
Foto: Márcia Kazumi
Conferência do Pe. José Kentenich à Família de Schoenstatt de Aschaffenburg/Alemanha – 28 de novembro de 1937:
Todos nós, cada um a seu modo, estamos predispostos às vivências do ano litúrgico com seus momentos altos e baixos. Aprofundando-nos nele, logo sentimos que nossos pensamentos e sentimentos, tudo o que queremos e almejamos encontra ressonância no ano litúrgico. Ora é tempo de alegria, ora de profunda tristeza ou de anseio imenso. No Advento a Igreja quer lembrar-nos de que a verdadeira santidade consiste em ter a coragem de recomeçar a cada dia de novo.
Se pesquisarmos a história da Família de Schoenstatt, encontraremos já no início, em 1919, as palavras: “Nesta situação de caos, elaboramos um programa que é a expressão de nosso empenho por uma solene conquista da vida interior”.
As vacilações de nosso interior
Não conheço comunidade alguma que tome tão radicalmente a sério sua aspiração neste sentido. Nós, como Família, permanecemos fiéis a este princípio e aspiramos com seriedade ao aprofundamento da vida interior, da vida com Deus, em Deus e para Deus. Mas isto não é fácil! Todos nós experimentamos muitas vezes as fortes vacilações de nossa vida interior. Pensemos, por exemplo, em nosso corpo: quantas tempestades tem ele de enfrentar! Quase poderíamos comparar com as variedades de clima do mês de abril. E se nosso corpo passa por tudo isto, quanto mais podemos falar das inúmeras disposições da alma. Hoje, por exemplo, estamos vibrando de entusiasmo. E amanhã?!… É isto que a Igreja quer recordar-nos no tempo do Advento. É como se nos quisesse dizer: todos os que aspiram seriamente no sentido religioso devem também ter a coragem de recomeçar a cada dia de novo. Precisamos adquirir conceitos claros em relação à vida interior.
Ter a coragem de recomeçar
Encontrando-se em seu leito de morte, disse São Francisco de Assis: “Deixem-nos, finalmente, começar!” Deveríamos nós também sintonizar nossa vida com este pensamento. Esta coragem de recomeçar inclui o profundo anseio por um fim sumamente elevado. E tão grande fim a Igreja o coloca de maneira brilhante perante os nossos olhos, nas próximas semanas, no tempo do Advento. Ele corre como as águas de um rio caudaloso, em direção ao Natal. Conheceis o que disseram os anjos aos pastores? “Encontrareis uma criança…” (Lc 2,12). Estas palavras nos apontam um grande fim, um grande objetivo para as próximas semanas: uma nova filiação!
Deus se fez homem, nascendo como criança.
E nós devemos tornar-nos divinizados pelo caminho do renascimento espiritual e não somente nas quatro semanas do Advento, mas até o fim de nossa vida. Jesus coloca diante de nós, como objetivo de vida: “Se não vos transformardes e não vos tornardes como as criancinhas…” (Mt 18,3). Que, então, exige Ele de nós? Um novo nascimento! […] Se, no Advento, Jesus exige que nos tornemos crianças no sentido do mistério do Natal, não significa que devemos tornar-nos infantis, criançolas diante das pessoas, mas que perante Deus sejamos verdadeiras crianças, semelhantes a Jesus no presépio…
Jesus é modelo de viver como filho
Vista no grau superior, filialidade é dedicação desinteressada de si mesmo, como Jesus no-la previveu. Toda a sua vida foi caracterizada pela atitude filial: o que agrada ao Pai, e não o que agrada a mim… A vontade do Pai é para o Filho a medida de todas as coisas (cf Jo 8, 29). Ao ouvirmos tais considerações acerbas, a palavra “filialidade” recebe novo colorido, perde o aspecto de moleza, de falta de vigor e penetra numa acerbidade vigorosa.
Quanto mais nos abrimos para Deus e as coisas divinas, tanto mais nos fechamos para o mundo. Somente quem é criança consegue estar no meio do mundo e viver desprendido do espírito mundano. Quem pode dedicar um amor profundo, o amor filial, por exemplo, em seu relacionamento com alguma pessoa, aos poucos vai dar-se conta que, embora vivendo todos os dias no mesmo local, não está vivendo naquele ambiente — sua alma vive no amor. Portanto, o cerne, a estrela que guia toda a nossa aspiração deveria ser: estar no mundo, mas não ser do mundo; servir ao mundo, porém, com o coração e os sentidos girar em torno de Deus Pai: “Se não vos tornardes como as crianças…” Que exige Jesus com estas palavras? Um renascimento! Tornar-se criança!
Foto: Armin Weigel
Dicas do Pe. Kentenich:
Pe. Kentenich dá algumas dicas para estar mais próximo de Deus, como um ser filial, neste Advento:
1º — Aprender a amar:
Aproveitar os exercícios ordinários de oração, como escola de amor. Depende do bom Deus se aprendemos a amar. E se amamos, somos capazes de vencer a situação do tempo. Certamente todos nós também queremos saber muito; mas, saber muito, para amar.
Que exercícios posso incluir no meu Horário Espiritual? Precisamos fazer exigências a nós mesmos! Não devemos somente incluir as orações comuns, de costume. Isto não basta. É preciso ir tão longe quanto possível. Porém, de maneira razoável, sensata! O mundo de hoje se afasta do bom Deus. Por isso é bom incluir no Horário Espiritual um breve tempo diário para cultivar a oração interior. As orações comuns não são suficientes para ninguém que vive no mundo.
