Pe. Vitor Hugo Possetti* – A Campanha da Fraternidade 2026 propõe a reflexão sobre o direito à moradia digna. Falar de moradia é falar de família, dignidade e direito à cidade; para os cristãos, é também falar do lugar onde Deus quer habitar.
Nesse horizonte, a vida do Venerável João Luiz Pozzobon, diácono permanente e pai de família, oferece um testemunho luminoso e atual.
Santa Maria/RS, crescimento urbano e periferias
Entre 1950 e 1985, período de intensa atuação do Pobre Diácono com a Campanha do Santo Terço, Santa Maria passou de cerca de 40 mil para mais de 180 mil habitantes. O crescimento acelerado não foi acompanhado por políticas públicas suficientes de habitação e infraestrutura. Multiplicaram-se ocupações e periferias marcadas por precariedade, como o Cerrito e a Vila Bilibio – locais onde João instalou capelas, organizou comunidades e desenvolveu forte ação evangelizadora e social.
Da Capela do Capim à Vila Nobre da Caridade
Em 1952, ao visitar uma família que vivia numa casa muito precária no Cerrito, João soube que, para acolher a imagem da Mãe Peregrina dentro da casa, haviam ido dormir fora com os cabritos. Comovido, mobilizou a comunidade e ergueu uma capela de madeira coberta de capim – seria mais tarde a Capela Azul.
Ao redor dela, em 1º de maio de 1954, fundou a Vila Nobre da Caridade, chegando a construir 14 casas. Seu objetivo era claro: “construir moradias para quem nada tinha, oferecê-las gratuitamente por tempo determinado, ajudar na regularização civil e eclesial, apoiar a educação das crianças e promover um espírito de família.”
João afirmava ter escutado no coração: “Aqui construirás casinhas para os pobrezinhos… meio prático de conquistar almas para o céu.” E completava: “Também o corpo deve ser cuidado para cumprir a vontade do Pai.” Um lugar para o “acolhimento espiritual e material”.
Para garantir organização e dignidade, Pozzobon criou um regulamento com orientações do Ministério do Trabalho: cuidar da casa, manter a limpeza, plantar, respeitar os vizinhos e renovar o pedido de moradia. Cada casa recebia o nome de uma flor, que devia ser cultivada.
Alegrava-se quando as famílias se estruturavam, economizavam dinheiro que gastariam no aluguel, compravam terreno e construíam seu próprio lar. Nesses casos, davam lugar à outra família na Vila Nobre.
Direito à cidade, educação e cuidado integral
João intuía que a periferia precisava de mais do que teto. Na Vila Nobre, fundou a escolinha “Vicente Pallotti”; na Vila Bilibio, construiu uma sala de aula para evitar que crianças atravessassem o viaduto do Vacacaí, em risco. Articulou-se com o poder público para garantir professores e alimentação. Também perfurou poços para assegurar água potável nas duas vilas.
Fé, moradia, educação, saneamento e evangelização estavam interligados. A casa e toda a comunidade eram lugares de promoção humana e de encontro com Deus.
Para João, a Vila Nobre, as pequenas capelas, os poços, também faziam parte da Campanha do Santo Terço e eram obras da Mãe Rainha, pertenciam à “Missionária”. Ele se considerava o “burrinho de Maria”, um instrumento em suas mãos.
Evangelizar nas casas e nas periferias
Todos os fins de semana, João peregrinava às capelas Azul, Branca e Rosa. Com simplicidade, visitava as famílias, tomava um cafezinho, rezava o terço com elas, organizava catequese, mediava conflitos, encaminhava processos civis, celebrava batismos, assistia matrimônios e levava a comunhão aos enfermos.
Na Campanha do Santo Terço, visitava “pequenas casas e grandes palácios”, mas acentuava especialmente as “fronteiras das paróquias”, como ele dizia. A partir das visitas domiciliares, identificava necessidades espirituais e materiais e promovia campanhas a partir das necessidades, como cobertores, alimentos, contatos de emprego, entre outras iniciativas.
