
Foto: Monte das Oliveiras – Wikipédia
Pe. Carlos Padilla – A Quaresma tem muito de interioridade. É tempo de busca no silêncio, de esvaziar-se para encher-se de Deus, somente d’Ele. No entanto, esse caminho não é simples. Uma cena do Evangelho ilumina essa realidade: «Cada um foi para sua casa; e Jesus foi para o monte das Oliveiras». Enquanto o mundo procura conforto e refúgio no cotidiano, Jesus busca a intimidade com o Pai na oração.
Essa intimidade provoca questionamentos. O silêncio faz surgir perguntas profundas: o que pensa Deus da vida de cada pessoa? Como Jesus olha para cada um? O que Ele encontra de bom no coração humano? São perguntas exigentes, que nem sempre encontram respostas imediatas. O silêncio confronta, exige escuta e pede que as muitas vozes interiores sejam silenciadas para que a alma encontre espaço de recolhimento.
O exemplo de Jesus
O Evangelho (Jo 8:2) mostra que Jesus frequentemente se retira para o monte a fim de rezar e guardar silêncio. Desse encontro com o Pai nasce a força para voltar ao meio do povo: «E pela manhã voltou ao templo, e todo o povo veio a Ele; e, sentado, os ensinava». Depois do silêncio e da escuta de Deus, Jesus caminha novamente ao encontro das pessoas. O silêncio prepara a palavra e fortalece a missão.
Essa dinâmica revela algo essencial para a vida espiritual. Muitas vezes a pessoa fala muito e guarda pouco silêncio. Procura fora de si uma paz que não encontra dentro. Também não a encontra no mundo, porque fora tudo corre rápido demais, há ruídos e interferências constantes. As demandas são muitas, como também acontecia com Jesus. Por isso Ele precisava retirar-se, afastar-se por um tempo até mesmo daqueles que o procuravam. Para servir melhor, cuidava do seu mundo interior, da oração, do silêncio e da solidão.
O valor do silêncio
Aprender a estar sozinho é uma tarefa que acompanha toda a vida. Quando isso não acontece, a pessoa pode acabar espalhada pelo mundo, buscando consolo, paz e luz em lugares que não conseguem oferecer isso. Romper com o excesso do mundo exterior não é fácil, pois nele se encontram distrações e descansos aparentes. No entanto, quando o silêncio cresce, cresce também a profundidade da alma.
Uma frase antiga recorda: «Para qualquer mal não há mais que dois remédios: o tempo e o silêncio»¹. O tempo ajuda a ordenar muitas coisas dentro e fora do coração. O silêncio permite olhar para si mesmo e para os outros sem julgamento ou condenação.
É verdade que o silêncio nem sempre resolve tudo. Às vezes também pode ferir, porque não oferece respostas. No entanto, muitas vezes ele protege. O silêncio evita palavras que poderiam ferir e cria espaço para escutar verdadeiramente o outro. Também existe um silêncio compartilhado, quando duas pessoas permanecem juntas sem necessidade de muitas palavras. Nesse espaço nasce uma paz profunda.
As pessoas silenciosas costumam guardar um mundo interior rico e profundo, que não exibem constantemente. Cuidar desse mundo interior é algo importante. Nem tudo precisa ser exposto. É necessário proteger aquilo que habita na alma.
Interiorização e encontro com Deus
O silêncio também ajuda a perceber a presença de Deus no coração. Quando cessam os ruídos exteriores, o interior começa a se aquietar. As águas do coração, muitas vezes agitadas por tantas vozes e movimentos, encontram repouso. Porém, quando o coração está cheio de distrações e preocupações, torna-se difícil interiorizar, aprofundar e olhar para dentro.
O Pe. José Kentenich, Fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt, expressa essa realidade ao afirmar: «Vivências de Deus, interiorização de Deus; o intimar com Deus, ter vivências divinas, ter a vivência de Deus. Assim, não apenas conhecer a Deus. Vivências de Deus até o profundo do subconsciente, da vida da alma»².
A experiência de Deus acontece no mais profundo do ser humano. A contemplação conduz a esse silêncio interior. Nesse espaço a pessoa pode percorrer a própria alma sem medo do que encontrará. Aprender a estar só torna-se um bem precioso.
Muitas vezes o interior humano guarda dores, perdas e medos. Recordações difíceis podem surgir. Ainda assim, o caminho da cura passa por esse encontro com o próprio interior. Somente ao retornar a esse lugar profundo é possível, pouco a pouco, encontrar a paz e permitir que Deus ilumine a escuridão do coração com a sua presença.
* Trechos traduzidos e adaptados de homilia do 4º Domingo da Quaresma, de 15 de março de 2026.





Esse artigo me tocou bastante no quesito interiorização. Tenho medo de olhar para dentro de mim. Fico só na superficialidade, descubro um pouco de mim quando alguém do meu convívio me revela como me percebe