
(Foto: Foto: Kickner/IMAGO via dw.com)
O que a decisão do Pe. José Kentenich nos ensina hoje
Ana Beatriz Biagioli Manoel Suzan* – O 20 de janeiro de 1942 ocupa um lugar central na história de Schoenstatt. Mais do que recordar um acontecimento do passado, esta data nos convida a assumir uma atitude interior: viver na confiança divina, especialmente quando a vida se apresenta como uma noite escura, marcada pelo sofrimento, pela incerteza e pela perda de garantias humanas.
Este Marco da história de Schoenstatt revela algo profundamente humano e, ao mesmo tempo, profundamente cristão: liberdade e sofrimento caminham juntos. A forma como respondemos ao sofrimento revela o grau de nossa liberdade interior – aquela liberdade última – e o nível da nossa confiança em Deus.
Enlaçamento de destinos
No 20 de janeiro, Pe. Kentenich nos mostra, de modo concreto, o entrelaçamento de destinos entre ele e a Família espiritual. Sua decisão não dizia respeito apenas à própria vida, mas ao futuro do Movimento Apostólico de Schoenstatt e de suas comunidades.
Toda existência humana se caracteriza por sua autotranscedência, isto é, está sempre orientada para algo ou alguém que não é a própria pessoa. Somente transcendendo a si mesma, a pessoa humana se realiza plenamente: Tendo algo a realizar, um Deus a quem servir ou alguém a quem amar. Uma vida gasta por amor não é perda, mas plenitude.
O que é ser livre
Nesse sentido, Pe. Kentenich nos ensina que ser livre não é agir isoladamente, mas assumir livremente a responsabilidade diante de Deus e dos outros. A liberdade verdadeira compromete, desperta o sentimento de pertença e gera corresponsabilidade. Liberdade é a capacidade de escolher e de se posicionar diante da vida que nos convoca. É fazer o que deve ser feito, ainda que custe, porque diante de uma situação concreta, a vida pede uma resposta e existe uma resposta justa a ser dada.
Ao recusar o caminho da liberdade exterior, ou seja, de não ir para o campo de concentração, Pe. Kentenich não escolheu o sofrimento por si mesmo. Ele aceitou um sofrimento inevitável, reconhecendo que há situações da vida, que não podem ser mudadas. Quando as circunstâncias não mudam e se tornam difíceis ou até lacerantes, a pergunta decisiva deixa de ser “como sair disso?” e passa a ser: como posso me posicionar diante disso? Que atitude devo tomar? Que resposta sou chamado a dar?
Essa postura não nega a dor nem a espiritualiza de forma superficial. Pelo contrário, ela transforma o sofrimento em oportunidade de amadurecimento pessoal, integrando todas as dimensões da pessoa humana.
O sentido do sofrer: Victor Frankl
Viktor Frankl, também sobrevivente dos campos de concentração, era psiquiatra e neurologista, fundador da Logoterapia, a terceira escola vienense de psicoterapia, centrada no sentido, nos ajuda a compreender essa dinâmica. Frankl mostra que o ser humano é, por natureza, orientado à realização do sentido e à efetivação de valores, inclusive diante do sofrimento.
Por meio da Tese do Otimismo Trágico, ele afirma que sofrimento, culpa e morte fazem parte da condição humana: “Nenhum de nós está livre de ser confrontado com o sofrimento inelutável, com a culpa incontornável e com a morte inescapável.”
E, apesar desses aspectos trágicos da existência, ele lança a pergunta decisiva: como ainda podemos dizer ‘sim’ à vida? Frankl nos ensina que é possível encontrar sentido mesmo diante do sofrimento inevitável e nos oferece uma formulação clara:
Sofrimento – sentido = desespero
Sofrimento + sentido = sacrifício
Liberdade e responsabilidade
Essa compreensão acima ilumina profundamente o 20 de janeiro. Pe. Kentenich não negou o sofrimento. Ele o acolheu a partir de uma confiança maior, unindo-o livremente à vontade de Deus. Assim, o sofrimento deixa de ser apenas algo que acontece e passa a ser algo assumido em liberdade.
