
(Foto: Lucas Ferreira via Fotografia Religiosa)
Diácono Flávio Antônio – É preciso compreender que João Batista ministrava um batismo de arrependimento dos pecados. Não se tratava de um batismo sacramental, como o que Jesus instituiu e nós recebemos na pia batismal. João Batista é “a voz que clama no deserto”, como tinha anunciado o profeta Isaías, há 700 anos, e proclamava “um batismo de arrependimento para a remissão dos pecados” (Lc 3,3).
O Batismo de Jesus Cristo é retratado nos quatro Evangelhos da Bíblia – cada um a partir de um ângulo. Em todos eles, porém, está clara a presença da Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. Cristo não precisava se batizar, mas assim escolheu, como uma das suas maneiras de mostrar o caminho da salvação à humanidade.
Jesus, quando tinha cerca de 30 anos, foi batizado por João Batista, nas águas do Rio Jordão, que é o principal rio da Palestina e tinha um sentido espiritual, baseado no Antigo Testamento. Foi atravessando o rio Jordão que os israelitas chegaram à Terra Prometida, depois de fugirem do Egito (Js 3, 14-17). O batismo de Cristo marca a sua “revelação” como enviado de Deus e, com efeito, nos introduz na verdadeira terra prometida, que é o Reino dos Céus.
São Tomás de Aquino diz que um objetivo do batismo de Jesus foi a purificação das águas. Citando Santo Ambrósio, que disse: “o Senhor foi batizado, não por querer purificar-se, mas para purificar as águas” e, desse modo, as águas tivessem “a virtude” de batizar. O mesmo argumento usa São João Crisóstomo (407), doutor da Igreja, de Constantinopla.
Sem dúvida, Jesus quis ser batizado também para nos mostrar a importância do sacramento do Batismo – como disse a Nicodemos: “Quem não renascer da água e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus”. (Jo 3, 5).
Durante o batismo de Cristo, o céu se abriu sobre ele, a fim de significar que, pelo batismo cristão, nos são abertas as portas do reino celestial, fechadas ao primeiro homem por causa do pecado. O Espírito Santo descesse sobre o Senhor, em forma de pomba, para significar que todo aquele que recebe o batismo de Cristo se converte em templo e sacrário do Espírito Santo, devendo, por isso mesmo, levar uma vida simples e pura como a de uma pomba.
Foi conveniente que no batismo de Cristo se ouvisse a voz do Pai, manifestando o seu agrado, uma vez que o batismo cristão se realiza pela invocação e o poder da Santíssima Trindade. No batismo de Cristo se manifestou todo o mistério trinitário: a voz do Pai, a presença do Filho e a descida do Espírito Santo, em forma de pomba. Vale a pena notar ainda que Deus Pai se manifestou pela voz, porque é próprio do Pai gerar o “Verbo”, que significa justamente “a Palavra”, de maneira que a própria voz emitida pelo Pai dá testemunho da filiação do Verbo.
A importância do batismo na vida de Jesus
Jesus foi batizado adulto, por uma “escolha” e não “necessidade”, e aquele momento revelou que Ele era o próprio Deus. A todos os Seus filhos, cabe seguir esse exemplo e receber o Sacramento que é a purificação da alma, o propósito e a rendição em favor de Seus ensinamentos. “O Batismo não somente purifica de todos os pecados, como faz também daquele que vai receber o sacramento uma nova criatura, um filho adotivo de Deus, que se tornou participante da natureza divina, membro de Cristo e co-herdeiro com Ele, templo do Espírito Santo” (CIC 1265).
O costume de batizar as crianças tem origem no Cristianismo da idade antiga. “Quando os adultos, abraçando a fé, queriam que também seus filhos participassem da comunidade e aprendessem, desde cedo, a conhecer e a amar Jesus Cristo. Mais tarde, a prática de batizar crianças se tornou geral”. É dever do pai e da mãe educar os filhos na fé, e o primeiro passo para isso é o Batismo. Para os cristãos, o sacramento do batismo é a porta de entrada para a vida em Cristo.
Enquanto o batismo de João era um rito de arrependimento, o batismo cristão é um novo nascimento pela água e pelo Espírito Santo. Como diz São Paulo, “no batismo, somos sepultados com Cristo na morte, para que também ressuscitemos com Ele para uma vida nova” (cf. Romanos 6,4). Assim como Jesus, ao sair das águas do Jordão, foi proclamado Filho Amado pelo Pai, no batismo cristão nos tornamos filhos e filhas de Deus, membros do Corpo de Cristo e templos do Espírito Santo.
Por que batizar bebês?
Por que a Igreja Católica recomenda batizar bebês, em vez de esperar que eles decidam por conta própria na vida adulta?
Na história da Igreja sempre houve o batizado de criança, para que ela seja, quanto antes ou o mais cedo possível, agregada ao novo povo de Deus, pela graça do sacramento batismal, para que faça parte da vida da Igreja, da Santíssima Trindade, como o filho adotivo, por meio de Deus Pai, na força do Espírito Santo. Embora a Igreja sempre tenha batizado crianças, logicamente nos primeiros tempos havia mais batizados de adultos, os chamados catecúmenos, porque eram convertidos do Judaísmo ou Paganismo ao Cristianismo.
A razão teológica pela qual a Igreja batiza crianças é que o Batismo é um renascer para vida nova de filhos de Deus, que acontece mesmo que a criança não tome conhecimento do fato. “Neste renascer da criança participante do Batismo, a graça trabalha em seu coração, como um princípio sobrenatural. Elas não podem professar a fé, mas são batizadas na fé da Igreja, com o testemunho dos pais e com os padrinhos”[1].
O Papa Francisco, fala sobre batizados: “O que significa revestir-se de Cristo? São Paulo recorda quais são as virtudes que os batizados devem cultivar: ‘escolhidos por Deus, santos e amados, devem revestir-se de sentimentos de ternura, de bondade, de humildade, de mansidão, de magnanimidade, suportando reciprocamente e perdoando uns aos outros, mas, sobretudo, devem revestir-se da caridade que os une de modo perfeito’”[2]. Enquanto se chama o batismo de segundo parto, nascimento do útero da Igreja, na Pia ou Bacia Batismal, o Papa Francisco o chama de “Segundo Aniversário.”
Por isso, a vida dos cristãos é constituída de três partos: no primeiro parto, nascemos do útero materno, proporcionando alegria a todos os familiares; no segundo parto, nascemos do útero da Igreja, por meio do sacramento do Batismo, mergulhados na Pia ou Bacia Batismal e, finalmente, no terceiro parto, partimos do útero da vida terrena à vida eterna. E quando esse parto acontecer, nosso nome ecoará na eternidade: nenhum segundo adiantado e muito menos atrasado. Será o grande encontro visível com Deus. Veremos Deus como Deus é e isso nos bastará. É sobre essa esperança que se debruça nossa fé, recebida como dom gratuito no dia de nosso batismo.




