
Imagem criada pela IA
Ir. M. Nilza P. da Silva – A cada final de ano, a Universidade de Oxford, nos EUA, mediante uma pesquisa, elegem a Palavra do Ano, ou seja aquela palavra que mais define o ano ou que mais influenciou o comportamento das pessoas no decorrer do ano que finda. Neste ano de 2025 a palavra que define os comportamentos nas Redes Sociais é a expressão “Rage bait”, isto é, provocar a raiva.1 Pe. Arnaldo Rodrigues* escreveu um texto sobre isso e coloco abaixo, com alguns complementos meus.
Rage bait é uma estratégia de conteúdo muito comum nas redes sociais, na qual alguém publica algo a fim de provocar raiva, indignação ou irritação — de propósito — para gerar o engajamento rápido. Isto é, para que a pessoa que vê a mensagem, em texto, áudio ou vídeo, fique indignada, com raiva, e reaja sem refletir, quer seja com comentários, repostando-a ou enviando para outros. Trata-se de lançar a isca da indignação, da polarização e da intolerância para provocar uma enorme interação. É impressionante pensar que estilos de relação sustentados na ira tenham como ponto de partida a raiva pura e simples.
Por que devo odiar? Por que devo estimular a raiva? Parece absurdo, mas esse novo estilo de interação — baseado na raiva e na polarização — tem criado uma nova forma de engajamento. Porém, vale tudo no que publicamos? É assim que queremos construir um novo modo de nos relacionarmos, criar vínculos?
Como funciona a rage bait? Você já caiu nessa isca?
A pessoa posta algo absurdo, polêmico, ofensivo ou provocativo. Esse tipo de postagem desperta raiva ou indignação, levando as pessoas a comentar, xingar, compartilhar e dizer: “olha isso!” “Isso é um absurdo!”. Tal modo de proceder pode ter a intenção de mostrar ao demais que não se concorda com o o conteúdo publicado ou com a pessoa a quem o conteúdo se refere, no entanto, ao comentar, xingar, ou compartilhar o usuário acaba alimentando a circulação do próprio conteúdo que condena. O objetivo de quem criou é justamente fazer você morder a isca e reagir emocionalmente. A raiva se torna combustível para o algoritmo e, consequentemente, gera engajamento e lucro para a pessoa ou o grupo que criou a estratégia. Você não foi livre em sua decisão e ainda foi usado para os interesses de outros.
Diante disso, podemos nos perguntar: por que isso funciona tão bem?
O fenômeno do rage bait se tornou comum porque a lógica das plataformas de redes sociais valoriza interações fortes – e a raiva é uma das emoções que mais acelera a circulação de conteúdo. A lógica algorítmica é simples: se está rendendo comentários e compartilhamentos, deve ser interessante. Mas, os algoritmos não avaliam se o conteúdo é bom ou destrutivo. A raiva acelera respostas, impulsiona compartilhamentos e cria um ciclo de retroalimentação. Na prática, o conteúdo tóxico passa a ser premiado: quanto mais provoca raiva e indignação, tanto mais aparece. Isso favorece a polarização (grupos opositores que se odeiam), as fake news, a cultura do cancelamento e dinâmicas agressivas de debates. Lembre-se: quem se beneficia é quem manipula as suas emoções e não quem busca e diz a verdade.
Do ponto de vista psicológico, o rage bait explora o mecanismo do negativity bias, segundo o qual o cérebro dá mais atenção ao negativo do que ao positivo. E do ponto de vista comunicacional, reforça uma dinâmica performativa: as pessoas competem para ver quem reage mais rápido e com mais indignação. O debate se torna um espetáculo emocional, em vez de fazer refletir e colaborar para a formação de opiniões livres.
Quando se trata de contextos de Igreja e de pastoral, isso é especialmente perigoso, porque transforma o diálogo em confronto, a evangelização em disputa e a verdade em arma retórica.
E como responder a isso?
Antes de tudo, reconhecer como é esse mecanismo e não reagir impulsivamente, nem comentar ou compartilhar quando se está com as emoções afloradas. Sempre lembrar que “a indignação não é discernimento”. O Papa Francisco afirmou que a melhor forma de combater as tecnologias desonestas é incentivar o pensamento crítico. Precisamos educar para uma cultura da serenidade, da análise e da verificação. Cada curtida ou comentário premia o conteúdo — até quando o criticamos de modo negativo. É essencial cultivar um olhar atento ao impacto emocional das redes, evitando cair na lógica do “engajar a qualquer custo”. Não podemos ceder à cultura da performance, que tantas vezes pode desfigurar o sentido de nossa presença nas redes.
Começa comigo e com você!
Em seguida, devemos recordar quem somos e como deve ser a nossa comunicação. Se o rage bait se alimenta de ódio, a comunicação cristã se alimenta de verdade, diálogo, misericórdia e responsabilidade. A paz, também nos ambiente digital, deve começar “em cada um de nós: no modo como olhamos os outros, ouvimos os outros, falamos dos outros. Neste sentido, o modo como comunicamos é de fundamental importância: devemos dizer “não” à guerra das palavras e das imagens, devemos rejeitar o paradigma da guerra” (Papa Leão XIV).
A fé, o discernimento e a empatia nos convidam a quebrar o ciclo da provocação, oferecendo uma presença diferente nas redes: uma presença que escuta e constrói pontes. Não se trata de ingenuidade, mas de compromisso com uma cultura digital mais humana e menos reativa, na qual a palavra — mesmo no ambiente online — continue sendo instrumento de vida, e não de manipulação. Nossa comunicação deve ser proativa e positiva, indo ao encontro do outro, para que haja uma verdadeira identificação com um testemunho coerente também no ambiente digital.
“Desarmemos a comunicação de todo preconceito, rancor, fanatismo e ódio; purifiquemo-la da agressividade. Não precisamos de uma comunicação estrondosa e muscular, mas de uma comunicação capaz de ouvir, de acolher a voz dos frágeis que não têm voz. Desarmemos as palavras e ajudaremos a desarmar a Terra. Uma comunicação desarmada e desarmante permite-nos partilhar uma visão diferente do mundo e agir de modo coerente com a nossa dignidade humana.” (Papa Leão XIV)
Criar vínculos e não destrui-los
A Mãe de Deus precisa de nós como instrumentos, na Aliança de Amor para encerrar essa rage bait e transformá-lo em colaboração para que surjam personalidades livres, que ajudam a edificar a Cultura da Aliança. O novo leva “Em diálogo com a vida, herói hoje!” é muito acertado e pode nos ajudar a refletir quando recebemos ou vemos publicações que provocam sentimentos de indignação e raiva: Isso ajuda a construir diálogos? Para impedir a manipulação das pessoas por grupos e pessoas que criam rage bait, a Mãe de Deus precisa de quem esteja disposto a ser herói hoje. Ela pode contar com você? Que propósíto você faz para ajudá-la?
1. Texto com complementos de Ir. M. Nilza P. da Silva
* Pe. Arnaldo Rodrigues pertence à Arquidiocese do Rio de Janeiro e atua como Assessor de Imprensa da Presidência da CNBB





Já cai. Mas, estou parando, pelas orientações que recebi de pessoas de luz. Agora estou sem abrir o que recebo. Só abro quando diz respeito a fé.