Liberdade, consciência e responsabilidade à luz da Doutrina Social da Igreja, da Logoterapia e da pedagogia do Pe. José Kentenich.
Leia a Parte 1.
Ana Beatriz Manoel Suzan* – Um dos desafios das eleições é a expectativa de encontrar um candidato que represente integralmente nossos valores e seja capaz de solucionar todos os problemas do país.
Entretanto, nenhum candidato é perfeito, e nenhuma proposta política oferece garantias absolutas.
A tradição filosófica, particularmente a reflexão aristotélica sobre a prudência, nos ajuda a compreender que nossas decisões acontecem em circunstâncias concretas e exigem uma avaliação responsável das possibilidades disponíveis.
Por vezes, não estamos diante da escolha ideal, mas da necessidade de discernir, entre alternativas limitadas, aquilo que nossa consciência reconhece como o bem possível. Isso não significa justificar qualquer meio em nome de um resultado desejado. Significa reconhecer que a escolha moral exige considerar princípios, circunstâncias e consequências.
Na perspectiva frankliana, a consciência nos convoca a reconhecer o sentido e o valor que cada situação singular apresenta. Contudo, essa consciência precisa ser formada e permanecer aberta à verdade. Podemos realizar uma escolha de maneira honesta e responsável e, posteriormente, reconhecer que nos equivocamos. Essa possibilidade faz parte de nossa condição humana.
Por isso, não parece adequado estabelecer uma equivalência automática entre a escolha eleitoral de uma pessoa e sua integridade moral ou fidelidade cristã. Nossas escolhas possuem implicações éticas e devemos responder por elas, mas julgar a consciência do outro exclusivamente pelo candidato em quem vota seria desconsiderar a complexidade da pessoa humana.
A Doutrina Social da Igreja e a liberdade de consciência
A Doutrina Social da Igreja oferece princípios fundamentais para orientar nossa participação na sociedade: a dignidade da pessoa humana, o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade, a participação e a destinação universal dos bens. Esses princípios precisam ser considerados em sua integralidade, e não selecionados apenas quando confirmam nossas preferências políticas.
Defender a liberdade não deveria significar ignorar a responsabilidade social. Defender os mais vulneráveis não deveria significar desprezar a subsidiariedade. Defender a democracia exige também respeitar a Constituição, a separação dos poderes, a liberdade de expressão e a legítima participação política.
As orientações da CNBB, de 21 de outubro, nos convidam a exercer o voto de maneira livre, consciente e responsável, considerando a trajetória dos candidatos, suas propostas e seu compromisso com a dignidade humana e a democracia. A Igreja oferece princípios para o discernimento moral, mas isso não significa que a consciência cristã possa ser automaticamente identificada com determinado partido político. Nossa fé não nos dispensa da responsabilidade de estudar, refletir, discernir e assumir as consequências de nossas escolhas.
Schoenstatt: formar personalidades livres e construir vínculos
A pedagogia do Pe. José Kentenich nos convida à formação de personalidades livres, firmes e sacerdotais, capazes de desenvolver convicções interiormente assumidas e colocá-las a serviço de uma missão. Essa liberdade não pode ser confundida com ausência de vínculos ou de responsabilidade. Trata-se de uma liberdade que amadurece na formação da consciência, na autoeducação e na capacidade de assumir compromissos.
Schoenstatt não pretende formar pessoas que simplesmente reproduzam pensamentos, mas pessoas capazes de discernir e agir responsavelmente diante das diferentes circunstâncias da vida. Formar consciências não significa determinar previamente a escolha eleitoral de cada pessoa. Significa oferecer condições para que cada um desenvolva um discernimento iluminado pelos princípios cristãos e atento às exigências da realidade.
Nossa unidade, como Família de Schoenstatt, não deveria depender da uniformidade das escolhas partidárias, mas de uma vinculação muito mais profunda: Cristo, a Aliança de Amor com Maria e a missão que compartilhamos como Movimento. É justamente diante das diferenças que nossos vínculos são colocados à prova.
Que organismo de vínculos estamos construindo quando uma divergência política se torna suficiente para romper uma amizade? Como podemos anunciar a família como comunidade de amor se não conseguimos acolher o irmão que chegou a uma conclusão diferente da nossa?
O diálogo verdadeiro não exige ausência de convicções. Exige coragem para expressá-las e humildade para escutar. Dialogar não é renunciar à verdade, mas reconhecer que sua busca exige responsabilidade, respeito e abertura ao encontro com o outro. Também é importante distinguir a missão formativa e evangelizadora de Schoenstatt da liberdade de participação política de seus membros.
Como cidadãos, somos chamados a assumir responsabilidades na vida pública. Entretanto, a identificação partidária de cada pessoa não deve ser automaticamente confundida com a missão institucional do Movimento. Isso não significa neutralidade diante das injustiças, mas fidelidade a uma missão que ultrapassa qualquer eleição.
A eleição passa, os vínculos permanecem. Talvez uma das perguntas mais importantes para nós, enquanto Família de Schoenstatt, não seja apenas em quem seus membros votam, mas que tipo de pessoa estamos formando e que contribuição essa pessoa é capaz de oferecer à sociedade.
Estamos formando pessoas capazes de pensar livremente? De discernir com responsabilidade? De reconhecer a verdade mesmo quando ela contraria suas preferências? De assumir posições firmes sem perder a caridade? De permanecer vinculadas umas às outras mesmo diante das diferenças? Essas perguntas alcançam a essência da missão educativa de Schoenstatt.
Se desejamos transformar a sociedade a partir do Evangelho, precisamos começar pela formação da pessoa humana.
É a ordem do ser que deve iluminar a ordem do agir.
Ao final de uma eleição, haverá pessoas que comemoram e outras que sentem frustração ou preocupação. Entretanto, o país continuará sendo de todos.
A democracia não exige que todos pensemos da mesma maneira. Ela exige que aprendamos a construir uma convivência em que nossas diferenças não impeçam o reconhecimento da dignidade humana.
Para nós, cristãos e membros da Família de Schoenstatt, essa responsabilidade encontra uma motivação ainda mais profunda: Somos chamados a testemunhar que a verdade e a caridade não devem ser colocadas em oposição, mas devem caminhar juntas.
Talvez um dos maiores testemunhos cristãos que possamos oferecer seja justamente demonstrar que é possível discordar sem romper vínculos, defender princípios sem desumanizar o outro e participar da vida política sem perder de vista aquilo que realmente permanece.
Que nossa Mãe e Rainha, pela força da Aliança de Amor, nos ajude a formar personalidades livres, firmes e responsáveis, capazes de construir pontes onde há divisões e cultivar vínculos onde prevalecem os enfrentamentos.
Porque as eleições passam, os governos se sucedem, mas nossa missão de amar, educar, servir e construir vínculos permanece.
Referências
BENTO XVI. Caritas in Veritate. 2009.
FRANCISCO. Fratelli Tutti. 2020.
FRANKL, Viktor E. Em Busca de Sentido.
JOÃO PAULO II. Centesimus Annus. 1991.
LEÃO XIII. Rerum Novarum. 1891.
KENTENICH, José. Proposta de uma pedagogia para educadores católicos
*Ana Beatriz Manoel Suzan pertence a União de Famílias e é Psicoterapeuta na linha da Análise Existencial e Logoterapia Frankliana