
(Foto: Tien Vu Ngoc na Unsplash)
O relato do cego de nascença revela que a maior cegueira nem sempre está nos olhos, mas no coração que se fecha à verdade e à ação de Deus.
Pe. Carlos Padilla – O relato do cego de nascença (Jo 9,1-41) revela algo que vai além da recuperação da visão física de um homem. Ele mostra também uma realidade espiritual que acompanha a vida humana. Enquanto aquele que vivia nas trevas começa a enxergar o mundo pela primeira vez, outros permanecem incapazes de reconhecer aquilo que acontece diante deles. O episódio mostra que a cegueira pode assumir muitas formas. Nem sempre ela está nos olhos. Muitas vezes nasce no interior, quando alguém se prende às próprias certezas, aos preconceitos ou ao medo de admitir algo que desafia suas convicções. Assim, mesmo diante de um milagre evidente, alguns permanecem incapazes de perceber o que está acontecendo.
Essa experiência também toca a vida cotidiana. Muitas vezes as pessoas acreditam ver tudo com clareza, mas o olhar permanece limitado por ideias prévias, por julgamentos ou por um coração fechado à novidade de Deus. A história daquele homem curado recorda que reconhecer a verdade exige mais do que enxergar com os olhos. É preciso abrir o interior para deixar que a luz ilumine aquilo que permanece escondido.
Da escuridão para a luz
A Escritura fala desse caminho de passagem das trevas para a luz: «Antes éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz, pois toda bondade, justiça e verdade são fruto da luz» (cf. Ef 5,8-9). A luz revela aquilo que estava escondido e permite reconhecer a realidade com mais clareza. Não se trata apenas de um conhecimento intelectual, mas de uma transformação interior que muda o modo de olhar a vida e as pessoas.
A imagem do Salmo expressa essa confiança de forma profunda: «O Senhor é meu pastor, nada me falta. Mesmo que eu atravesse vales escuros, nada temo, porque tu estás comigo» (cf. Sl 23). O salmista reconhece que a vida pode atravessar momentos de sombra, de dúvida e de sofrimento, mas também afirma que Deus permanece presente e conduz o caminho. Mesmo quando a pessoa não enxerga claramente o rumo da própria história, pode confiar naquele que guia e sustenta.
Aprender a enxergar o essencial
A experiência do cego de nascença convida cada pessoa a aprender a ver de verdade. Muitas vezes o olhar se detém apenas nas aparências, no imediato ou no superficial. No entanto, o essencial costuma estar mais profundo. A fé ajuda a perceber a presença de Deus nos acontecimentos da vida cotidiana, nos gestos simples, nas fragilidades humanas e até nas situações que parecem obscuras.
Assim como aquele homem passou das trevas para a luz, também cada pessoa é chamada a deixar-se iluminar. A verdadeira visão nasce quando o coração se abre para reconhecer Deus presente no caminho da própria vida. A luz de Cristo transforma o modo de olhar a realidade, sustenta a esperança e permite atravessar os momentos difíceis sem perder a confiança de que Deus continua conduzindo a história.
* Trechos traduzidos e adaptados de homilia do 4º Domingo da Quaresma, de 15 de março de 2026.



