
O ensinamento da Igreja sobre a nossa relação com os falecidos é muito clara: Os que partiram desta vida permanecem unidos conosco e podem nos ajudar por sua intercessão. Nós também podemos ajudar os que ainda se encontram no purgatório, por meio de nossas orações.
Pe. José Kentenich ensinou-nos e viver isso, com tanta naturalidade, e ensinava a sermos muito gratos aos que viveram a Aliança de Amor, antes de nós. Por exemplo, ele disse, em 11.08.1935, ao celebrar seu jubileu de 25 anos da ordenação sacerdotal:
Acaso não entregaram os nossos congregados heróis e as nossas irmãs defuntas as suas vidas pela Obra comum, com uma fidelidade ilimitada e abnegada? Acaso não regaram muitos deles a terra de Schoenstatt com o seu sangue? Muitos colhem agora o fruto das suas vidas santas e da oblação generosa das suas mortes.
Os defuntos continuam a atuar através do seu exemplo heroico. Continuam a atuar porque personificam, por vezes de maneira heróica, tudo o que hoje constitui um grande ideal no firmamento da nossa vida.
Esperamos e reconhecemos com grande gratidão que eles continuem a atuar pela sua intercessão, rezando por nós juntamente com a Mãe Três Vezes Admirável de Schoenstatt. Sim; que ressoem os cânticos de agradecimento com mais força do que nunca…. quero juntar toda a gratidão que elevaram hoje ao céu e orientá-la para a eternidade, para aqueles que morreram por nós e continuam a viver para nós na eternidade.
A Igreja nos ensina
Um texto encontrado no cânone católico da Bíblia atesta a prática de rezar pelos mortos já no judaísmo pós-exílico, que era considerado um ato “de grande retidão e nobreza […] piedoso e santo” ( 2 Mac 12:43, 46). Essa prática continuou posteriormente na Igreja Cristã. É importante esclarecer que rezar pelos mortos é muito diferente da evocação dos mortos, prática explicitamente condenada na Bíblia, como fica evidente no conhecido episódio da evocação do espírito de Samuel por Saul (cf. 1 Sam 28:3-25), proibição confirmada pelos Apóstolos juntamente com o uso de todos os tipos de artes mágicas (cf. At 13:6-12; 16:16-18; 19:11-20).
“Nenhum de nós vive para si mesmo, e nenhum de nós morre para si mesmo” ( Rm 14,7), diz São Paulo. Nenhum de nós foi criado como indivíduo isolado, sem vínculos com os outros, mas pelo simples fato de nascer, nos encontramos já inseridos em uma rede de relações que contribuem para a formação de nossa própria identidade. Além disso, a salvação também tem uma dimensão comunitária. A vida eterna é, de fato, uma relação com Deus (cf. Jo 17,3), uma relação que tem o caráter de diálogo, pois Ele criou os seres humanos para chamá-los à comunhão com Ele (cf. Rm 8,29-30).
Este diálogo, no entanto, não é um “face a face” isolado entre duas individualidades; o próprio Deus é uma comunhão de amor. Ele se realiza no “nós” da Igreja: através do Batismo, o cristão é inserido na grande “família” de Deus, que constitui um vínculo de amor que nem mesmo a morte pode destruir. Como também recorda o Concílio Vaticano II, todos aqueles «que pertencem a Cristo pelo seu Espírito constituem uma só Igreja e estão unidos uns aos outros n’Ele. A união daqueles que ainda estão a caminho com os seus irmãos e irmãs que adormeceram na paz de Cristo não é de modo algum interrompida, mas antes, segundo a fé constante da Igreja, é fortalecida pela partilha dos bens espirituais» (Lumen Gentium, n. 49). Isto cria uma relação misteriosa mas real, fundada no amor de Deus manifestado no mistério pascal de Cristo, entre aqueles que estão «além» e nós que estamos na terra.
A oração pelos defuntos
Quando falamos das “almas dos falecidos”, estamos nos referindo às mesmas pessoas que conhecemos em vida e que sabemos estarem vivas em Deus, apesar do fim de sua existência terrena… No entanto, a oração pelas almas dos defuntos tem uma configuração diferente da invocação dos santos. Enquanto esta última pode ser uma oração dirigida “a” uma alma abençoada, as orações de sufrágio são, por outro lado, “pela” alma de um defunto que ainda não gozou da visão beatífica. Aqui nos deparamos com outro mistério da nossa fé, o do purgatório…
A fé no Purgatório testemunha o fato de que o mal não tem a última palavra. Se construirmos nossas vidas sobre o fundamento de Cristo (cf. 1 Cor 3,12), mesmo que não sejamos perfeitos, não temos nada a temer, porque Ele é maior que nossos corações, apesar do que Ele possa nos censurar (cf. 1 Jo 3,20). Isso certamente exige que não subestimemos a realidade do mal enquanto estamos vivos, mas também nos dá uma firme esperança de que as pessoas que amamos e que cruzaram o limiar da morte estão nas mãos de Deus (cf. Sb 3,1).
Sempre vinculados
Neste contexto, podemos compreender a piedade pelos defuntos, que, como se sabe, faz parte do que a tradição chamou de obras espirituais de misericórdia, em particular a oração (cf. Catecismo da Igreja Católica , n. 1032; Tb 1, 17-18)… A oração pelos defuntos mantém vivo o vínculo com as pessoas que compartilharam suas vidas conosco…
Obviamente, entre todas essas práticas, devemos levar em conta a oferta da Eucaristia, “remédio da imortalidade”, por meio da qual todos nós, vivos e mortos, recebemos “a garantia de participar da ressurreição de Cristo” [5] . Por isso, “a Igreja oferece pelos defuntos o Sacrifício Eucarístico da Páscoa de Cristo, para que, pela comunicação entre todos os membros de Cristo, o que obtém auxílio espiritual para alguns possa trazer a consolação da esperança para outros” ( Instrução Geral do Missal Romano , n. 379).
Além disso, a fé e a tradição confirmam a nossa convicção de que esta relação espiritual é recíproca, no sentido de que não só rezamos pelos defuntos, mas eles (os santos, os mártires) também rezam por nós, oferecendo assim uma verdadeira intercessão pelo mundo (cf. 2 Mac 15, 12-14; Ap 6, 9-10), que está unida à dos outros seres celestiais (cf. Zc 1, 12).
Esse texto é uma seleção de várias fontes, infelizmente não anotadas. É também apenas um início de reflexão, que merece e precisa ser aprofundada.
Ir. M. Nilza P. da Silva




