
(Foto: Nick Scheerbart na Unsplash)
Pe. Carlos Padilla – Entre os relatos mais marcantes do Evangelho está o encontro de Jesus com um homem cego de nascimento (Jo 9,1-41). Ele vive à margem da sociedade, sentado à beira do caminho e pedindo esmolas para sobreviver. Nunca viu a luz nem enxergou o mundo ao seu redor. Sua condição parece definitiva. No entanto, quando Jesus passa por ele, algo inesperado acontece. O Evangelho narra que Jesus cuspiu no chão, fez barro com a saliva, colocou o barro sobre os olhos do cego e lhe disse: «Vai lavar-te na piscina de Siloé» (cf. Jo 9). O homem obedece, vai até a piscina, lava-se e volta enxergando. Aquele que antes vivia nas trevas agora pode ver.
O milagre que provoca questionamentos
A notícia se espalha rapidamente. Os vizinhos e aqueles que costumavam vê-lo pedindo esmolas começam a discutir entre si se realmente se trata da mesma pessoa. Alguns afirmam que sim, outros duvidam. O próprio homem insiste que é ele mesmo. O que deveria causar admiração, porém, desperta também desconfiança. Alguns líderes religiosos passam a investigar o ocorrido e procuram um motivo para acusar Jesus. A cura foi realizada em dia de sábado e isso se torna motivo de crítica. Alguns afirmam que Jesus não pode vir de Deus porque não respeita o sábado, enquanto outros se perguntam como alguém considerado pecador poderia realizar sinais tão extraordinários.
A discussão deixa de girar em torno da alegria daquele homem que voltou a enxergar. O foco passa a ser a norma e o modo como o milagre aconteceu. Esse episódio revela algo que também aparece muitas vezes na vida cotidiana. Nem sempre o bem realizado é reconhecido imediatamente. Às vezes ele é julgado pelas formas, pelo momento ou pelas expectativas das pessoas. O preconceito e as ideias já formadas podem impedir alguém de perceber aquilo que realmente aconteceu.
Um gesto que recorda a criação
O modo como Jesus realiza a cura possui um significado profundo. Ele se inclina, toca a terra e faz barro. Esse gesto recorda a origem da própria humanidade, quando Deus modela o homem do pó da terra. Não se trata apenas de devolver a visão a um homem que nunca enxergou. É como se um novo começo estivesse acontecendo. Aquele homem começa a ver o mundo pela primeira vez.
Mais tarde, quando encontra novamente Jesus, acontece algo ainda mais importante. Jesus pergunta: «Crês no Filho do Homem?» O homem responde: «Quem é, Senhor, para que eu creia nele?» Então Jesus revela: «Tu o estás vendo. É aquele que fala contigo». O homem declara: «Creio, Senhor» e se prostra diante dele. A cura física conduz a um encontro mais profundo. O homem que recuperou a visão passa também a reconhecer quem é Jesus.
A confiança que abre caminho para a fé
Algo chama atenção nessa história. O cego não pede o milagre nem suplica por ajuda. Jesus simplesmente o vê e toma a iniciativa. Quando recebe a ordem de ir lavar-se na piscina de Siloé, ele obedece e caminha ainda sem enxergar, confiando na palavra de Jesus. O barro colocado em seus olhos não parece um remédio lógico para a cegueira, mas ele aceita e segue adiante.
A confiança abre espaço para o milagre. Antes mesmo de enxergar, ele se deixa conduzir. A história recorda que a fé muitas vezes nasce assim. Ela não começa quando tudo já está claro, mas quando alguém decide confiar mesmo sem ver plenamente o caminho.
Da cegueira à luz
O relato também revela que a maior cegueira nem sempre está nos olhos. Muitas vezes ela nasce no interior, quando alguém se prende às próprias certezas ou aos preconceitos e se torna incapaz de reconhecer aquilo que Deus realiza diante de si. Enquanto o homem curado começa a enxergar, alguns que se consideram conhecedores da lei permanecem incapazes de reconhecer o milagre.
A Escritura recorda essa passagem das trevas para a luz: «Antes éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz» (cf. Ef 5,8). A luz revela aquilo que estava escondido e permite reconhecer o que realmente tem valor. Não se trata apenas de enxergar com os olhos, mas de perceber a realidade com o coração iluminado pela verdade.
Essa experiência também aparece nas palavras do Salmo: «O Senhor é meu pastor, nada me falta. Mesmo que eu atravesse vales escuros, nada temo, porque tu estás comigo» (cf. Sl 23). A imagem do pastor expressa a confiança em um Deus que conduz o caminho mesmo quando a estrada parece obscura. Ele guia para lugares de descanso, fortalece as forças e orienta pelos caminhos certos.
A história do cego de nascença recorda que todos precisam aprender a ver de verdade. Muitas vezes o olhar se detém apenas nas aparências, no imediato ou no superficial. A fé convida a olhar mais profundamente e a reconhecer a presença de Deus nos acontecimentos da vida cotidiana, nos gestos simples e até nas fragilidades da existência. Assim como aquele homem passou das trevas para a luz, cada pessoa é chamada a deixar-se iluminar. A verdadeira visão nasce quando o coração se abre para reconhecer Deus presente no caminho da própria vida.
* Trechos traduzidos e adaptados de homilia do 4º Domingo da Quaresma, de 15 de março de 2026.




Este milagre do cego narrando uma reflexão atual para estes tempos. Muitos ainda não acreditam quando contamos um graça, um milagre, um fato vindo do poder de Deus, em seu Filho e Senhor Jesus, amém.