Aceitar o sofrimento inevitável da vida não é passividade, mas liberdade com responsabilidade: a liberdade de responder ao chamado que a vida, Deus por meio dela, nos faz.
No 20 de janeiro, liberdade e responsabilidade aparecem inseparáveis. Pe. Kentenich, em plena liberdade interior, respondeu ao que a vida lhe exigia naquele momento histórico concreto. Ele não escolheu o sofrimento, mas escolheu não fugir da missão. Essa resposta transforma a dor em caminho de fecundidade espiritual.
A escolha é pessoal
A vida não nos pergunta o que gostaríamos que acontecesse, mas quem escolhemos ser diante do que acontece. “Na confiança divina,” assim Pe. Kentenich denomina o 20 de janeiro. Ele insistiu que, ao analisarmos os fatos ocorridos nesse dia, em 1942, não devemos colocar no centro a atuação humana, mas a atuação divina. O pequeno “sim” humano torna-se condição para uma grande ação de Deus. A Carta Branca e a Inscriptio expressam essa maturidade da Aliança de Amor: uma entrega total e confiante, que aceita a cruz como caminho de fidelidade.
O 20 de janeiro nos ensina que Pe. Kentenich, em liberdade, respondeu ao sofrimento inevitável da vida com confiança filial em Deus e na Mãe de Deus, transformando a dor em missão fecunda e tornando viva a Aliança de Amor no grau da Inscriptio.
Aplicação na minha vida
Hoje, esse marco da história continua a nos interpelar:
– Vivemos o sofrimento como desespero ou como sacrifício? respondemos à vida com liberdade e responsabilidade ou fugimos?
Viver na confiança divina é um chamado exigente, pois nos tira do controle, que pensamos ter, e nos coloca na lógica da entrega. Isso é profundamente libertador, porque nos permite responder à vida com liberdade interior, mesmo quando o caminho passa pela cruz.
Escolha duas dessas perguntas para refletir
- Como compreendo hoje a liberdade: como autonomia pessoal ou como responsabilidade assumida?
- Minhas escolhas têm levado em conta apenas meu bem-estar ou também o bem do outro?
- Onde sou chamado(a) a viver uma liberdade mais comprometida?
- Que sofrimentos inevitáveis fazem parte da minha vida hoje?
- Costumo lutar contra o que não posso mudar ou consigo assumir com serenidade?
- O que significa, concretamente, aceitar sem desistir?
- Já vivi sofrimentos que me levaram ao desespero? Por quê?
- O que muda quando encontro sentido em um sofrimento?
- Há algo que hoje posso oferecer como sacrifício confiado a Deus?
- Em que sinto que a vida me pede uma resposta mais madura?
- Em que situações tenho adiado decisões por medo do sofrimento?
- O que significa, para mim, responder à vida com liberdade e responsabilidade?
- Em quais áreas da minha vida ainda busco mais controle do que confiança?
- O que hoje me impede de viver uma entrega mais plena?
- Qual passo concreto de confiança posso dar nesta semana?
*Ana Beatriz Biagioli Manoel Suzan é logoterapeuta e pertence à União de Famílias de Schoenstatt.





Adorei ler o texto. Prendeu minha atenção do início ao fim. Muitas benção do Pai Fundador Pe. Kentenich. 🙏
O texto me fez refletir sobre a confiança em Deus, mas com responsabilidade.
Cada vez aprendo mais com o Pe kentenich
Lendo o texto…senti que tenho muito ainda que aprender sobre a total confiança…a Providencia Divina está a nossa frente, a Alianca selada com a Mãe…enfim a Carta Branca. As 15 questões sensaCionais para reflexões. PK nos deixou uma grande missão de sermos Mães canonizáveis!
Lendo o texto compreendi o quanto preciso crescer na fé e na entrega a Deus pai , sou pequena demais , mas com a graça de Deus e com a luz do Espírito Santo aos poucos estou entendendo a missão. Maria a Grande Missionária e educadora me inspira na caminhada, fazendo a vontade de seu filho Jesus!