2º — Dedicar tempo para Deus:
Em segundo lugar, devemos fixar tempos exclusivos para o bom Deus. Que tempos poderíamos reservar para isto? Em casa não viveis sozinhos, por isso precisais ser engenhosos para conseguir retirar-vos diariamente ao menos por cinco ou dez minutos para o cultivo da oração interior, para estar exclusivamente com o bom Deus. Senão, fazemos grandes palestras, entusiasmamo-nos por grandes ideias, mas o coração está muito pouco compenetrado do bom Deus. Fixar um tempo de oração aos domingos ou durante a semana! Quanto tempo o mundo, hoje, exige para si! O homem moderno está em contínua agitação, está sempre a caminho. E preciso que haja uma reação contrária. A luta contra Deus está no auge. Precisamos, pois, educar-nos para, com mais ardor, elevá-lo ao trono de nosso coração. Devemos dedicar tempo a Deus! Nós dois nos pertencemos mutuamente. Eu te pertenço e Tu podes fazer comigo o que quiseres.
3º — Proteger-se do espírito mundano:
O tempo atual assemelha-se a uma fábrica. Ali a fumaça é tanta que compenetra a roupa das pessoas. O mesmo acontece com a poluição que há no mundo. Ela penetra na alma. E minha missão de vida é ser um sinal, uma indicação a Deus! Se não nos esforçarmos para estar muitas vezes, também no correr do dia, em santa solidão com o bom Deus, podemos ouvir quantos sermões quisermos, mas eles não nos atingirão em profundidade.Vejamos uma imagem: com chuva, andamos de bicicleta, sem guarda-chuva, mas com capa de chuva. Ao retirarmos a capa, percebemos que nossa roupa permaneceu enxuta; a chuva não a atingiu. O mesmo acontece hoje em dia, com os sermões. Isto porque à palavra deve seguir a ação. Como posso aproveitar esses poucos minutos de solidão com Deus? Como escola para aprender a amar. É uma arte difícil de ser aplicada, mas precisamos tentar.
Passar cada instante do dia com Deus
Nos primeiros tempos do cristianismo, os cristãos viviam dispersos pelo mundo. Depois, muitos concluíram que era muito perigoso viver no mundo e sentiram a necessidade de formar ilhas de vida cristã. Assim surgiram as Comunidades das Ordens. Nós também pensamos de modo semelhante, só que não nos sentimos chamados à vida comunitária, mas procuramos manter relações uns com os outros. Procuramos formar ilhas, onde reina a atmosfera de Deus. E para consegui-lo esforçamo-nos por passar o nosso dia junto com o bom Deus.
Dar destaque aos primeiros e últimos minutos
Devemos dar especial importância ao primeiro e ao último minuto do dia. Antes de dormir, observar o grande silêncio. Guardar o silêncio exterior, para estar interiormente com Deus. Será que posso fazê-lo, embora não viva sozinho? No tempo atual isto poderá tornar-se muito difícil. Porém, uns minutos antes de adormecer, procuremos ocupar-nos um pouco de maneira afetiva e agradável, com pensamentos religiosos, por exemplo, sobre a filialidade. Por que é isto de tão grande importância? Quais são nossos primeiros pensamentos, ao acordar, e qual a sua importância? Um barril conserva o odor do primeiro líquido nele colocado. O mesmo vale também para mim. Quais são meus primeiros pensamentos, ao acordar? Geralmente os mesmos com os quais adormeci. Isto porque durante a noite o subconsciente continua a atuar na alma. Um pensamento saboreado com interesse, à noite, continua a atuar durante o sono e, pela manhã, ao acordar, é o primeiro que surge na consciência. Que devemos, então, fazer? Dar grande importância aos últimos e aos primeiros momentos do dia.
É costume na Família fazer o sinal da cruz, ao despertar. Porém, devo fazê-lo com alma. Coloco-me, assim, sob a proteção do Crucificado. Quem cultiva intensa vida interior, também tem oportunidade, aqui, de renovar sua consciência de batismo: sou cristão, sou batizado, sou filho do Pai Celestial! Depois, deveríamos recordar nosso Ideal Pessoal.
O que daremos ao Senhor?
É de extraordinária importância que introduzamos tais costumes na vida. Pergunto-me também: que farei hoje para trilhar o meu caminho neste sentido? Lanço um olhar ao dia e peço a Deus e à Mãe de Deus que me ajudem…
Aconselho que procuremos estar muitas vezes singelamente junto ao bom Deus, como o fazem os filhos do povo. Perguntai-vos a vós mesmos: quando é que minha alma se sente mais atraída a Deus? Não há, durante o dia, tempos nos quais minha alma sente grande fome de Deus? Responda cada um para si a esta pergunta. Dependendo de nossa profissão, o encontro com Deus poderá ser, por exemplo, através de passeios pelo campo, à tardinha, quando estamos cansados. O momento oportuno é diferente para cada pessoa…
Seria grande coisa se pudéssemos concluir, através disto, o quanto o bom Deus nos ama. E em resposta: “quero presentear-lhe minha vida”.
Texto do Pe. José Kentenich
Livro: O objetivo de vida do autêntico cristão
Publicado em: 9 de dez de 2021
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