
O Combate entre o Carnaval e a Quaresma – Pieter Bruegel, o Velho
Ana Paula Paiva – Como há muito já se sabe, a palavra “carnaval” significa despedida da carne, uma referência ao último dia antes do início da quaresma, na quarta-feira de cinzas. Antes do cristianismo, a data significava uma celebração pagã da fecundidade, especialmente na Grécia e Roma, embora remonte muitos séculos antes da própria comunidade grega lhe dar algum significado.
A Igreja Católica, sábia e prudente, não cria, portanto, o carnaval dentro de seu calendário litúrgico, mas dá a ele significante cristão quando aponta o caminho da conversão a partir da renúncia, da esmola, da oração e do jejum.
Já a quarta-feira de cinzas se encontra presente em nosso calendário litúrgico desde a Igreja primitiva, sendo consolidada a partir do século VI. Já no Antigo Testamento remonta a ideia de cinzas como penitência e humildade, especialmente quando o povo lança sobre si as cinzas do arrependimento em Nínive, junto ao profeta Jonas. No século XI, o Papa Urbano II oficializa a utilização de cinzas nas celebrações da quarta-feira, primeiro dia da quaresma, como representação do nosso arrependimento, humildade e pedido de misericórdia e conversão.
As cinzas nos lembram da transitoriedade da vida e da necessidade de crermos no Evangelho em nossa vida cotidiana, em nossos deveres comuns e ordinários. Aproveitando que a arte sacra nos ajuda a vislumbrar e meditar verdades espirituais significativas, observe a imagem acima, “Batalha entre Carnaval e Quaresma”, pintada por Pieter Bruegel, o Velho, 1559.
Nela é possível perceber o grande dilema moral entre as festividades do carnaval e os exageros que podem advir dessa realidade: bebida, sexualidade desenfreada, palavras que ferem e se tornam violências diversas, sujeira, degradação moral. Embora nenhum evento seja moralmente terrível em si mesmo, o quadro mostra perfeitamente bem como a liberdade humana, quando não bem ordenada, opera desmandes inimagináveis em nome da felicidade e do prazer momentâneos.
De outro lado, também perfeitamente bem retratado, está a Igreja, como refúgio e âncora para as mazelas deste mundo, contendo exageros e, como corpo de Cristo que é, ordenando a vida espiritual dos cristãos que dela se aproximam com arrependimento sincero. O quadro retrata as doações (esmolas) sendo convertidas em atos de caridade para os mais necessitados, a oração incessante em meio à confusão do mundo, de pobres senhoras que se recusam a desistir de suas famílias, sendo o jejum representado com nobreza, ao lado de beberrões que engordam às custas da própria intemperança.
A taberna cheia e a Igreja vazia são significantes que representam a dificuldade de cumprir os planos de Deus e de escolher pela alegria verdadeira, e que não passa nunca. E mesmo após tantos séculos depois dessa belíssima obra ser pintada, a verdade é que iniciar a quaresma não é uma simples data litúrgica, senão o início de uma batalha enorme que se passa, como a arte sacra, dentro de nosso próprio coração.
Se essa batalha fosse real em nosso coração: quem venceria?
Todos nós temos más tendências e dificuldades e, dia após dia, nos deparamos com decisões que nos mortificam ou dão prazer imediato, em um ciclo de dopamina eterna que não sacia e que não tem fim. Por isso, meditar esse quadro medieval pode nos permitir encontrar quais as mazelas que nos representariam hoje e como podemos perseguir o caminho da salvação usando esse tempo tão especial da quaresma, como fonte de força e graça. Contamos com uma grande guia, educadora e vencedora de todas as batalhas: pela aliança de amor temos ao nosso lado Maria, que nos ensina a perseverar e a buscar sempre pelo bem.
Pe. José Kentenich, Pai e Fundador de nossa Obra de Schoenstatt, entendia a mortificação como um elemento essencial de nossa vida espiritual. Mas, de maneira bastante sábia e em encontro com nossa expressão pedagógica particular, aborda a mortificação como elemento que causa alegria a Deus e não como uma pena de si mesmo ou como abandono da própria individualidade. Para ele, a mortificação ajuda a conter as ânsias do homem em perder-se em si mesmo, e a garantir que se torne cada vez mais filho amado de Deus (Viver com alegria, volume I).
Que como ele, aprendamos a encontrar oportunidades de amar mais a Deus a partir de pequenos atos concretos e diários, que podem ser expressão de entrega, prudência e profunda liberdade.




