
(Foto: Wesley Tingey via Unsplash)
Pe. Carlos Padilla – No evangelho deste terceiro domingo da Páscoa, Lucas (24, 13-35), apresenta o encontro de Jesus com os discípulos no caminho de Emaús: “Então ele lhes disse: ‘Como vocês são insensatos e lentos para crer em tudo o que os profetas disseram. Não era necessário que o Messias sofresse tudo isso para entrar na sua glória?’. E, começando por Moisés e passando por todos os profetas, explicou-lhes o que a respeito dele estava em todas as Escrituras”.
Jesus oferece respostas que eles não tinham. São lentos e insensatos, não compreendem o que Deus queria para Jesus e para eles. Também há muitas coisas que não se compreendem. Com frequência perde-se a paz, surge a tristeza e tudo isso é apresentado a Jesus repetidas vezes. Buscam-se explicações. Mas Jesus permanece em silêncio. Nem sempre diz o que se deseja ouvir, não explica tudo, não esclarece o que aconteceu nem o motivo.
O silêncio que permite escutar
Esse silêncio é difícil. Surge a pergunta se Jesus realmente fala no caminho. Torna-se necessário fazer silêncio. Esse é o primeiro passo. Sem silêncio não é possível escutar. Nem mesmo se escuta o outro quando a mente está ocupada com pensamentos próprios ou preparando respostas. Falta clareza para compreender.
Então vem a pergunta: quando Ele fala? Há momentos em que parece que não fala, mas algo arde no interior, mesmo no silêncio. Foi isso que os discípulos experimentaram no caminho: “Não ardia o nosso coração enquanto ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?”.
Um fogo que aquece o coração
Existem momentos de luz, de intensidade interior. Momentos em que não se entende tudo, nem se encontra todas as respostas, mas há um calor que sustenta. O coração se enche de luz. Os discípulos escutaram sem compreender totalmente. Jesus fala do Messias, afirma que tudo precisava acontecer daquela forma, e mesmo assim continuam a caminho de Emaús. Não pensam em voltar. Não estão convencidos. Não compreendem tudo, mas sentem-se bem ao lado de Jesus.
Essa experiência também se repete. Há pessoas cuja presença traz paz. Estar com elas traz descanso, como um sinal do céu na vida concreta. Ao lado delas, tudo parece mais leve. O coração se enche de luz. Existe algo nelas que transmite paz, como um fogo que acende outro.
Assim era com Jesus. Por isso era procurado. Aqueles que estavam com Ele encontravam mais paz e se sabiam amados. Naquele dia, os dois discípulos perceberam esse fogo interior, ainda sem entender completamente.
Paz mesmo sem respostas
Também acontece algo semelhante. Há paz mesmo sem todas as respostas. Nem todas as perguntas são respondidas, nem todas as dores resolvidas, e ainda assim permanece uma confiança tranquila.
Surge então o desejo de unir-se às palavras do salmo: “Senhor, tu mostrarás o caminho da vida. Protege-me, ó Deus, pois em ti me refugio. Digo ao Senhor: tu és o meu Deus. O Senhor é a parte da minha herança e o meu cálice, o meu destino está em tuas mãos. Bendirei o Senhor que me aconselha, até de noite ele instrui o meu coração. Tenho sempre o Senhor diante de mim, com ele à minha direita não vacilarei. Por isso o meu coração se alegra e minha alma exulta, até o meu corpo repousa seguro. Pois não abandonarás a minha vida na morte, nem deixarás teu fiel ver a corrupção. Tu me ensinarás o caminho da vida, na tua presença há plenitude de alegria, felicidade eterna à tua direita”.
Permanece o desejo de buscar sempre Jesus. Que Ele dê paz, mesmo sem respostas. Que preencha o coração e acenda esse fogo interior. Que sua paz seja constante.
Caminhar com Jesus no meio das dúvidas
Jesus nem sempre responde a todas as dúvidas. Nem sempre se compreende o que Ele diz ou o que acontece. Nem sempre há luz no meio da noite. Nesses momentos, quando o medo surge, permanece o desejo de encontrar paz junto d’Ele. Caminhar ao seu lado, permanecer com Ele, deixar que o tempo passe e que o silêncio seja preenchido por sua presença.
Esse caminho de Emaús reflete a própria vida. Um caminho de dúvidas e medos, de perguntas sem resposta, de possibilidades que nem sempre se realizam. Um caminho com tempestades e dias claros. Um caminho com descobertas e buscas que nem sempre chegam ao fim.
É o Jesus que permanece na barca e acalma a tempestade. É o Jesus que chama da margem para partilhar a mesa depois da pesca. É o Jesus que se deixa tocar nas feridas. Não exige compreensão total. Apenas pede confiança. Convida a caminhar junto, a soltar os medos, a não se apegar ao que dá segurança, mas a confiar que tudo pode ser maior do que parece no momento.
* Trechos traduzidos e adaptados de homilia do 3º Domingo da Páscoa, de 16 de abril de 2026.




