
Foto de Simon Hurry na Unsplash
Marcos Weizenmann – Iniciamos 2026 com o Dia Mundial da Paz, comemorado no primeiro dia de cada ano. Esta celebração foi instituída pelo Papa São Paulo VI, em 1967, a fim de colocar a busca da paz no centro das reflexões, em todo o mundo.
Assim, no dia 1º de janeiro de 1968, no primeiro Dia Mundial da Paz, o Papa Paulo VI dizia: “Desejaríamos que, cada ano, esta celebração se viesse a repetir, como augúrio e promessa, no início do calendário que mede e traça o caminho da vida humana no tempo que seja a Paz, com o seu justo e benéfico equilíbrio, a dominar o processar-se da história no futuro”.[1]
Desde então, a cada ano, o Papa envia uma mensagem especial para o Dia Mundial da Paz.
Uma paz desarmada e desarmante.
A paz de Jesus Cristo, uma atitude de fé e de encontro, uma paz desarmada e desarmante. Hoje o Papa Leão XIV celebra o 59º Dia Mundial da Paz com o seguinte tema: “A Paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante”[2]. Assim, ele reforça as primeiras palavras que dirigiu a todos na Praça de São Pedro, logo após sua eleição: “A paz esteja com todos vós”. São as mesmas palavras que Jesus dirige aos discípulos, ao encontrá-los após sua Ressurreição.
Jesus é quem nos traz a verdadeira paz! Já o profeta Isaías o anuncia como “Príncipe da paz” (Is 9,5). Após a Ressurreição, triunfante sobre a morte, o pecado e a violência, Jesus diz aos discípulos as palavras breves e fortes: “A paz esteja convosco!” (Jo 20,19). Os discípulos se alegram, provavelmente num misto de espanto e alegria. Jesus repete: “A paz esteja convosco!” E acrescenta: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20,21).
A paz de Cristo não é a paz da mera tranquilidade ou da ausência de conflitos.
É uma paz ativa, que imediatamente nos coloca em movimento: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (Jo 20,21). É aquela paz que também toca o coração de Maria, ao receber a notícia de que seria a Mãe do Senhor: ela não se acomoda, mas se coloca a caminho “apressadamente” para ajudar sua prima Isabel (cf. Lc 1,39ss).
Ao estar com seus discípulos na última ceia, Jesus lhes diz: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo 14,27). De fato, a paz de Jesus não é a paz do mundo. O mundo frequentemente vê a paz como a ausência de conflito ou ausência de inquietações pessoais. Esta paz dada pelo mundo pode nos alienar da vida e das pessoas, como quando nos retiramos para “ter paz” ou quando simplesmente dizemos: “Deixem-me em paz!”
Ao contrário disso, a paz de Jesus é ativa!
É inquieta! Ele inicia sua pregação no Sermão da Montanha com as bem-aventuranças, onde proclama: “Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.” (Mt 5,9) É uma grande novidade! A paz precisa ser promovida, buscada, conquistada… E quem o faz torna-se verdadeiramente filho de Deus! A paz de Cristo é uma atitude, é uma busca de encontro.
Papa Leão XIV lembra em sua mensagem de hoje que a paz de Cristo é uma paz desarmada e desarmante. É uma “paz desarmada” porque é um verdadeiro paradoxo chegar à paz através das armas, ainda mais para os cristãos! Jesus é enfático ao admoestar Pedro que o tenta defender com a espada: “Mete a espada na bainha!” (Jo 18,11).
É uma “paz desarmante” porque Jesus nos conduz a uma atitude de vida e a um processo de conversão, no qual a paz e a bondade se tornam um estilo de vida, um estilo de santidade de vida. Eu me desarmo daquilo que pode machucar a mim e aos irmãos e, aos poucos, ajudo meus irmãos a também se desarmarem do que dificulta a paz. Diz o Papa Leão XIV: “A bondade é desarmante. Talvez por isso Deus se tenha feito criança.”[3]
A Paz por meio do diálogo com a Vida.
A paz de Cristo, que é desarmada e desarmante, só pode ocorrer no contato pessoal, pelo diálogo sincero entre as pessoas. Esta paz dificilmente se conquistará por meio da distância e das redes sociais, em que a impessoalidade gera todo tipo de conflito, nos sentimos “fortes” por estarmos distantes e entrincheirados em nossos preconceitos, destilando o veneno da polarização e vendo nossos irmãos, primeiramente, como potenciais inimigos e não como semelhantes a nós, com seus problemas bem concretos, com suas dificuldades, contradições, mas, também cheios da capacidade de amar, de olhar com ternura, de se aproximar da fragilidade dos irmãos.
