Parte 3
Dr. Pe. Marcelo Cervi* – A reflexão sobre a liderança no mundo atual, especialmente no contexto do ministério presbiteral, conduz-nos naturalmente ao tema do acompanhamento pastoral. Acompanhar significa ajudar as pessoas a discernir a ação de Deus em suas vidas. O verdadeiro acompanhante não forma dependentes nem controla consciências. Sua missão é favorecer a liberdade interior, ajudando cada pessoa a reconhecer a própria vocação e a responder pessoalmente ao chamado de Deus. No fundo, acompanhar é ajudar o outro a descobrir o modo concreto como Deus o conduz e o chama à santidade.
Essa tarefa torna-se particularmente importante no contexto cultural em que vivemos. Encontramos hoje muitas pessoas feridas, confusas, sem referências estáveis e profundamente solitárias. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em sua obra A Sociedade do Cansaço, afirma que a sociedade contemporânea deixou de ser uma “sociedade disciplinar” para tornar-se uma “sociedade do desempenho”. Nela, cada pessoa sente-se permanentemente pressionada a produzir mais, realizar mais e superar continuamente seus próprios limites.
Segundo Han, o indivíduo moderno acredita ser livre, mas acaba transformando-se em explorador de si mesmo. Torna-se simultaneamente patrão e escravo. Como consequência, multiplicam-se enfermidades psíquicas e emocionais, como burnout, depressão, ansiedade e déficit de atenção. Trata-se de uma cultura marcada pela hiperatividade, pela pressão do sucesso e pela incapacidade de parar, contemplar, descansar e construir vínculos profundos. Como resposta, o autor propõe a redescoberta do silêncio, da contemplação, dos relacionamentos autênticos e de uma vida menos dominada pela lógica da produtividade permanente.
Muitas pessoas carregam esse cansaço interior, e essa realidade também atinge o clero. Muitos sacerdotes vivem continuamente ocupados, mas interiormente esgotados. Pouco a pouco, alguns perdem a capacidade de silêncio, contemplação, fraternidade e até mesmo de verdadeiro descanso em Deus. O risco é transformar-se em simples “funcionários do sagrado”: constantemente ativos, mas cada vez menos interiorizados.
Por isso, ao refletirmos sobre o acompanhamento pastoral, somos levados antes de tudo a olhar para dentro da própria comunidade presbiteral. É preciso aprender a acompanhar-nos mutuamente. Os presbíteros diocesanos necessitam de espaços de vida, escuta, fraternidade e crescimento compartilhado. Precisam de experiências humanas e espirituais que fortaleçam vínculos e ofereçam proteção contra o isolamento sacerdotal e o individualismo, tão presentes também na vida do clero.
Nesse sentido, torna-se evidente a importância das fraternidades sacerdotais, dos institutos e das diversas formas de vida comunitária que ajudam o padre a cultivar sua identidade vocacional, sua vida espiritual e sua capacidade de servir. Cada sacerdote, segundo sua história, seus dons e sua sensibilidade espiritual, necessita encontrar caminhos concretos que o sustentem em sua fidelidade cotidiana.
Os grupos de Schoenstatt para presbíteros diocesanos (Instituto, União e Liga), cada qual com sua modalidade própria, oferecem esses espaços. Neles cultiva-se sobretudo uma profunda experiência de filialidade, capaz de levar o sacerdote a tornar presente algo da paternidade de Deus no meio do povo. Isso exige proximidade, paciência, capacidade de escuta e profunda vida interior.
Ser pai espiritual significa caminhar com as pessoas, respeitar seus tempos de amadurecimento, acolher suas fragilidades, sustentar suas lutas e despertar nelas a esperança. Muitas vezes, mais do que respostas prontas, as pessoas necessitam encontrar alguém que permaneça ao seu lado e lhes devolva a confiança na ação silenciosa e constante de Deus.
Entretanto, ninguém consegue acompanhar verdadeiramente os outros se deixou de acompanhar a si mesmo. Ninguém pode tornar-se pai espiritual se não aceita também ser filho. Não podemos falar de fraternidade se vivemos isolados, nem ajudar outros a amadurecer se nós mesmos deixamos de crescer. O ministério sacerdotal corre o risco de perder sua fecundidade quando se afasta dos vínculos que sustentam a vida humana e espiritual.
Talvez uma das maiores riquezas que a espiritualidade de Schoenstatt oferece ao clero diocesano seja precisamente a cultura das vinculações: uma cultura de fraternidade sacerdotal, acompanhamento mútuo, corresponsabilidade e cuidado espiritual recíproco. Um sacerdote sozinho torna-se mais vulnerável ao cansaço, ao ativismo e ao endurecimento interior. Um sacerdote vinculado, acompanhado e interiormente livre torna-se, ao contrário, fonte de vida para os outros.
No fundo, somente um pai espiritual pode acompanhar verdadeiramente as pessoas que lhe são confiadas. E a paternidade espiritual nasce menos da função recebida e mais da capacidade de amar, escutar, esperar, carregar os fardos dos outros e permanecer fiel ao longo do tempo. Essa capacidade não surge espontaneamente nem é fruto apenas da ordenação sacerdotal. Ela é formada lentamente pela graça de Deus, pela experiência pastoral, pela convivência fraterna e pela presença de pais e mestres que ensinam, com a própria vida, a arte de cuidar das almas.
Aliás, essa é uma das grandes necessidades da Igreja em nossos dias: contar não apenas com sacerdotes eficientes, competentes e organizados, mas com verdadeiros pais espirituais. Homens profundamente unidos a Deus, vinculados aos irmãos e capazes de conduzir outros ao encontro pessoal com Cristo. Em última análise, toda liderança cristã encontra sua plenitude quando se transforma em paternidade, e toda paternidade espiritual encontra sua fonte e seu modelo no coração do Bom Pastor.
*Dr. Pe. Marcelo Cervi é Reitor Geral do Instituto dos Sacerdotes Diocesanos de Schoenstatt
Leia:
Parte 1: Liderança e acompanhamento pastoral: Liderança como serviço
Parte 2: Liderança e acompanhamento pastoral: Formação do líder