concreta de sua filiação.
Nesse mesmo sentido, São Gregório Magno, grande Papa do século VI, nos lembra que:
Nós temos que pensar na força tão grande do amor que inflamava a alma daquela mulher, que não se afastava do sepulcro do Senhor, ainda quando os Apóstolos dele já voltaram. Buscava a quem não encontrava. Chorava procurando-o, e consumindo-se no fogo do seu amor, ardia no desejo de encontrar aquele que imaginava roubado. E assim aconteceu que só ela o viu, a única que ficou procurando…Começou a buscar e não o encontrou. Perseverou no seu querer e achou-o, de tal forma cresceram seu desejos e tanto se dilataram, que acabaram se realizando ((Hom.25,1-2.4-5:PL 76,1189-1193)(Séc.VI).
Ressignificar o passado
Santa Maria Madalena nos ensina que nosso passado, embora inafastável – posto que nos constitui como pessoas e é parte importante de nós – pode ser ressignificado pelo amor de Deus. Ela, de perturbada por demônios, passou a grande discípula que, sem medo, decidiu honrar a Jesus de todas as maneiras possíveis, mesmo com sua morte. Importante lembrar que a crucificação aconteceu às vésperas da Páscoa dos judeus, por isso o recolhimento do corpo de Cristo foi feito às pressas, a pedido dos romanos, para que o Sabah fosse preservado. Mesmo diante de tanto sofrimento e saudade, Maria Madalena busca incessantemente a seu mestre, para lhe dar o devido carinho e homenagem.
Não desiste ante as dificuldades, mas permanece fiel à sua vontade inquebrantável de O encontrar. E no domingo corre apressadamente para anunciar que Jesus não se encontra no sepulcro. Seu grande amor humano não lhe permite perceber a ressurreição imediatamente e seu instinto de proteção e amor a faz perguntar ao próprio Jesus, que supunha ser um jardineiro, onde está o seu Senhor, para que possa busca-lo. Jesus exclama “Maria!” e ela finalmente o enxerga em sua glória vitória.
Foi ela – que nunca desistiu – que coube a belíssima missão de anunciar aos Apóstolos, amedrontados e silenciosos, que Jesus, seu libertador, seu mestre e Senhor, havia vencido a morte. Não nos definimos pelo peso dos nossos pecados ou de nosso passado. A marca do cristão é, em realidade, a persistência e essa santa teimosia que fez com que Maria Madalena insistentemente procurasse a Jesus, sem desistir ou temer.
Um exemplo para nós
Madalena torna-se corajosa e missionária porque encontrou em Cristo, o amor misericordioso do Pai que a acolhe e a ama de verdade. É isso que Pe. Kentenich nos ensina: “Nós somos muito frágeis. Mesmo que quiséssemos aspirar aos mais altos ideais, sucumbimos do dia para a noite. Por isso, se não estivermos convencidos de que o bom Deus é “per eminentiam” o Pai misericordioso e amoroso, isto é, que Ele nos quer bem, que Ele nos ama como a pupila de seus olhos, nos protege porque é nosso Pai… não teremos uma saída.
Hoje em dia nós quase estamos obrigados a levar demais em consideração as fraquezas humanas em geral, as rupturas de nossa natureza marcada pelo pecado original. Daí a imagem do Pai do céu (como) o pai misericordioso que acolhe com amor o filho pródigo, porque é pai e não porque o filho tenha merecido.”1
Ele ensina que o caminho para aceitarmos o amor do Pai e, com isso, reconhecer nossos pecados, é a Aliança de Amor com a Mãe, Rainha e Vencedora Três Vezes, Admirável de Schoenstatt, pois Ela, que gerou e educou Jesus, o Filho do Pai, é Mãe também de seu corpo místico, ou seja, de cada um de nós, e nos conduz ao Pai, assim como fez com Jesus. Madalena testemunho isso, bem como os Apóstolos, que foram acolhidos pela misericórdia de Maria, após terem traído e abandonado Jesus, e reunidos em oração, no Cenáculo. Acolhidos por ela, abriram o coração para o atuar do Espírito Santo e partiram para a anunciar e testemunhar corajosamente o Cristo vivo, imagem viva do Pai e caminho para Ele.
Na Aliança de Amor, podemos imitar as virtudes de Santa Madalena, quando, em nossa vida, procuramos encontrar a Cristo e buscá-lo incessantemente, O colocando como centro de nossas vidas em cada circunstância, pois Ele é Filho do Pai, que nos ensina a crer em sua misericórdia, como Santa Maria Madalena, que nos dá lindas lições de esperança. Ela nos ajude a ser instrumentos e anunciar, com alegria e dedicação, a mensagem de amor e perdão que brota de Jesus Ressuscitado.
1. KENTENICH, Pe. José. A Nova Imagem do Pai, 18 de junho e 1966