O diálogo para a paz foi tema da mensagem do Papa São João Paulo II, em 1983: “A paz não se estabelecerá sem que se usem os meios para isso. E o meio por excelência consiste em adotar uma atitude de diálogo, em introduzir pacientemente os mecanismos e as fases do diálogo… nas famílias, na sociedade, entre as nações.”[4]
Em diálogo com a vida
Nos anos de 2026 e 2027, o lema da Família de Schoenstatt no Brasil é: “Em Diálogo com a Vida, Herói Hoje!” A carta que lança este lema nos leva à reflexão sobre um diálogo, que nasce da realidade concreta: “O valor central do diálogo nasce de um olhar à realidade. Muitas coisas preocupam muita gente, inquietam e deslocam.” E ainda: “O diálogo é um processo diferenciado, exige de nós uma atitude firme.”[5]
O diálogo com a vida, que é com a vida concreta, nos leva a uma atitude de transfiguração da realidade. Em vez de teorizar sobre a vida ou de entrar em conflito com a vida, nossa atitude deverá ser a de dialogar com ela, encarar a vida e fazer nascer atitudes de transformação e de paz, como João Pozzobon, que declarava com ousadia: “Herói hoje!”
O venerável João Pozzobon trouxe à vida inúmeras ações de paz, uma paz concreta, desarmada e desarmante, em favor dos irmãos. O contato com a fragilidade do próximo o fez levar a Mãe de Deus aos pequenos e necessitados, aos estudantes, aos pobres, aos presos, às famílias. O contato em sua vida pessoal com a Mãe de Deus, a Rainha da Paz, gerou gestos concretos de paz, desde o cuidado zeloso por sua família, até a Vila Nobre da Caridade, para ficar somente em dois exemplos. João Pozzobon é um testemunho da paz inquieta e de atitudes transformadoras, que nasce da Aliança de Amor com Maria, do diálogo com a vida e do encontro com a fragilidade dos irmãos e irmãs.
A fragilidade dos outros também nos desarma
“A fragilidade humana tem o poder de tornar-nos mais lúcidos em relação ao que dura e ao que passa, ao que faz viver e ao que mata. Talvez por isso tendamos, tão frequentemente, a negar os limites e a fugir das pessoas frágeis e feridas: elas têm o poder de questionar a direção que escolhemos, como indivíduos e como comunidade”.[6]
Em Diálogo com a Vida, Herói Hoje, nos 365 dias de 2026!
Oremos juntos:
Ó Senhor, iniciando 2026 com o Dia Mundial da Paz e com o dia de Santa Maria, a Mãe de Deus e Rainha da Paz, estejamos abertos à transformação, ao diálogo sincero com a vida. Que Jesus, nascido bebê, desarmado de tudo, impregne nossa vida com esta paz desarmada e desarmante, com a paz do encontro e do diálogo com a fragilidade do outro, com a paz que anuncia o Reino de Deus, fazendo de nós “heróis hoje”, no hoje de cada dia do Ano Novo! Amém!
[1] Papa São Paulo VI. Mensagem para o Dia Mundial da Paz. 01/01/1968. Parágrafo 1.
[2] Papa Leão XIV. Mensagem para o Dia Mundial da Paz. 01/01/2026. Título.
[3] Papa Leão XIV. Mensagem para o Dia Mundial da Paz. 01/01/2026.
[4] Papa São João Paulo II. Mensagem para o Dia Mundial da Paz. 01/01/1983.
[5] Pe. Antonio Bracht. Lançamento do Lema 2026-27 da Família de Schoenstatt do Brasil.
[6] Papa Francisco. Carta ao Diretor do jornal italiano “Corriere della Sera”. 14/03/2025.





Grande amigo Marcos!! Que bom começar o ano refletindo contigo sobre os tantos significados desta mensagem!
Grato!!
Feliz 2026 a toda a família de Schoenstatt que tanto me ensinou e ajudou a aprofundar minha fé!
Obrigada, Marcos, por este texto reflexivo tão essencial e ao mesmo tempo tão abrangente para indicar os caminhos em diálogo com a nossa realidade, levando-nos a realizar ações apostólicas concretas a qualquer hora e em todos os ambientes onde estivermos.