
Imagem de Gerad Noble por Pixabay
Ana Paula Paiva* – Celebramos em agosto o mês das vocações e esta semana é dedicada a vocação matrimonial. Não é novidade que nosso Pai e Fundador, Pe. José Kentenich. compreende nosso chamado à santidade, a partir de nossa vocação pessoal e estado de vida. Realmente, e com muita alegria por ter Schoenstatt pulsando em nossos corações, somos chamados a aspirar a altos ideais, neste estado de vida. Ele mesmo nos diz:
“A santidade da vida diária não é a santidade de domingo, que se vive só no dia em que tocam os campanários da igreja e os fiéis vão à missa com seus melhores trajes. Não, é a santidade dos outros seis dias da semana, dos dias sem pompa e sem festa, dedicado ao trabalho comum e corrente. É então quando o santo da vida diária a sacraliza ao vivê-la santamente, imprimindo o selo da santidade em tudo o que faz.”1
E se é verdade que tudo o que nos acontece é um convite à santidade, a família – como célula indispensável e instituição mais importante da sociedade, também o é. Na família podemos ser quem realmente somos, amados e respeitados em toda a dignidade, sendo a base sólida em que se funda o casal para essa aspiração, Cristo.
O casal é uma unidade, quem mantém as diferenças
Quando nos casamos entregamos toda nossa vida à condução de Deus, que usa nosso cônjuge para caminhar conosco pela vida. E pelo casamento nos tornamos parte um do outro, com todo nosso corpo e toda a dimensão de nosso ser e coração. É nesse sentido que o texto bíblico deixa claro que de uma dualidade nasce uma unidade, que transcende a História e se plenifica a partir da entrega do próprio Cristo à sua Igreja, indivisível, sólida e disposta a sacrifícios por amor.
Em hipótese alguma, contudo, concebemos o matrimônio como o fim de nossa dimensão pessoal e personalidade mais íntima. O casamento é nossa expressão livre de entrega mútua, mas nossa intimidade segue preservada, com nossa alma única e absolutamente pessoal. E é por isso que nosso pai e fundador, ao tratar da piedade matrimonial enraizada na dignidade, nos lembra que:
“Essa concepção pressupõe o encontro conjugal dos esposos como encontro de personalidades e o ato conjugal como um ato de perfeição cristã”.2
Sem anular, mas, complementando um ao outro
Ou seja, não deixamos de ser quem somos quando nos casamos. Não somos “apagados” em nossa personalidade, gostos pessoais ou características – como as heresias modernas gostam de insistir, especialmente os coletivismos atuais (nos dizeres de nosso fundador), mas sim complementados um pelo outro, sendo o casamento (e o próprio ato conjugal) a via pensada por Deus para que alcancemos a santidade por meio da entrega mútua, consciência de missão, vivência das virtudes no lar que nos aproximam um do outro e educação dos filhos, que Deus nos permitir, na fé e no amor de Deus.
A preservação da personalidade de cada um é ponto chave da própria aplicação de nossa espiritualidade schoenstattiana para a vida conjugal. Somos um – formados por dois filhos de Deus que se unem no amor, no cuidado, na dedicação e na profunda liberdade. O casamento não é o fim de nossas potências individuais, e ainda que consideremos que o amor assemelha e nos vai tornando um pouco parecidos com nosso cônjuge, a medida em que o casal passa a exercitar atos de amor que vão se constituindo como características da família como um todo, pessoalmente preservamos profunda liberdade, inclusive para moldar o que precisa ser moldado por amor.
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Matrimônio: Uma escola de amor e santidade
Há uma história, contada por nosso pai fundador no período em que ministrava palestras para casais em Milwalkee/EUA, que sempre me encantou. Quando um grande esposo e pai de família faleceu (Frederico Ozanam, era seu nome), muitos sacerdotes e religiosos participaram das cerimônias fúnebres e os comentários gerais giravam em torno da vitalidade de sua vida e altos ideais que inspiraram a muitos. Para um deles, contudo, faltou-lhe algo – “infelizmente era casado”. Ali também havia um Bispo (Pecci, que depois ficou conhecido como Papa Leão XIII), que sabiamente disse, pondo fim às controvérsias e nos lembrando da beleza da vocação matrimonial: “Você é por acaso da opinião de que Nosso Senhor criou seis sacramentos e uma armadilha?”3 Nosso fundador, com seu típico senso de humor e ironia, nos lembra que nosso chamado é real e fantástico aos olhos de Deus e, muito à frente de seu tempo, insere o leigo na chamada universal à santidade.
A espiritualidade schoenstattiana aplicada ao casamento é um impulso forte, concreto e visível de como podemos buscar a altos ideais a partir de nosso estado de vida. O matrimônio é uma belíssima escola de amor e a na família podemos buscar viver como uma Sagrada Família de Nazaré atualizada aos nossos tempos, educando com Maria e por meio de nossa Aliança de Amor, a nós próprios e a nossos filhos. Que São José e Nossa Senhora nos ajudem a formar famílias a partir de Cristo, e que Schoenstatt nos inspire a fazer de nossos lares um lindo jardim do amor de Deus, com raízes fortes e entregues.
Referências:
1. KENTENICH, Pe. José. Santidad agora¡, p. 32
2. KENTENICH, Pe. José. Segundas feiras ao anoitecer, volume 20, tomo 1, p. 13
3. Ibidem, p. 23
* Ana Paula e seu esposo Guilherme pertencem à Liga de Famílias de Schoenstatt, em Curitiba/PR




