
Larissa Rodrigues – Cuidar de alguém doente é aprender a escutar antes de falar. É estar presente quando o corpo já não responde, quando as palavras falham e quando o tempo passa a ter outro ritmo. Desde que minha mãe sofreu dois AVCs hemorrágicos, há exatos quatro meses, em 12 de outubro de 2025, minha vida gira em torno desse cuidado diário. Hoje, ela está acamada, completamente dependente, em cuidados paliativos, e eu sou sua principal cuidadora. Ao contrário do que muitos pensam, esse caminho não se tornou um fardo, mas uma forma concreta de viver a Aliança de Amor.
Entre a urgência e a espera
Tudo começa de forma abrupta. Minha mãe enfrenta uma cirurgia de emergência da qual poderia não ter resistido. São 57 dias de internação, sendo três semanas e meia na UTI, enfrentando meningite fúngica, intubação e diversas complicações. Cada dia é vivido com apreensão, sem garantias, mas com muita fé. Uma grande corrente de orações se cria entre amigos e conhecidos, sustentando nossa família.
O hospital se torna nossa casa. Em cada mudança de leito, levamos conosco uma pequena imagem da Mãe de Deus, sinal concreto de que não estamos sozinhas. O tempo passa a ser medido por exames, visitas médicas, medicamentos e longas esperas. Nesse cenário, o diálogo ganha um novo sentido. É preciso aprender a ouvir, compreender limites e acolher notícias difíceis, com discernimento para transmiti-las com esperança.
A missão de ser filha
Sou publicitária, atuo na área da comunicação e nunca me imaginei atuando na área da saúde. No entanto, por acompanhar minha mãe em todo o tempo de internação, aprendi muitas coisas e, graças a Deus, consigo cuidar dela em casa sem grandes desafios. Com frequência me perguntam se sou da área da saúde, e minha resposta é sempre a mesma: não, não sou da área da saúde. Sou filha.
Após a alta, o cuidado continua em casa. Já retornamos ao hospital algumas vezes por diversas intercorrências. Cada nova ida relembra a consciência da fragilidade da vida e da condição paliativa da minha mãe. Segundo a Organização Mundial da Saúde¹, os cuidados paliativos garantem dignidade e conforto integral até o fim. Essa definição ajuda a compreender que não se trata de uma desistência, mas de uma mudança de foco: o centro deixa de ser a cura a qualquer custo e passa a ser a pessoa, com sua história e dignidade.
O diálogo com Deus na incerteza
Em cada ida ao hospital, surge uma angústia silenciosa. Um aperto no coração acompanha o trajeto, junto da pergunta que nunca se cala: vamos conseguir voltar para casa? Nesse momento, o diálogo se volta para Deus. A oração se transforma em entrega para que Ele conduza cada situação da melhor forma, mesmo quando isso ultrapassa o que o coração humano consegue compreender.
Essa confiança se fortalece na vivência da Aliança de Amor. Não há explicações racionais para a serenidade que me acompanha, nem para a firmeza interior com que consigo atravessar esse tempo. Existe, sim, a certeza de que posso recorrer à Mãe de Deus, confiar-lhe cada passo e encontrar abrigo no meu Santuário-Lar, Tabor da Confiança Filial. Essa presença constante dá sentido, ordem e paz ao cotidiano.
É um aprendizado diário de confiança, abandono e fé. Como escreve Ana Claudia Quintana Arantes na obra Cuidar até o fim: “O amor é a maior coragem possível, porque se amamos muito uma pessoa, mas dizemos que não estamos preparados para perdê-la, é porque ainda não a amamos o suficiente”².
Esse caminho interior encontra eco nas orações do Rumo ao Céu: “(…) o Pai tem o leme nas mãos, embora eu desconheça o destino e a rota. Agora me deixo guiar cegamente por ti: quero escolher somente tua santa vontade; contigo atravessarei noites e trevas, porque teu amor sempre vela por mim.” (399-400)³. E ainda: “(…) então minha aliança conclama ao alto todos os impulsos: ‘Chegou a hora do teu amor!’” (589)³.
Gestos que sustentam o cotidiano
No dia a dia, o diálogo transborda as palavras e se manifesta nos pequenos gestos. Ele está no tom de voz, na delicadeza do toque, no tempo dedicado e na paciência para repetir cuidados simples diariamente com o mesmo cuidado. Mesmo que minha mãe não se comunique e o silêncio impere, a comunicação permanece viva: um olhar atento e um toque respeitoso transmitem a segurança e o afeto que as palavras já não alcançam.
Essa conexão se fortalece quando converso com minha mãe sobre o cotidiano, conto situações e explico cada procedimento que realizo. Ao incluí-la na rotina, impeço que ela se sinta apenas uma paciente. Meu objetivo é que ela continue se reconhecendo como mãe, esposa, irmã, tia e avó, sentindo-se uma presença viva na nossa história. Afinal, no livro A morte é um dia que vale a pena viver, a autora reforça que: “Não existe nada mais sagrado do que estar ao lado de quem está morrendo. A pessoa que vive esse momento não deve sentir-se um peso, mas alguém valioso para quem está ali”⁴.
Vozes que iluminam o caminho
Na mensagem para o Dia Mundial do Doente, celebrado ontem, o Papa Leão XIV recorda que vivemos numa cultura marcada pela pressa, que nos impede de parar para olhar o sofrimento. Ele afirma que o bom samaritano “parou, ofereceu-lhe proximidade, curou-o com as próprias mãos e, sobretudo, deu-lhe o seu tempo”⁵. Esse tempo doado transforma o cuidado em encontro.
Essa percepção do que realmente importa viver se intensifica profundamente diante da finitude. Como escreve Ana Claudia: “Quando se está próximo da morte, a percepção do que realmente importa viver se intensifica de maneira profunda. Tudo que não faz sentido para uma vida plena perde espaço”4. Essa consciência muda prioridades e amplia o valor do essencial.
O Dia do Enfermo como convite
Este dia nos convida a rever nossa forma de nos aproximar de quem sofre. O diálogo, em suas múltiplas expressões, é parte essencial desse cuidado. Ele humaniza relações, sustenta vínculos e oferece consolo onde muitas vezes não há respostas. Cuidar é permanecer. É escutar. É estar inteiro, reconhecendo que, mesmo na fragilidade, a vida continua merecendo respeito, dignidade e amor.
Referências bibliográficas:
¹ Organização Mundial da Saúde. Definição de Cuidados Paliativos.
² Ana Claudia Quintana Arantes. Cuidar até o fim.
³ Pe. José Kentenich. Rumo ao Céu.
⁴ Ana Claudia Quintana Arantes. A morte é um dia que vale a pena viver.
⁵ Papa Leão XIV. Mensagem para o XXXIV Dia Mundial do Doente, 2026.