Entrar nas casas era um meio para que “a misericórdia de Jesus” alcançasse todos os lares.
Método da proximidade
Dom Leomar Antônio Brustolin sintetiza sua ação como método da “proximidade”: Primeiro passo: Ir ao encontro da dor real; logo, Incluir, integrando os pobres na rede evangelizadora; e então Gerar processos que humanizam e evangelizam, rezando o Rosário, estimulando corresponsabilidade comunitária, “A visita deixa de ser assistencialismo para tornar-se Aliança”.
O arcebispo de Santa Maria postula que “da experiência de Pozzobon derivam critérios operacionais: a) Primado das pessoas: pastoral com nomes e rostos; b) Rede comunitária: fazer da piedade popular plataforma de inclusão; c) Integração liturgia-caridade: toda ação social nasce e retorna à mesa da Palavra e do Pão; d) Conversão missionária: “sair da comodidade” para alcançar periferias reais e e) Processos de justiça: a caridade pessoal anima estruturas de tutela da vida e dos direitos.
Entre esses, identificamos, por exemplo, o direito à moradia digna e o direito à cidade.
Na missa de corpo presente de João, Dom Ivo Lorscheiter afirmou que os 140 mil quilômetros percorridos por Pozzobon com a imagem de Nossa Senhora rezando o Terço e seu serviço aos pobres revelam um apostolado “completo e global”.
Um testemunho para CF 2026
Num contexto de crescimento urbano e carências estruturais, João não esperou soluções ideais. Começou com a oração do santo terço, a imagem peregrina, madeira, capim e coragem.
A moradia digna é direito humano e expressão concreta da caridade cristã. É também campo privilegiado de evangelização, já que “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14).
Que a Campanha de 2026 e o exemplo do Venerável João Pozzobon inspirem a cada um de nós e nossas comunidades a uma reflexão e atuação concreta em vista do direito à moradia digna e de uma igreja em saída, a partir de nossas realidades e possibilidades.
Como dizia o Pobre Diácono Peregrino sobre a Vila Nobre da Caridade: “É um meio prático de conquistar almas para o céu”.
“Por apenas uma alma, já valeria a pena.”
* Pe. Vitor Hugo Possetti é Vice-Postulador da Causa de Beatificação do Venerável Diácono João Luiz Pozzobon
Referências
ARQUIVO DIÁCONO JOÃO LUIZ POZZOBON. Documentos históricos, manuscritos e registros da Vila Nobre da Caridade. Santa Maria/RS.
BRUSTOLIN, Dom Leomar Antônio. Conferência no Congresso Acadêmico sobre João Luiz Pozzobon. In: Congresso Internacional: Nos passos do Peregrino: sobre vida e obra do Diácono João Luiz Pozzobon. Santa Maria: UFN, 2025.
CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2026. Brasília: Edições CNBB, 2026.
URIBURU, Pe. Esteban J. João Pozzobon: Peregrino e Missionário de Maria. Argentina: Editora Patris, 1999.
ALBARELLO, Tales Henrique. O Programa CURA I em Santa Maria (1979-1985). Anais do XI Encontro Estadual de História – ANPUH-RS. Rio Grande: FURG, 2012.





Conheci por lá! Abençoado e dedicado trabalho! Abraço!
Diácono Pozzobon compreendeu na íntegra o projeto de Deus para o Diáconato: servir a mesa da palavra, a mesa eucarística e o desdobramento das duas na concretude do chão da Vida. Servir a mesa dos pobres na integralidade do evagenlho. Cristo que se doa na mesa da Palavra, da Eucaristia e na partilha com os irmãos e irmãs mais vulneráveis e necessitados.
Peçamos sempre a intercessão do Diácono Pozzobom em nossa missão diaconal!
Paz e bem !!!