
I
Padre Nicolás Schwizer – Um episódio muito conhecido do Evangelho é o da mulher adúltera. Mais uma vez, os estudiosos da lei e fariseus quiseram colocar Jesus em umaarmadilha. Ele havia dito: “Não creiam que eu vim para abolir a lei”. Portanto, segundo a lei, a mulher surpreendida em adultério deve ser condenada. Porém, se a condenasse, perderia sua fama de ‘misericordioso’ e de ‘amigo dos pecadores’, fama que havia alcançado entre o povo.
Por outro lado, se deixar livre a mulher, demonstrará que ignora a lei; então, poderiam chamá-lo de herege. Aparentemente, Jesus não se preocupa com a armadilha que lhe prepararam com tanta astúcia. “Inclinando-se, escrevia com o dedo na areia”.
Contudo, eles insistem, porque queriam, a todo custo, que Jesus respondesse. Por isso, Jesus endireitou-se e lhes disse: Sigam adiante, condenem a mulher, apedrejem a mulher,
segundo a lei. Porém, aquele “que não cometeu nenhum pecado atire a primeira pedra”. Então, “saíram um a um, a começar pelos mais velhos, até os últimos”. Desta vez, a armadilha tinha sido para eles mesmos. E, assim, o tribunal se esvazia. Fica apenas Jesus, o inocente, o único que tem direito de atirar a pedra.
A seguir, Jesus diz à mulher: “Eu também não te condeno”. Não te condeno porque eu, dentro em pouco, serei condenado em teu lugar e pagarei pelo teu pecado. Parece que a inocência conhece uma só justiça: a de sofrer pelos culpados. Jesus diz ainda: “Vai-te e não peques mais” – e ela não pecará mais. Como terá disposição para pecar de novo? Sente-se curada para sempre por aquele olhar que a havia salvado de todos. Perseguida, invadida pela lembrança de uma bondade, de um afeto tão terno: já não precisará encher sua vida de pecados. Seu coração está, para sempre, pleno de gratidão, de amor, de alegría.
Esse episódio deveria ser suficiente para fechar a boca de um cristão para toda palavra de condenação a um irmão e para eliminar todo gesto de castigo. Entretanto, não é bem assim. O episódio não conseguiu fazer desaparecer uma das profissões mais antigas do mundo: a confissão dos pecados alheios. Mais que profissão, é, talvez, um jogo de sociedade, inclusive de uma considerada cristã. Quem de nós não agiu assim, em algum momento?
A única diferença com os estudiosos e fariseus do Evangelho é que somos menos violentos na execução. Substituímos as pedras pelo barro. As pedras machucam; o barro não machuca, porém suja, mancha, salpica.
Para condenar os próximos, para acusá-los e caluniá-los, é preciso ser cego. “Por que você repara no cisco que está no olho de seu irmão, mas não reparas na trave que está em seu olho?
Hipócrita! Tira primeiro a trave de seu olho e, então, você verá claramente para tirar o cisco do olho de seu irmão”. (Mt 7, 3-5)
Para condenar o próximo, é preciso sofrer uma irremediável amnésia: esquecer-se de que todos somos pecadores. A “vida dos pais do deserto” nos conta: “Um irmão tinha caído em pecado. O sacerdote ordenou-lhe que se afastasse da igreja. Então, o abade Besarión se levantou e saiu ao mesmo tempo, dizendo: também sou pecador”.
Quantas vezes nós, como o abade Besarión, teríamos que abandonar nossas reuniões de grupo, reuniões sociais, dizendo como ele: eu também sou pecador; também caí no erro que estamos condenando. O pior de tudo: com nossos juízos, nossas acusações, estamos preparando nossa própria condenação. “Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com a medida com que tiverdes medido, vós sereis medidos também”. (Mt 7,
1ss)
Meus julgamentos, minhas sentenças de condenação são um material precioso que Deus conserva zelosamente, registrando tudo. Algum dia, Ele me fará escutar; e, então, o condenado serei eu. E eu que busquei a condenação.




